A sociedade civil de Cabinda, realiza no sábado (14.03) uma marcha
contra as "violações dos direitos humanos e das liberdades fundamentais e
a má governação em Cabinda”.
A marcha, segundo os organizadores, tem como propósito a denúncia dos
atropelos aos Direitos Humanos e a falta de transparência na
administração do erário público e exigir, por outro lado, o cumprimento
da lei dos padrões universais referentes à administração da Justiça e da
boa gestão económica.
A DW África, entrevistou José Marcos Mavungo, Coordenador da Marcha e
Ativista dos Direitos Humanos em Cabinda, uma região que “é neste
momento vítima de um despotismo feudal e ao mesmo tempo de uma violenta
repressão. Cabinda produz muita riqueza e é tida como uma vaca leiteira.
As riquezas de Cabinda estão concentradas nas mãos de uma minoria que
não as quer partilhar. Ao mesmo tempo, o empresariado local está
praticamente descapitalizado, perseguido e ninguém pode questionar o que
está mal, ninguém pode criticar e ninguém pode manifestar as suas
opiniões”.
Questionado se a sociedade civil de Cabinda, que organiza esta
manifestação, já tem autorização das autoridades para a realização da
marcha no sábado, José Mavungo evocou a lei angolana.
Segundo ele, "legalmente, a manifestação não carece de qualquer
autorização das autoridades. Simplesmente os manifestantes informam as
autoridades de que vai haver uma manifestação, definem os objetivos da
mesma e então pedem ao Governo para que a polícia esteja presente com a
missão de evitar vandalismo e distúrbios. Nós seguimos todos os tramites
legais. E além disso, a Declaração universal sobre os direitos humanos
diz que a manifestação é um direito legítimo”, sublinhou o ativista.
Manifestações não carecem de autorizações
Mavungo disse à DW África que o governo convocou os organizadores da
marcha para tentar “fintar-nos e em resposta demos todos os
esclarecimentos. Em seguida, disseram-nos que a manifestação iria criar
distúrbios no seio da sociedade. Mas perguntamos porquê? Porque não
somos do MPLA (o partido no poder) ou porque somos da oposição? Será que
o MPLA é o único que congrega no seu seio homens com sentido cívico e
na oposição não há nada disso? Então respondemos que isso não passa de
uma intimidação. Estamos ao serviço do povo, em defesa da justiça e a
manifestação só vai ser travada pela força das baionetas. Foi esta a
mensagem que passei ao Comandante da Polícia e outras entidades em
Cabinda que não apresentaram qualquer tipo de argumentação sobre a
proibição da marcha”.
Em manifestações ou marchas de protesto ocorridos anteriormente em
algumas cidades angolanas, os participantes foram espancados,
molestados, presos, etc.. E será que desta vez os manifestantes não irão
correr um certo risco?
“Todas vezes que em Cabinda foram realizadas manifestações, houve uma
presença bem forte da polícia, tanques militares, helicópteros de
combate e outros meios para intimidar e reprimir as pessoas. E já
dissemos que quem não arrisca não petisca. A liberdade tem um preço e
estamos preparados para pagar este preço” disse de forma clara e
determinado o nosso entrevistado.
Perguntamos ainda a José Mavungo se a manifestação de sábado não
seria mais uma das muitas que já tiveram lugar em Angola e que na
verdade provocaram poucas mudanças na situação do país? Segundo a
tivista “é verdade que nos últimos anos já tiveram lugar muitas
manifestações em Angola, algo que provocou o endurecimento do sistema
despótico do regime. Mas acreditamos que todos os déspotas acabam por
sucumbir. A fruta por mais tempo que fique na árvore acaba um dia por
amadurecer e cair. Acreditamos que essas ações que vão tendo lugar um
pouco por toda Angola e que despertam cada vez mais indignação no seio
da população, vão sempre dar frutos.
Situação em Cabinda é cada vez pior
E o ativista cita como exemplo a situação que a população de Cabinda vive atualmente.
"Vivemos situações intolerávbeis. As pessoas são mortas como se fossem
galinhas e por essa e outras razões decidimos realizar a manifestação de
sábado. A vida humana deve e tem que ser respeitada. Não podemos cruzar
os braços quando os nossos irmãos são mortos diáriamente, quando todos
os dias somos roubados, quando todos os dias somos perseguidos e quando
todos os dias sentimo-nos estrangeiros na nossa própria terra”.
Entretanto, a cidade de Cabinda está aparentemente calma, mas segundo
Mavungo, “a população já está à espera da chegada de um forte
contingente de tropas que vai ser enviado pelo Governo. Por outro lado,
pode-se ver muitos elementos de segurança à paisana espalhados aqui e
acolá. A população comenta e lamenta a situação, mas a tensão é muito
grande”, concluiu. Deutsche Welle
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