segunda-feira, 25 de maio de 2015

Sobreviveram ao Sara e ao Mediterrâneo. À Europa, sobrevivem?

Chegaram à costa siciliana há dois anos, na maioria. Não encontraram o El Dorado com que sonhavam. É difícil e lenta a legalização e falta o trabalho. Os menores sem família têm proteção especial.

Sentado à sombra junto ao porto de Palermo, Balma Sebastieno segue os carros que entram e saem. Cola-se à porta do condutor que chega, dá indicações, faz-se à moeda, ouve respostas tortas. Desolado, abre a mão: "Dois carros e 30 cêntimos!". Nasceu no Burkina Faso há 23 anos e está pela segunda vez em Palermo, a capital da Sicília, agora há três meses. A primeira foi há dois anos, depois de desembarcar no porto de Augusta, Siracusa, com cem pessoas a bordo de um "barquito". Perderam-se no Mediterrâneo, quatro dias no mar, um companheiro não resistiu. "Temos de arriscar, arriscar por uma vida melhor. Não temos condições no nosso país." Trechos de uma vida contada aos soluços e entre os carros que vai ajudando a estacionar. Não deixa escapar nenhum.
O Burkina Faso é 181.º país mais pobre, numa lista de 187. E "há a guerra que começou em 2011", acrescenta Balma. Refere-se aos motins militares para destituir o presidente Blaise Campaoré, que assumiu o poder pela força em 1987 e resistiu até novembro de 2014.
"O meu pai vive na Líbia desde 2006. Eu e o meu irmão fomos ter com ele em 2011, eles ainda lá estão, não sei onde. Acabei por ser preso na Líbia, estive uns meses na prisão. Uma noite meteram-nos num camião, levaram-nos para o mar e, de manhã, meteram-nos num barco. Não sabia onde estava nem para onde ia", lembra.
Emiliano Abramo, dirigente da Comunidade de Santo Egídio, conhece centenas de histórias semelhantes. "Ser preso na Líbia é recorrente. Há muita corrupção e tudo pode acontecer naquele país. Quem não paga a viagem aos traficantes com dinheiro, paga com trabalho. Quando pedem contas ao patrão, passam a problemáticos e são surpreendidos pela polícia. E voltam a pagar para sair da cadeia."
Balma viveu quase um ano em Itália, mas a legalização tardava e resolveu seguir até à Alemanha. Mais seis meses a fazer biscates e o que aparecesse. "Disseram que só podia ter autorização de residência no país onde entrei, mas em Itália não há trabalho." Foi até à Dinamarca, recebeu a mesma resposta: voltar à porta de entrada na Europa. Tentou a Suíça. Um ano nisto. Teve de voltar à Sicília, mas também aqui o parecer foi negativo. "Não me deram asilo. Não encontro uma solução, quero pedir os meus direitos". Balma diz não ter família nem amigos. "Conheço muitos africanos, mas não posso dizer que são amigos, alguém a quem pedir ajuda".

Voluntariado para integrar

Wakar Bassa chega atrasado e é ele que tem a chave da Comunidade de Santo Egídio, na zona histórica da Catânia. Desculpa-se com o transporte que o trouxe do Centro de Acolhimento para Requerentes de Asilo (CARA) de Mineo, o maior da Europa com 4000 residentes, a 53 Km da cidade. Desajeitado, abre a porta, pergunta o que é preciso.
Nasceu no Gâmbia e é um dos 100 imigrantes voluntários de Santo Egídio na Catânia e que se juntam a 250 habitantes locais. Fazem atividades e jogos com 200 alunos distribuídos por três escolas; visitam idosos que se encontram sós; às terças e quintas-feiras levam o jantar a duas centenas de sem-abrigo. Os imigrantes falam a língua do país, francês ou inglês, menos o italiano. "Para brincar ou dar um carinho não é preciso saber a língua", responde Emiliano. E envolver quem chega em ações de voluntariado "é uma forma de os inserir na sociedade italiana". Ao mesmo tempo pregam o catolicismo, garantindo o dirigente que a oração "é muito importante para estas pessoas, com uma grande ferida espiritual".
A família pode estar na origem da fuga para a Europa, por razões étnicas, por exemplo. Mas também há quem corte os laços familiares quando chega à Europa. Não trabalham, não têm dinheiro para lhes mandar e é difícil explicar que não encontraram o El Dorado.
Wakar é mais um. "Tive problemas com a família". Pertence aos manjago, etnia minoritária na Gâmbia (0,8% da população) e na sua família havia outros grupos, incluindo os mandinga (42% dos habitantes). Desembarcou em Catânia, em março de 2014, num bote com 103 pessoas. Dois dias no mar com um depósito de gasóleo, pouca comida e falta de água.
Viajou com um primo que vivia no Senegal, país de fronteira com a Gâmbia, que também fugiu devido a conflitos étnicos. "Ele costumava ir à Líbia e sabia o caminho [Mali, Nigéria e Líbia, pelo deserto do Sara] . Quando lá chegámos, a polícia apanhou-nos. Estive oito meses na prisão, não é realmente uma prisão, é onde nos metem para depois nos levarem para trabalhar, sem nos pagar. Se reclamamos, batem-nos. Uma vez, éramos seis e estivemos sete dias a fazer um prédio. Um dia, disseram que não dava para trabalhar e fugimos quando a polícia nos levava de regresso à prisão. Caminhámos muitos dias, porque a Líbia é grande, acabámos por nos separar. Um homem viu-me passar e chamou-me - na Líbia se não respondes, podem bater e levar para a prisão. Entrei no carro onde já estavam outras pessoas. Eram dez horas e chegámos a uma praia perto da uma da manhã. Cobriram-me a cara e meteram-me num barco", relata. Wakar Bassa garante que não pagou pela travessia. Espera asilo há mais de um ano, estatuto que em 2014 apenas foi dado a dez% dos processos analisados - 3649 - e 19 mil obtiveram residência.

Nascidos a 1 de janeiro

Bonito, gaiato, Yahya Bh, prepara os legumes para o jantar do Scenario Pubblico, restaurante da escola internacional de dança contemporânea de Catânia. Tem 18 anos, aniversário que celebra a 1 de janeiro, como todos os menores que chegam à Sicília sem papéis. Perderam-nos ou roubaram-lhos, mas também há quem não os traga e minta sobre a idade. Os menores não acompanhados têm proteção especial e não são repatriados.
Yahya quer ser chef. Descobriu a vocação quando foi integrado no projeto 11Eleven, uma oficina de aprendizagem para jovens de meios desfavorecidos, incluindo os imigrantes. "O nosso sonho é crescer e criar mais oportunidades para os jovens talentosos encontrarem o seu caminho, afastando-os da rua e da criminalidade ou da exploração", sublinha Barbara Sidoti, uma das mentoras, a tutora legal de Yahya.
Um sorriso largo e que só se fecha quando se fala na família, com quem saiu em rutura da Gâmbia. "Prefiro não falar disso". Diz que os seus familiares, agora, são os italianos. "A Barbara é como se fosse minha mãe". Passeia com a família de Giovanni Assenza, o outro sócio do espaço. Já lhes deu a provar, e aos clientes do restaurante, o prato típico da Gâmbia, domoda. Gostaram, mas só voltará à ementa no outono. "É uma comida pesada".
Barbara Sidoti é legale tutore, a pessoa que representa os imigrantes menores não acompanhados perante as autoridades italianas, para que possam reivindicar o direito à proteção e obter os documentos necessários à legalização.
Em Siracusa há cerca de 170 voluntários/tutores, trabalho que foi desenvolvido pela associação AccoglieRete. "Cada um de nós cuida destes jovens, o que permite o processamento de centenas de casos, além de que somos o seu primeiro ponto de integração E muitas famílias chegam a acolhê-los nas suas casas", explica Bárbara.
É tutora de quatro menores, três da Gâmbia e um do Senegal. "Quando os conheci, percebi que estes meninos teriam poucas possibilidades de ter um futuro, embora sejam inteligentes e capazes, e decidi iniciar um projeto com e para eles, bem como para os italianos de meios desfavorecidos". Seis destes jovens começaram a trabalhar no Scenario Pubblico em outubro, entre os quais Yahya Bh. E acabam de lançar uma linha de produção de alimentos, Sapori Cult, para criar novas oportunidades.
Yahya deixou a Gâmbia com 15 anos, percorrendo o Senegal, o Mali, o Burkina Faso, a Nigéria e a Líbia. Atravessou o Mediterrâneo num bote de borracha com 130 pessoas, acabando a ser socorrido pela operação Mare Nostrum, que os trouxe até Siracusa. Tinha 16 anos. Viveu no centro de acolhimento para menores, até passar para uma casa onde vive com um grupo restrito. É a preparação para a autonomia, a sequência normal quando as coisas correm bem. Isso passa por obter um emprego, fase que Yahya já atingiu, embora seja uma espécie de bolsa social por estar a aprender. Pode ser um caso de sucesso.
O Centro Astalli, do Serviço Jesuíta aos Refugiados, também presta especial atenção aos menores, a quem acolhe, garantindo-lhes outras atividades, como o ensino do italiano e a prestação de apoio jurídico. Têm algumas histórias de sucesso, mas um dos principais problemas com que se defrontam é a fuga dos jovens. "Fogem porque querem ir para o norte da Europa, porque não gostam de estar num centro. Os números são altíssimos", lamenta Elvira Iovinei, a diretora. Defende a alteração à Convenção de Dublim, que obriga os requerentes de asilo a pedir o estatuto no primeiro país europeu onde chegaram. "Tem que ser alterada. As pessoas que chegam à costa italiana não vêm para ficar em Itália. Acabam por viajar pela Europa na ilegalidade e torna-se mais difícil a sua integração".
Até 30 de abril, chegaram a Itália 2820 menores, dos quais 1911 sozinhos. Do total, 1952 desembarcaram na Sicília, 1237 desacompanhados, segundo a organização Save the Children. Maioritariamente oriundos da Eritreia e Somália, seguidos da Gâmbia e da Nigéria.
Pape Diop tem 19 anos. Chegou à região de Ragusa em outubro de 2013, com 17. Vive em Palermo há dez meses, na Casa de Mirti, um centro para adolescentes e jovens, mas os dias são demasiado longos para o pouco que tem de fazer, não trabalha nem estuda. Passa as horas nos jardins junto ao porto, onde muitos africanos fintam o tempo com jogos de futebol. Às vezes, a disputar a bola com os italianos.
Pape sonha partir para França, Bélgica ou Alemanha, aperfeiçoar a profissão, eletricista. "Não posso ir porque ainda não tenho papéis, também não tenho dinheiro para a viagem". Já fez trabalhos de eletricista na Costa de Marfim, seu país, o que lhe deu para pagar a primeira parte da viagem. Por exemplo, custou 50 mil francos CFA, a moeda padrão na África Central , equivalente a 76 euros, para atravessar a fronteira para o Burkina Faso. E fez outros trabalhos pelo caminho.

A França finalmente

Djalo Mamadoo está do lado de fora do CARA de Mineo, onde viveu pouco mais de um ano, o tempo que demorou a obter os papéis. Teve a paciência suficiente para não sair de Itália sem estar legalizado. Cabelo comprido, boné de marca francesa, calças em camuflado, toalha ao pescoço, smartphone na mão, pinta de rapper. Quer rever amigos que lá deixou.
O Centro funciona em instalações construídas para as tropas americanas da base aérea de Sigonella. Está vigiado por militares e tem uma fila de carros junto à entrada principal que mais parece dia de romaria. Pertencem a quem ali trabalha, mas também às organizações que apoiam os refugiados, a condutores particulares que levam os imigrantes para o centro da cidade, por cinco euros cada um. São 25 a 30 euros para percorrer 53 Km, menos que os 40 a 50 que leva um taxista. É dinheiro ganho no "escuro", como os trabalhos que Djalo tem arranjado em França.
"Voltei a Itália para tratar da autorização de residência que tem de ser renovada todos os anos", justifica. Logo que obteve os papéis foi para França, fixando-se em Marselha. "Tenho trabalhado na remodelação de prédios, não é sempre, mas trabalho. Não tinha condições para ficar na Guiné-Conacri, o meu país, vim à procura de uma vida melhor. Na Europa é possível, desde que se consiga os papéis", assegura.
Djalo Mamadoo atravessou o Mali, a Argélia e a Líbia, até o meterem num barco com 120 pessoas, rumo a Lampedusa, onde atracou em março de 2013. Com quatro dias de Mediterrâneo e já sem acreditar que chegaria a bom porto. "Sofri, vi o sofrimento, mas isso faz parte da vida, temos que sofrer para encontrar uma melhor vida." Diário de Notícias

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