sábado, 16 de maio de 2015

Lampedusa: não é aqui que termina a odisseia

É pelo Mediterrâneo que entram milhares de imigrantes, sobretudo do Norte de África, que sonham com a Europa. Itália é o destino. Há quem pague milhares de euros para ali chegar.
 
Biniam Slmoon, 20 anos, Zeraw Tage, 18, e Zerihun Yimia, 25, da Etiópia, deambulam pelo porto de Lampedusa, Itália. Querem deixar a pequena ilha e seguir viagem à procura de trabalho na Europa, mas o mau tempo não deixa os barcos entrar. Chegaram há uma semana num bote de borracha com outras 332 pessoas e sentem que já estão ali há demasiado tempo à espera. Não são os únicos com urgência de partir. Mais à frente, estão quatro homens da Eritreia, entre os 17 e 34 anos, chegados há dois dias e já impacientes. Saltaram a vedação do centro de acolhimento onde estão e desceram até ao mar para reconhecer o local. Contam-nos a sua história, sem dizerem os nomes, e por correrem perigo no seu país. Fazem perguntas: "Como se pode sair daqui?" Respondemos que só de barco ou de avião. A resposta apanhou-os de surpresa. Daí, nova pergunta: "É preciso documentos?"
Ouviram falar pela primeira vez de Itália aos homens que os levaram de etapa em etapa e pela qual dizem ter pago 3000 e 4000 euros. Do país nada sabiam, muito menos que iam desembarcar numa pequena ilha em vez de numa grande cidade europeia onde queriam encontrar trabalho.
Mesmo quem diz não ter pago a viagem paga sempre. Os refugiados "pagam sempre qualquer coisa em cada etapa que passam, com dinheiro ou com trabalho", confirma Emiliano Abramo, coordenador da Comunidade de Santo Egídio na Sicília. "Quando chegam à Líbia, que é a principal passagem para a Europa, pode acontecer de tudo. Se têm dinheiro seguem, caso contrário os traficantes arranjam-lhe um patrão. Trabalham durante cinco ou seis meses, 14 horas por dia, e, quando perguntam pelo pagamento, dizem-lhes que não pagam. Depois surge a polícia, que arranja sempre uma desculpa (falta um documento, carimbo) para os meter na prisão. Quando estão na cadeia, dizem-lhes para pedirem dinheiro à família se querem a liberdade. Na prisão há tanta violência, incluindo a sexual, que fazem tudo para sair, só lá ficam os esquecidos", relata.
Lampedusa é uma vila piscatória, não especialmente bonita, e só com um hotel de quatro estrelas. A beleza está concentrada no mar, de um azul-turquesa intenso. Por isso, Conchita, 32 anos, e Catarina, 55, mãe e filha que alugam as suas casas no verão, pedem: "Não falem dos imigrantes, falem do mar!"
Temem que as notícias sobre imigrantes desesperados a desembarcar na ilha afastem os turistas. Esta é a única queixa que têm contra os estrangeiros que chegam à Sicília, pois compreendem as suas razões. "Também emigrei. Estive três anos na Venezuela e 25 na Suíça. Todos têm direito a comer", diz Siragusa Salvador, 72 anos. Mas acabou por regressar a Mineo, a sua terra, que fica perto do maior centro de acolhimento de refugiados da Europa.
 
Em Lampedusa, os estrangeiros vão para o Centro de Primeiros Socorros e Acolhimento (CPSA). Deveria ser por 48 horas, mas, por vezes, ficam mais de uma semana. Eles querem trabalhar e depressa, seguir viagem para os "países ricos": Alemanha, França ou Bélgica. "Itália é um bom país, mas dizem que não tem trabalho", explica quem acaba de pisar solo europeu. "Vêm nos barcos e, mal percebem que têm pé, saltam borda fora. Já me perguntaram onde se apanha o comboio ou o autocarro. Digo-lhes que estão em Lampedusa, que é uma ilha pequena, e vejo a desilusão nos olhos", conta Michele Burgio, 57 anos, funcionário da câmara, pescador nas folgas.
Emiliano Abramo, coordenador da Comunidade de Santo Egídio, que apoia estas pessoas, conhece bem os dramas. "A viagem nunca acaba nos centros de acolhimento nem na Sicília. Quem aqui fica tem sempre a esperança de obter uma autorização de residência, mas podem esperar mais de ano e meio e a maioria não tem esse tempo." Quem não consegue os papéis torna-se clandestino.
O governo italiano diz que desembarcaram 120 mil pessoas na Sicília em 2014 e, em igual período, apenas 17 mil conseguiram a legalização. Mais de cem mil estão ilegais e percorrem a Europa até obter trabalho. Como a Convenção de Dublin obriga a que o estatuto de refugiado seja pedido no país de chegada, são recambiados para Itália quando apanhados pelas polícias locais. A alteração à Convenção é um dos temas de discussão na Comissão Europeia, que aprovou nesta semana um plano para distribuir 20 mil refugiados pelos países comunitários, dos quais 704 deverão chegar a Portugal.
 

Primeiros socorros e proteção

O CPSA de Lampedusa é um dos nove que existem em Itália e pretende "garantir um primeiro socorro ao imigrante irregular, fazendo o rastreio na fronteira e hospedando-os enquanto aguardam uma decisão judicial". Rastreio este que passa pela avaliação das condições de saúde e de identificação - se não trazem documentos é registado o nome e o país -, bem como os motivos para imigrar. Agora, tem mais de 800 pessoas, apesar da lotação ser de 381, as notícias sobre a falta de condições locais são frequentes.
Na última semana, o presidente da região da Sicília, Rosario Crocetta, organizou uma visita com jornalistas, sem gravação de imagem e sem sair do pátio, para dizer que fizeram obras. "O campo é para 400 pessoas, mas quando chegam os barcos não podemos mandar embora as pessoas. Tenho de dizer que são as condições que podemos ter", explica. A presidente da freguesia, Giusi Nicolini, acusa mesmo o governo de estar a fazer política com a situação dos imigrantes e diz que a Europa é responsável. "Olhem, o que precisávamos era de não ser periferia. Pagamos tudo mais caro", argumenta.
A intenção destes imigrantes é pedir o estatuto de refugiado, o que de acordo com a Convenção de 1951 das Nações Unidas é concedido a quem é perseguido por motivos de raça, religião, nacionalidade, opinião política ou participação em grupos sociais. Mas não basta viver no meio de conflitos armados, políticos, religiosos e, até, familiares. "A situação deste ano é diferente de 2014. Estão a chegar muitos imigrantes económicos e que não têm direito à proteção. Vêm nos barcos com os outros e pensam que basta vir da Líbia para se ter asilo político, mas têm de provar que correm perigo de vida. Sofrem, correm riscos na viagem e, depois, têm de regressar aos países de origem."
Teoricamente, são repatriados, mas o número de repatriamentos é pequeno, o que demonstra que muitos saem de Itália sem requerer o estatuto de refugiado e outros desaparecem quando lhes é negada a autorização de residência, por questões políticas ou humanitárias. Muitos não trazem sequer documentos, porque lhes foram roubados, perderam ou porque não os querem mostrar, para se fazerem passar por menores de idade, já que assim teriam um tratamento especial. Por isso, quando chegam a Lampedusa, a primeira preocupação é perceber como saem dali.

Um bote e gasóleo limitado

Biniam, Zeraw e Zerihun, da Etiópia, chegaram há uma semana a Lampedusa sem percalços, depois de um dia e meio no mar. O maior problema foi a falta de água e de comida, além de terem apenas um depósito de combustível. Mas assim atravessaram o deserto do Sara no Sudão para entrar na Líbia, viagem que demorou mais de "dois meses", dizem. O grupo da Eritreia seguiu a mesma rota e método. Mais de 300 pessoas acondicionadas num barco como se fossem sardinhas e com um depósito de gasóleo. Só que o bote desviou a rota e ficou à deriva no Mediterrâneo. Valeu-lhes um telefone satélite, entregue pelos traficantes como garantia de segurança da viagem, para pedir ajuda. Foram socorridos por um "barco grande". Não sabem especificar quem foi, apenas que vestiam "trajes militares".
A missão europeia Mare Nostrum, iniciada em outubro de 2013 e que resgatou 150 mil do mar num ano, deu lugar à operação Tritão, conduzida pela agência Frontex (que controla as fronteiras europeias) mas custeada pelo governo italiano. As mortes recentes levaram a que, em finais de abril, os líderes europeus decidissem apoiar os italianos e triplicar os meios de salvamento no Mediterrâneo, com mais navios e aviões. Portugal apoia com patrulhamento.
Quando as contas estão aparentemente saldadas, são metidos nos barcos com destino a Itália. Aparentemente, porque há quem continue a pagar a dívida ao traficante e o apoio à família, que, quando sabem que chegaram vivos à Europa, "pensam que trabalham e que já estão ricos". Mas quem chega espera muito até conseguir um trabalho que não seja de biscates, esmolas, a arrumar ou a lavar carros, ou até mesmo de prostituição. Nas principais ruas da Catânia e de Palermo (a capital), os imigrantes atropelam-se para limpar vidros de carros. Alguns deambulam junto às estações de comboio para ver o que conseguem arranjar com esmolas - quem sabe, para partir.
A Catânia é a terceira cidade da Sicília, com 29 212 habitantes, mas é a que concentra maior número de refugiados, já que a 53 quilómetros tem o maior Centro de Acolhimento para os Requerentes de Asilo da Europa, o CARA de Mineo. Construído inicialmente parar albergar cerca de 1800 pessoas, americanos da base militar de Sigonella (instalações idênticas à Base das Lajes, nos Açores), acolhe agora quatro mil distribuídas por 35 nacionalidades, que vivem em 404 habitações. Tem quase tantos habitantes como Lampedusa, cinco mil. Ali vive quem espera asilo, com entradas e saídas condicionadas e que gera todo um movimento diferente na cidade.
A 17 quilómetros da Catânia, na estrada que a liga a Mineo, mulheres africanas prostituem-se. Mais de 40 ao longo de dois quilómetros. Uma diz que veio do Congo, outra da Gâmbia, mas a maioria não quer conversa. Emiliano Abramo explica: "Muitas prostituem-se para pagar aos traficantes, mas há quem o faça para enviar dinheiro à família, se não o faz cortam relações. É uma dupla tragédia, não só não se conseguem integrar na Europa como cortam relações com a família." Diário de Notícias

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