Em entrevista à DW África, o escritor moçambicano Mia Couto criticou a
onda de violência xenófoba que tem assolado a África do Sul e a
passividade das autoridades perante este problema.
Mia Couto escreveu uma carta aberta ao Presidente da África do Sul,
Jacob Zuma, na qual condenou os atos de xenofobia que têm ocorrido no
país. Em entrevista à DW África, o escritor moçambicano declara que a
passividade das autoridades sul-africanas é inaceitável, e que esta onda
de violência resulta de outros problemas com raízes mais profundas que
assolam a sociedade sul-africana.
DW África: Qual é a sua opinião acerca dos ataques xenófobos contra moçambicanos na África do Sul?
Mia Couto: É completamente inaceitável o que está a
suceder desde há alguns dias em várias cidades da África do Sul. É um
fenómeno recorrente: desde 2008 que este tipo de crimes - temos de
chamar as coisas pelos nomes - tem vindo a acontecer. Podemos dizer que
há problemas de xenofobia em todo o mundo, mas na África do Sul
atingiram uma dimensão e um grau de tolerância e passividade por parte
de quem tem que tomar medidas que não é aceitável de maneira nenhuma.
DW África: Quais considera serem as causas para esta onda de xenofobia no país?
MC: Há vários tipos de causas. Há causas mais
profundas, como as expectativas que foram criadas depois da libertação
da África do Sul e que depois não foram cumpridas, e portanto há todo um
segmento de população mais pobre que permaneceu pobre, e é fácil nesse
segmento criarem-se bodes expiatórios e a ideia de que os culpados são
outros. E há ainda outras razões e situações diversas que confluem para
isto, como, por exemplo, as declarações incendiárias feitas pelo Rei,
pelo senhor Presidente e por entidades a diversos níveis, que depois
ajudaram a criar este clima de violência.
DW África: Porque decidiu dirigir uma carta aberta ao Presidente da África do Sul?
MC: A ideia que pretendo transmitir é que os escritores
e as pessoas da arte e da cultura de um lado e do outro da fronteira
podem fazer alguma pressão e podem criar uma espécie de território onde
se faça um contrabalanço e se contrarie esta onda. É importante referir
que a maior parte dos africanos é contra esta situação. Há manifestações
na África do Sul que são claras e que mostram que a maioria dos
sul-africanos também está preocupada e não adere a este tipo de
iniciativas de violência.
DW África: Há trabalhadores sul-africanos a serem expulsos de
Moçambique e outros a serem impedidos de entrar no país. Acha que esta é
a resposta adequada?
MC: Não, mas é aquela que é mais fácil, e isto também
tem de ser trabalhado para evitar que haja um clima de retaliação em que
se responda com uma violência que é gratuita e que leva a uma escalada
de tensões que é de evitar a todo o custo. Não é que Moçambique esteja
isento destes fenómenos de xenofobia: nós próprios já os tivemos, mas
numa escala completamente localizada e que foi contida de imediato pelas
autoridades.
DW África: Muitos moçambicanos consideram que estes ataques
revelam um sentimento de ingratidão da parte da África do Sul para com
Moçambique. Concorda?
MC: Absolutamente. A História relativamente recente
mostra que Moçambique se sacrificou muito pela África do Sul, aliás, foi
o país que mais se sacrificou. A economia foi muito afetada, o que foi
só por si uma grande tragédia. Moçambique foi atacado e bombardeado, mas
nós tínhamos uma alma e uma causa: eram os nossos companheiros, os
nossos irmãos. Não é aceitável que as autoridades sul-africanas agora
tenham a passividade que têm tido em relação ao que está a acontecer.
DW África: Na sua opinião, o que deve ser feito para pôr fim a estes ataques?
MC: É muito difícil dar uma fórmula para terminar com
esta onda de ataques, mas uma das coisas que pode ser feita é uma maior
pressão por parte dos moçambicanos, dos zimbabueanos e dos países
vizinhos, e principalmente por parte dos próprios sul-africanos. Além
disso, é importante que se enfrentem os outros problemas de fundo, que
são as carências e a falta de resposta às necessidades básicas das
pessoas mais pobres da África do Sul, porque são elas que estão a atacar
os seus irmãos mais pobres também.
É importante ajudar o país a resolver não só a questão da xenofobia,
mas também as outras dificuldades que afetam a sociedade sul-africana,
porque tudo isto pode acabar por caminhar para um outro problema de
outra dimensão e de outra natureza. Agora é com os estrangeiros, mas
pode ser que mais tarde haja outro tipo de convulsões, de instabilidades
internas, e que têm a ver com a própria sociedade sul-africana.
A arte e a cultura têm um papel importante, e a nossa ideia enquanto
escritores moçambicanos é criar laços diretos com os escritores
sul-africanos, de maneira a que se perceba que estamos na mesma
trincheira, na mesma luta. Ainda podemos converter o negativo em
positivo, aprender com estas lições, esquecer esta dor e superar a
vergonha pelo que está a acontecer, e transformá-la em algo positivo. Deutsche Welle
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