terça-feira, 7 de julho de 2015

"Sou tão criminoso quanto eles," diz Agualusa sobre ativistas detidos em Luanda

Escritor angolano diz que também estava envolvido no projeto pacífico que pretendia que automobilistas buzinassem na rua pela democratização do país e maior justiça social. Ele considera que também deveria ser detido.

O rapper angolano Luaty Beirão, um dos 15 jovens ativistas detidos a 20 de junho em Luanda, continua em greve de fome e junta-se assim a Nito Alves que há dias está também sem se alimentar. Ambos encontram-se presos.

O escritor angolano José Eduardo Agualusa mostra-se solidário com os jovens ativistas que estão presos em Angola por alegada tentativa de golpe de Estado. Agualusa afirma que "estava envolvido neste projeto de manifestação," referindo-se àquela que seria uma manifestação pacífica levada a cabo pelos jovens e que acabou por os levar a todos para a prisão.

"O Luaty Beirão, que é uma das pessoas que estão presas e era o principal mentor deste projeto de manifestação, estava a organizar uma manifestação - à qual ele chamou "Buzina Só" - que seria uma manifestação pacífica, apelando aos automobilistas para buzinarem num determinado dia da semana a favor da democratização do país, de maior justiça social etc," revela.

Para o escrito angolano, tratava-se de "uma manifestação absolutamente pacífica, até um pouco ingénua".

Envolvimento de Agualusa

Agualusa diz que ele próprio também colaborou nesse projeto pacífico.

"Ele pediu-me para gravar um vídeo de solidariedade para com este projeto para disponibilizar nas redes sociais, o que eu fiz," relata.

"Nesse sentido, sou tão criminoso quanto eles. Se o Luaty Beirão e os jovens cometeram algum crime, eu também cometi," afirma o escritor.

Quinze jovens estão presos em várias cadeias de Luanda por alegadamente terem estado a planear um atentado contra o Presidente José Eduardo dos Santos e dar-se assim um suposto golpe de Estado.

"O que se está a passar é muito inquietante porque esta detenção não tem base nenhuma sustentável. A acusação é de tentativa de golpe de Estado, o que me parece completamente absurdo," avalia Agualusa.

"Os jovens estavam reunidos a ler um livro, são pessoas que não têm nenhuma ligação ao aparelho militar nem a algum partido, não têm nenhuma possibilidade sequer de pensar em fazer um golpe de Estado. Portanto, esta acusação é completamente absurda e, nesse sentido, é muito preocupante porque está-se a prender pessoas apenas porque estão reunidas tentando organizar uma manifestação pacifica. Isto é um recuo enorme na democratização do país," conclui o escritor.

Para Agualusa, "se um governo tem medo de 15 jovens aos quais acusa de tentativa de golpe de Estado, significa que este regime é extremamente fraco e pode ser, enfim, derrubado facilmente e a qualquer momento sem que nós saibamos muito bem o que vai acontecer a seguir, porque não há partidos políticos de oposição forte."

Falta informação sobre detidos

Em relação aos jovens detidos, a DW-África também falou com Isabel Correia, a mãe de Osvaldo Caholo, um dos jovens que foi detido posteriormente - em sua casa, na quarta-feira passada (01.07) -e está na prisão.

"A Procuradoria-Geral da República, que pronunciou-se, não nos dá nenhum detalhe," lamenta.

"Consegui falar com ele no sábado (04.07). Ele não demonstra tristeza quando vê a família, mas está preocupado. Ele alimenta-se. Hoje fomos lá levar comida, mas não era o dia para visita, então não nos deixaram entrar," revela a mãe de Caholo.

Perguntada sobre o tratamento que tem sido dado ao seu filho na cadeia, Isabel Correia diz que não sabe "se ele está a ser bem tratado".

"Está numa cela, sempre fechado. Isso não é tratamento, para quem não cometeu nenhum crime? Não sabemos onde bater para nos esclarecer, dizem que ele é preso do Presidente e não nos dizem mais nada," dasabafa.

Entretanto, deputados da UNITA, o maior partido de oposição angolana, anunciaram que vão visitar, nesta terça-feira (07.07), os 15 jovens ativistas na prisão. Deutsche Welle

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