NOS dias que correm é sempre um desafio imensurável abordar assuntos relativos à autonomia das mulheres. Contudo, a motivação é ainda maior, não só porque falar de género esteja na moda, mas também porque se está no mês das mulheres. Para quem se encontre ainda distraído, já aí vai um lembrete. Comemora-se o 4 de Março a criação do Destacamento Feminino; a 8 de Março o Dia internacional para os Direitos das Mulheres e para a Paz Internacional e a 7 de Abril o Dia da Mulher moçambicana.
Pelo menos existe um mês em que as sociedades são convidadas a reflectir sobre a situação da mulher em Moçambique. Sim, pelo menos isso, três datas sugerem obrigatoriamente a reflexão, embora muito se comemore e pouco se reflicta.
Mas não quero me prender às datas. Quero com muita ousadia felicitar o atrevimento e irreverência de jovens feministas moçambicanas, que enojadas com inúmeros episódios de estupro e violação sexual (quase) sempre terminadas em homicídios, vistas na comunicação social, decidiram contrariar (poderosas) vozes que sem qualquer responsabilidade acreditam e fazem acreditar que a culpa dos estupros e violações sexuais é das mulheres. É realmente de enojar quando se ouve daquele cuja obrigação deveria ser exigir segurança, justificar o bárbaro e cobarde acto indagando “o que essas mulheres fazem nas ruas de noite? Está claro que estão a pedir para serem violadas.”
Várias razões fazem com que as mulheres, jovens e até adolescentes se façam às ruas de noite, poderia trazer várias situações, mas me convém citar as mais óbvias. É por (quase) todos sabido que adolescentes engrossam as estatísticas de estudantes no curso nocturno, não me parece a mim que o curso nocturno seja frequentado à luz do dia.
É nos dias de hoje comum e cada vez mais frequente ver mulheres de diferentes áreas de trabalho (enfermagem, segurança, recepcionistas, telefonistas) fazerem turnos, também não me parece a mim que os turnos aconteçam só durante as convencionais “horas de expediente”, mesmo que fosse, é repugnante ouvir cada vez mais vozes machistas e irresponsáveis a engrossar a lista de culpas que as mulheres forçosamente têm de carregar.
As mulheres, em Moçambique, são por si mesmas vítimas natas só pelo simples facto de terem nascido do sexo feminino.
São vítimas de um sistema patriarcal que ensina que toda “grande mulher” só é detectável quando esta estiver por detrás de um grande homem.
Desde sempre a mulher foi culpada de tudo socialmente errado. A mulher é culpada se o parceiro a bate, é culpada se o vizinho a destrata, é culpada se o professor a assedia, é culpada se o cobrador de chapa a molesta. Facto é que a “feminização” da culpa está a ganhar contornos assustadores quando se diz que os homicídios antecedidos por violações sexuais e estupro são culpa das mulheres.
É mais preocupante ainda quando se absolve os criminosos e se justifica os actos criminais. Precisa ter sangue frio para diante de cenários de crimes de tal natureza conseguir encher a boca e com tamanha arrogância perguntar “de onde elas vinham?”; “que tipos de roupas traziam?”; “o que faziam ali naquela hora?”
Tais perguntas desprezíveis merecem a resposta à altura que as jovens feministas estão a dar através da campanha de advocacia iniciada em Novembro do ano passado, nos 16 dias de activismo contra a violência contra as mulheres. É preciso que mais vozes façam eco as vozes de mulheres injustiçadas, mulheres repreendidas, mulheres impedidas de ser e estar protegidas pela Constituição da República no seu artigo35, Princípio da universalidade e igualdade.
É preciso que mais vozes deem corpo às vozes feministas que exigem segurança e proteção das sociedades que fazem o estado laico e de direito.
Para que nenhuma criança tenha de ser estuprada e nenhuma mulher tenha de ser sexualmente violada, é preciso que mais vozes digam: 24 horas, a noite e o dia pertencem-nos!
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Ps: A minha saia curta não tem nada a ver contigo. Portanto, ela não é um convite ao estupro e nem a violação sexual.
MARIA FELICIANA VELEMO
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