sexta-feira, 13 de março de 2015

O “neocurandeirismo” da IURD

É UMA crença africana. A sociedade acredita na existência de uma maior interligação entre humanos e divindades, em virtude de se conceber que os agentes espirituais se apoderam dos corpos e das faculdades, vivem e se desenvolvem nas pessoas.
Quando alguém perde a vida e o seu corpo é enterrado, crê-se que o seu espírito permanece como manifestação do seu poder, personalidade e conhecimento na sociedade. Os espíritos dos mortos exercem uma poderosa influência sobre os vivos e por isso, para que haja harmonia, os indivíduos têm de os acomodar e seguir a sua vontade. O mundo espiritual é uma continuidade do mundo dos vivos no sentido em que, mesmo após a morte, os mais velhos continuam a orientar e controlar os seus descendentes. Pelo que o africano acredita que o seu sucesso e insucesso dependem de uma força sobrenatural. É comum encontrarmos pessoas que acreditam ser o sofrimento e a miséria uma condição humana pré-estabelecida por Deus, da qual não podem fugir – “este é o meu destino”.
Estas crenças africanas, concretamente a crença no poder dos espíritos na vida das pessoas, criaram espaço para o desenvolvimento do “curandeirismo” como forma de controlar o poder destes espíritos, sobretudo os maus. A prática do “curandeirismo” ganhou espaço na sociedade, porque cria condições para que as pessoas estejam protegidas e revestidas contra os maus espíritos.Na sua Teologia sincretizada, a IURD alista esses antigos significados a novos elementos que a proximidade entre a incerteza do mundo urbano e a magia é percebida em várias práticas da IURD, tais como na apresentação de objectos impregnados de poder: rosa cingida, fitas, areia abençoada e tantos outros. Portanto, a IURD busca uma espiritualidade dentro de si e não mais através de mediação de instituições tradicionais. A IURD procura incorporar algumas práticas das religiões africanas nos seus cultos.
Uma parte do êxito da IURD, o que pode se considerar formatações tradicionais, parece assentar no facto de ser um “neocurandeirismo” da massa que sabe aproveitar e renovar o “stock” tradicional de crenças locais. A este respeito, a imputação demoníaca persistentemente levada a cabo pela IURD e culpabilização de ser sobre-humanos revela ser uma experiência bem sucedida.
O “curadeirismo” assenta-se na busca do bode expiatório. Para impor a recepção das mensagens, os pastores pregam a culpabilidade humana na adesão ao pecado, isto é, legitimam o mal como obra de diabo e por sua vez se auto-legitimam como enviados de Deus para salvar os necessitados. Uma prática do “curandeirismo”.
É importante ressaltar que a atribuição dos problemas da sociedade ao diabo, não considerando em nenhum momento a condição socioeconómica do país, o que se salienta no culto de libertação, apregoa-se que as aflições pelas quais as pessoas passam são os efeitos directos dos demónios, visto que todos os problemas de saúde, sentimentais e económicos são atribuídos ao diabo. Muita gente com problemas de saúde, que talvez possa advir de uma má alimentação ou que não consiga a cura devido a ineficácia dos serviços hospitalares, acaba indo a esses cultos, pensando que eles podem ser a única solução dos problemas.
Portanto, como Serra, ao aceitarem que todos os males são obra do Diabo, para o caso da IURD, os actores acabam por ver transferida (com sua adesão) para entidades sobre-humanas a responsabilidade social na génese da miséria e da violência. Notícias

DANIEL ANTÓNIO NGUETSE

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