terça-feira, 9 de junho de 2015

Religião e liberdade africana, segundo Paulina Chiziane

Religião e liberdade fizeram com que a escritora Paulna Chiziane regressasse à uma África que precisa reivindicar o seu lugar, por direito, na história universal. No lançamento do projecto África Liberta-te, a autora do “Sétimo Juramento” disse que África deve reivindicar o seu papel na construção dos fundamentos da religião. Mas também fez referência aos discursos de divisão do país como prenúncio de retorno ao colonialismo.  

Em seguida transcrevemos a apresentação da escritora Paulina Chiziane

Ao longo dos 25 anos de carreira como escritora, produzi livros viajei e o que diziam de nós africanos,  nos julgavam homens do passado. Começaram a surgir muitas questões, entre elas  “o que é África? O que é ser africano? Onde fica África? O que é identidade africana ou o que é identidade moçambicana?” Os livros que eu li foram unânimes em dizer África não conhece Deus, será isso verdade?

Vou começar por fazer esta viagem pela África. Muitas vezes quando falamos de identidade moçambicana, falamos da capulana; da matapa e da muthiana worera. Convido a fazermos uma viagem pela África profunda.

O que é África?

Foi em África que nasceu Moisés criado e educado como um príncipe pela filha de Faraó. O monte Sinai onde foi inspirado a escrever os dez mandamentos da lei de Deus está aqui no Egipto, em África.

O conceito criado de Deus único, o maior pilar do cristianismo, foi escrito aqui em África. Os primeiros cinco capítulos da Bíblia Sagrada foram escritas por Moisés que nasceu em África, aqui em África! Foi no ventre de uma africana de nome Agar, escrava egípcia, que nasceu Ismael primogénito de Abraão. Podemos encontrar isso no Gênesis 25:12, hoje conhecido como pai da nação árabe.

Boa parte do ouro do rei Salomão foi oferecido pela rainha de Sabá e veio de Ofir, localizado no reino de Mwenemutapa que abrangia o Zimbábue, Manica e Sofala. Portanto, esse Deus com que nos oprimiram, esse conceito de Deus é nosso. Por quê que nós não nos apropriamos dele?

Por quê que não se reconhece a contribuição africana para a construção das religiões universais porque tudo começa aqui? Portanto, colonialismo é isto. Tiram-te a terra, tiram-te a sabedoria e tiram-te o mais importante. Portanto, quando nós dizemos África liberta-te, deve ser o primeiro passo da libertação: a religião. Muitas vezes falamos de raízes africanas. Temos que voltar às raízes e, muitas vezes, pensa que é para voltar à cabana, não é verdade! É sim para voltar aos tempos em que Moisés escreveu o livro e influenciou o mundo. Todos vamos à igreja, mas não percebemos isto.

Fala-se muito sobre as religiões africanas e as definem como o culto dos antepassados, sem profetismo onde se adoram falsos deuses. Será que África não tem profetas? Mas afinal de contas o que é um profeta? Mondlane e Samora anunciaram para o nosso país a boa nova da liberdade, bateram-se por nós e hoje somos independentes. Não serão eles profetas? Por quê que nós africanos só aceitamos a palavra profeta quando se trata de um estrangeiro? É comum as pessoas dizerem o seguinte: não faço culto aos antepassados, não adoro falsos deuses, a minha igreja proíbe. Mas quem é o teu antepassado? Não é o teu pai? Não é a tua mãe? Não é Mondlane? Não é Samora? Mondlane é falso? Samora é falso? Que história é essa da igreja proibir o seu povo de cultuar os seus antepassados?

Quando dizem para não invocar os antepassados estão a fazer o apagamento da memória, uma lavagem cerebral, colonialismo. A invocação aos antepassados é uma invocação da memória, e sem memória não há história.

Podemos falar da ciência, podemos falar da filosofia, mas eu gosto mais de falar dos Direitos Humanos. Toda a hora quando a gente vai, sobretudo para as conferências internacionais, fala-se dos Direitos Humanos. Quem inventou os Direitos Humanos? A África foi o primeiro continente a lutar pelos Direitos Humanos, pelo direito à vida, à terra, ao nome, a tolerância a diversidade no mundo antes das convenções internacionais. Mas quando se fala dos Direitos Humanos hoje, por vezes se esquece o papel de África. Fala-se da democracia…  a democracia é algo que já existia em África, mas parece que está ser trazida de um lugar qualquer.

Se nós dermos uma volta pelo nosso país encontramos a dinastia. Encontramos aqui em Niassa, em Majune onde temos a rainha Achibângela quinta. Portanto, a eleição das rainhas é feita por um processo democrático. As vezes nós aceitamos o que vem de fora e não olhamos para os valores que estão dentro da nossa terra.

Comunicação Social, os nossos programas todos , os jornais; radios; televisão, reflectem mais a actualidade de uma maneira um pouco atrapalhada. Os nossos programas não são transcendentes,  não olham  para anterioridade, olham mais para a actualidade e não vêem a posterioridade. Vou dar um exemplo: estamos num período de crise em que há uma turbulência política. Um conhecimento da história através da comunicação social serena um povo , inspira dirigentes, isto é, ontem fomos escravos, hoje somos independentes, amanhã o que é que seremos? Se ontem fomos escravos e hoje somos independentes, e se nós agora vamos dividir o país corremos o risco de voltar ao passado e sermos escravos.

Na história da vida dos africanos há unidade. África só se tornou independente por causa da unidade. Qualquer discurso ligado a divisão é prenúncio de um novo colonialismo e as nossas televisões, as nossas rádios, a comunicação social nunca faz este reflexo, daquilo que aconteceu ontem, o que acontece e o que pode acontecer  hoje  se decisões correctas não forem tomadas? O que é que pode acontecer amanhã? E em Moçambique há um fenómeno interessante que é a proliferação das igrejas chamadas cristãs.

Se olharmos para a história no passado, primeiro foi a divisão depois foi  a falsa  cristianização, porque Jesus Cristo era o homem da liberdade. Mas os cristianismos que vieram trouxeram divisão. Não é preciso buscar nenhum comentarista, basta buscar factos, fazer programas e fazer o povo entender que dar um mau passo com a divisão do  país  podemos voltar ao colonialismo e a escravatura. Não estou a falar de política, nem partidos políticos, estou a falar de história e da necessidade de melhorar os nossos programas para inspirar os nossos dirigentes.

Então foi nesta perspectiva que eu e estes jovens maravilhosos (os que lhe apoiaram no projecto África Liberta-te) sentamos e dissemos : a vossa música,  a música que se ouve no país fala da actualidade, não fala da anterioridade, não fala da posterioridade, não é transcendente, o que é que nós podemos fazer para preencher esta lacuna. Porque um bom programa de televisão, um bom programa de rádio tem que pôr música apropriada, por isso sugiro esse programa África liberta-te que é um programa musical.

Gostaria de falar de um aspecto. Perdoem-me todos os que vão a igreja. Gosto muito de falar disto e é importante falar disto, [falar] da oração. Todo o moçambicano, todo o africano, tem orgulho de fazer parte de uma igreja. Aos domingos também gosto de ir , mas o que é uma oração?

Parece que um africano para fazer uma oração, precisa de autoridades estrangeiras. Vou ser mais clara. Dizem sou católico, sede em Roma, sou metodista sede na América, sou metodista reformada sede na Austrália, sou não sei o quê, sede no Brasil , e tu? Como africano, como moçambicano quem tu és? E depois essas pessoas quando vão para as suas lindas igrejas com muito orgulho, olham para a sua própria tradição e dizem eu não pego em coisas impuras nem pratico actos impuros.

O que são actos impuros?

É o teu pai? É o teu antepassado? É Samora? É Mondlane? porque são os nossos antepassados. Falo desses dois nomes, podia falar de muitos outros, porque para mim a pobreza verdadeira de um africano é não é ser capaz de dizer Deus na sua própria expressão. É proibido. E as pessoas vão a igreja sem perceber a colonialidade desse acto! África liberta-te, preocupa-te  com o teu Deus, porque o conceito de Deus único foi criado aqui!

A libertação de um povo é um processo. Temos 40 anos de independência. Meu filho tem 40 ano, então a independência tem a idade do meu filho. A independência do meu país é uma criança.

Se olharmos para as leis de Newton de Acção- Reacção, nós tivemos 500 anos de colonização e a nossa liberdade será total e completa daqui a 500 anos. O que temos hoje é uma etapa da independência. Ainda não alcançamos a independência. Se não nos descolonizarmos hoje e agora, seremos escravos outra vez. A linguagem da divisão é um aviso de que maus tempos podem vir se não tomarmos a liberdade como bandeira.

A geração mais velha já fez o seu trabalho, ainda temos mais de 400 anos pra marchar à caminho da nossa liberdade total e completa.

Não terminaria sem falar de um africano que gosto e que vocês também amam: Joseph Ki-Zerbo. Foi o melhor aluno no tempo dele de história na Universidade Sorbonne (em Paris). Em pleno tempo colonial, no dia da licenciatura,  pegou o seu diploma e disse: fui um dos melhores alunos, estou feliz, mas estou triste, porque a Europa não reconhece a contribuição de África, porque a Europa diz que a África não tem história. Por isso eu juro que hei-de trabalhar para mostrar o mundo que a África tem História. Durante anos e anos trabalhei e hoje temos muito orgulho de mostrar ao mundo os livros de história de África,  de autoria do grande africano Joseph Ki-Zerbo.

Portanto cada geração tem os seus desafios, 40 anos de independência sim, mas temos mais quatro séculos para chegar onde pretendemos chegar e, como uma boa africana que sou, digo que o meu país está em crise e temos que fazer alguma coisa para que este país tenha paz.

Onde está a voz do povo neste momento? Moz Africa View

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