sábado, 27 de junho de 2015

Por que não me respeitam? Indaga menina apedrejada na saída do Candomblé

“Eu não entendo por que está acontecendo isso tudo, ficam me explicando o tempo inteiro…”, diz Kailane Campos

A pedrada ainda dói, mas menos do que a saudade do skate, seu passatempo predileto, e das aulas de geografia, sua matéria preferida. “Eu não entendo por que está acontecendo isso tudo, ficam me explicando o tempo inteiro…”, diz Kailane Campos, a menina de 11 anos agredida por ser adepta do Candomblé. Realmente é difícil de compreender: nesta quarta-feira, três dias depois de levar uma pedrada na cabeça, ela foi alvo de uma nova manifestação de intolerância na porta do IML, onde foi fazer exame de corpo de delito.

O episódio ocorreu pela manhã. Um homem passou em frente ao IML e gritou que a menina e sua avó, Kátia Marinho, de 53 anos, eram “macumbeiras” e deveriam “queimar no inferno.”
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O novo caso de violência e intolerância religiosa atrasou o depoimento que a menina prestaria à Comissão Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio, a convite do deputado Marcelo Freixo (Psol).

Mesmo assim, ela foi à Alerj, com a mãe, Karina, que é evangélica, e a avó. No plenário, elas assistiram à sessão, que teve diversas manifestações de deputados contra o preconceito, principalmente dos que também são líderes evangélicos.

Entre um cumprimento e outro vindo dos políticos, Kailane manteve o semblante fechado. O riso, que deveria ser típico de uma menina da sua idade, só desabrochou quando a avó se enrolou para usar o telefone e tirar uma foto do plenário da Alerj.

Sobre a agressão verbal sofrida no IML, disse ter ficado sem reação. “Estava dando uma entrevista para a TV. Eu não sei se ele viu a gente chegando, mas foi logo em cima da imprensa dizer que só nos davam ibope porque eu era uma ‘criança macumbeira’. Disse que sua esposa morreu há meses, e que não fizeram nada. Quando ouvi isso, só abaixei a cabeça. Não posso fazer nada.”
A menina, que quer voltar às aulas hoje, deseja a prisão de seus agressores e deu uma lição contra o preconceito, aprendida no chão forte do terreiro de Vó Kathi. “Não vou frequentar igrejas chamando as pessoas para a festa de Exu. Se eu as respeito, por que não me respeitam?”, resumiu Kailane. Ela é filha de Logun Edé, orixá muitas vezes representado como uma criança na tradição do Candomblé.

Freixo quer audiência pública para debater intolerância

O deputado estadual Marcelo Freixo (Psol) usou seu tempo de fala no plenário para provocar seus colegas a falarem sobre o caso de violência contra Kailane. “Isso não é um atentado isolado contra o Candomblé, é contra a democracia. O parlamento tem que se responsabilizar. As religiões afro são sempre alvo da intolerância, mas a gente não pode ficar refém do preconceito. Trata-se de verdadeira ameaça à sociedade”, declarou o parlamentar.

A Comissão de Direitos Humanos, que ele preside, solicitará à Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor) a identificação do veículo e as gravações feitas pela câmera interna. Os suspeitos de jogarem uma pedra na menina teriam entrado em um ônibus. Ele também promover uma audiência pública para discutir liberdade religiosa. “Todas as lideranças serão convidadas, a luta tem que ser responsabilidade coletiva, assim como a indignação”, resumiu ele. Pambazuka

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