domingo, 31 de maio de 2015

Mia Couto: Sociedade Civil não é grupo de ONG´s que vai ao campo salvar camponeses

Policarpo Mapengo

“A maneira de julgar um político não é pela forma como ele é aplaudido, é pela maneira como ele é respeitado pelos seus adversários.” É desta forma que o escritor Mia Couto analisa a situação política moçambicana numa altura de expectativa sobre o que o novo executivo liderado por Filipe Nyusi vai fazer e a reacção da Renamo quanto ao desfecho da sua pretensão de governar as seis províncias onde ganhou as eleições. Mia fala, igualmente da sociedade civil e diz que está ainda numa fase embrionária.

A primeira pergunta que ocorreu, quando marcamos a hora de entrevista com Mia Couto foi “o quê nunca lhe perguntaram?”. Estávamos perante um dos maiores escritores moçambicanos e uma das vozes interventiva no cenário social e político. Mia Não se esconde por detrás dos livros. Sai deles com frequências, em entrevistas ou em palestras, como um gladiador preparado para enfrentar a dura realidade da vida e olha para Moçambique sem o toque de ficção.

Estávamos para completar os 100 dias da Governação de Filipe Nyusi. O país vivia, como vive agora, a euforia esperançosa de uma nova liderança, mas com a preocupação dos discursos ameaçadores de desestabilização proferidos pela Renamo e seu líder Afonso Dhlakama por causa das regiões autónomas. Falamos com Mia Couto sobre essa realidade nacional.

Mia Couto faz uma leitura a posição da literatura moçambicana no Mundo tendo como base a indicação de quatro autores do continente numa curta lista dos concorrentes ao “Man Booker International Prize”.  

É isso que faz essa esta entrevista. Mas a pergunta inicial nunca se calou: o quê que nunca se perguntou a Mia Couto?

 Se por um lado, nestes 100 dias de Governação de Filipe Nyusi, temos um discurso social de esperança, de outro temos de insatisfação da Renamo e do seu líder. Como se pode gerir estes sentimentos?

É difícil perceber porque, aquilo que é a exigência num dia, no outro vem uma outra coisa. É um discurso com alguma falha de coerência, com alguma falha de alguma coisa que me parece límpida, transparente e aberta. Acho que faz falta que a oposição prescinda desse discurso que intimida, não ao adversário político, mas ao cidadão comum. Há ali alguma coisa que tem que ser repensada por parte da Renamo, de que o discurso que faz e os anúncios que presta, não sirvam sempre para criar o medo. Este é país tem um trauma de guerra. Qualquer discurso que reacende essa possibilidade de um conflito vai tocar numa ferida que ainda está aberta. Quer manter uma ferida aberta, e isso é alguma coisa que não se pode fazer em política. O que se está a pedir a Renamo é que faça política, que seja um partido político que e faça da maneira que se faz política, de uma maneira leal com o jogo em cima da mesa.

 O que muitos comentaristas defendem, principalmente nas redes sociais, é que para enfrentar a arrogância da Frelimo é preciso esse discurso de guerra. Até que ponto acha funcional essa teoria?

É difícil falar de política quando eu próprio não percebo exactamente. Imagino que exista qualquer coisa por trás que não estamos a ver, que haverá, espero, negociações que aconteçam há um certo nível. Parece-me que não se pode fazer as duas coisas. A Renamo beneficiou de uma coisa que nenhuma democracia lhe podia dar. A Renamo tem um discurso contra um comunismo que não sei onde esta, contra uma Frelimo comunista… A Frelimo defendeu, nos últimos anos, um capitalismo meio tosco, meio improvisado. O que acontece é que não se pode ter dois discursos: um no parlamente e outro fora do parlamente. Não se pode fazer campanha eleitoral como se está ser feito agora, fora do período eleitoral. Falo por mim e não por mais ninguém, não represento se não a mim e mal. O que espero num partido político é que crie esta confiança. A maneira de julgar um político não é pela forma como ele é aplaudido, é pela maneira como ele é respeitado pelos seus adversários. Então, acho que essa seria uma preocupação que a Renamo teria que ter em relação a uma certa intelectualidade urbana, que olha com alguma desconfiança, com alguma distância. Nós notamos que agora o Dhlakama está a tentar reunir e explicar a intelectualidade moçambicana qual é o seu projecto. Mas é preciso que isso seja feito de uma maneira que o discurso não tenha esta ambivalência de se incendiar o povo. Agora a Renamo quase que não precisa de exercito militar, porque aquelas pessoas que são incendiadas nos comícios servem para desestabilizar o País.
 

O que acha da nossa sociedade civil neste processo, se é que podemos dizer que existe uma sociedade civil…

Existe um embrião… Acho que é um processo. Em todo o lado do mundo a sociedade civil começou por ser um fenómeno urbano, depois expandiu-se para outras zonas onde a cidadania era uma coisa mais distante. Acho que se houver esta cultura – já não chamo política, mas sim cultura – e abertura de diálogo em que as pessoas se percebem que ter ideias diferentes não significa ser inimigo ou deixar de ser moçambicano, que era uma das coisas que se colocavam antes.

Tenho sempre alguma reserva se quando falamos da sociedade civil estamos todos a falar da mesma coisa. Sociedade civil não é grupo de ONG´s urbanos que vão ao campo salvar os camponeses. Sociedade civil são várias coisas ao mesmo tempo e uma das quais são as próprias formas de organização tradicionais das sociedades rurais.

Se fizéssemos uma análise deste país através dos seus livros, em que momento estaríamos? Seria “Terra Sonâmbula”, “A Confissão da Leoa” ou numa linha mais dramática que encontramos no ”Ultimo Voo do Flamingo”?

- Acho que é uma mistura. Mesmo nos livros como “Terra Sonâmbula” feito durante a guerra, havia uma grande esperança que no final dramático o país conseguisse reconquistar confiança em si mesmo. Acho que esse é o grande desafio deste momento, de os moçambicanos voltarem a ter crença que são capazes de mudar a situação do país. Agora é muito fácil, por isso que há muita gente que tardiamente chega à situação de ser crítico da situação anterior. Nunca antes falou e agora vai surgir a dizer que sempre disse. Me parece que havia um discurso muito eufórico, de uma propaganda pouco fundamentada. Nós estamos a ver agora, por exemplo a situação da educação, que não é apenas sociedade civil que está apontar os erros, mas o próprio governo que está a fazer juntamente com a sociedade civil. A situação da educação é altamente preocupante. Quando digo da educação estou a falar do futuro de Moçambique. Então como é que chegamos a esse ponto? Como é que deixamos cair tão fundo as coisas? Por que é que não se alertou? Ou quem alertou foi silenciado, não teve coragem…é uma mistura de tudo isso.

 Hoje três ou quatro escritores continuam com grandes destaque e não está a verificar-se o movimento literário inicial como o do período da mítica Charrua. O que está a acontecer?

São várias coisas. Uma delas já falei, é a questão da educação porque esses jovens que surgem hoje e que já seriam escritores, não sabem escrever bem em nenhuma língua, nem na sua língua materna, quando não é o português, nem em português. Não têm hábitos de leitura, não têm amor pelo livro, o próprio professor não criou isso. Essa é uma parte muito séria. Também o que me parece é que se criou uma cultura de peditório, cultura de patrocínio. Tudo depende de um patrocínio, de um mecenas, se está bem colocado para que o meu livro aconteça. Os momentos férteis, felizes de cultura de um país acontecem quando há trocas, quando há vivacidade, quando há vida dinâmica, quando há vida literária. O que aconteceu naquela altura é que a Associação dos Escritores, por uma razão histórica, era um centro de debate, era um centro de vida. A geração Charrua foi resultado disso,  como também foi a geração que produziu Rui Nogar, Craveirinha, e Albino Magaia. Era gente que se sentava no café. Nem é preciso muito mais que isso, as vezes uma explanada de um café onde se reúnem, debatem, trocam ideias, insultam-se, há ali um núcleo de vida. Acho que isso deixou de haver em Moçambique e estamos a pagar esse preço.

Essa geração de Craveirinha, Rui Nogar e a Charrua, curiosamente surge em períodos revolucionários e de conflitos. Não é curiosa essa relação entre crise e literatura?

Isso aconteceu. Na história do Brasil as grandes obras literárias musicais de teatro, etc, etc, surgiram no período de ditadura. Não é que ache que a ditadura é uma coisa boa para estimular os artistas. O que acho é que as ditaduras criam  esses núcleos em que as pessoas se reúnem, trocam ideias. Na história de todo movimento cultural mundial, quando Paris foi a grande cidade onde se concentravam os pintores, músicos, não é porque eles tinham um grande apoio monetário, ou tinham lá um mecenas, acontecia porque havia essa vida, essa gente que se juntava. Agora juntamo-nos aonde?

É dos escritores moçambicanos mais premiados, com uma série de homenagens e nos últimos dias entrou para “shortlist” do “Man Booker International Prize”. Está numa constante busca pelo sucesso?

Espero bem que não. Quero experimentar novas coisas, quero desafiar-me. Não quero ter esse conforto de dizer “bom aqui já tenho!” Se procurasse o sucesso já estava assegurado. Quero mesmo ter a possibilidade de ter o risco de falhar, de recomeçar, de surpreender a mim próprio, não sei… não posso responder essa pergunta, porque não posso falar de mim próprio  assim como se saísse de mim.

Tentando escapar da pergunta, veja o que está acontecer: este Booker Prize tem 4 africanos. É a primeira vez que acontece esta grande representatividade dos africanos num prémio desta envergadura internacional. Acho que é um sinal que os africanos têm história para contar, vivem em sociedades altamente dinâmicas. Há aqui um fermento, há aqui uma coisa que está a acontecer e isso resulta numa mistura de moralidade que vem da tradição de uma grande riqueza de invenção porque as pessoas têm que se confrontar com mundo diverso. São países muito diversos culturalmente, isso tudo enriquece. É um bom sinal que agora haja espaço para a literatura africana. Conquistou ela própria. Não foi como há 20 ou 30 anos, que era uma coisa de solidariedade – “coitados deixa os tipos entrarem!” Não é assim. Já não é mais assim! Portanto, esses africanos e outros que não estão na lista dos prémios, e isso não quer dizer que eles não sejam bons, as vezes há gente muito boa que não é premiada. Há muito africano hoje que é reconhecido no mundo e com toda justiça pela qualidade literária que tem.

O que faz com que os grandes escritores continuem a escrever?

É porque eles sentem que ainda não escreveram. É como se o livro que eles quisessem realmente escrever ainda fosse o que vem depois.

E o quê que Mia Couto ainda precisa escrever?

O verbo não pode ser “precisar”. Eu não preciso escrever, quero por uma vontade que não sei explicar. É uma certa efervescência, inquietação… estou vivo!

 
Em muitas entrevistas que fez durante estes anos todos como escritor, o que acha que ainda não lhe foi perguntado?

Por exemplo, as pessoas não me perguntam se sou feliz. Nós perguntamos a pessoa “estás bem?” Mas é verbo “estar” e não é “ser”. Acho que essa é uma pergunta que, normalmente, as pessoas não fazem por um certo pudor. Também acho que não se faz essa pergunta por um certo medo. É muito possível que a pessoa responda que não. E se responde que não o que vamos fazer?  Dar-lhe um abraço?

É feliz?

Acho que estou feliz muitas vezes. Tenho uma ideia da felicidade que ela acontece em momentos e tenho uma estratégia que nos momentos em que não sou feliz esqueço-me que existo. Apago-me. Portanto, nunca curto aquela coisa da desgraça da infelicidade. Quando isso acontece distraio-me, mas reconheço que é uma estratégia de gerir, de fazer ali uma economia de “não quero sofrer!” Moz Africa View

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