segunda-feira, 24 de agosto de 2015

“Catorzinha” no altar

NO “chapa”, estamos naquela disposição de sempre: apertados, mal-humorados mas tranquilos. A estrada de Nwatxisene para Xikhelene é um festival de buracos sem fim. As covas ocupam toda a faixa de rodagem, lembrando um tabuleiro de “ntxuva”, jogo tradicional daqui de “Moz”. Os buracos faziam o carro andar a galope. No seu interior, nós passageiros, parecíamos cavaleiros cowboys do “Far-west” cavalgando como Trinitá ou Bud Spencer...
De repente, ouvimos umas buzinadelas. Era um casamento. O nosso motorista compreendeu a necessidade de encostar para dar passagem a caravana que se esforçava em superar os buracos de “ntxuva”. Os noivos eram transportados numa viatura de luxo, com o tejadinho aberto, onde eles acenavam aos transeuntes. E apesar do carro confortável, os noivos de pé baloiçavam “enxovalhadamente” ao sabor das covas, assim como um barco em tempestade…ou pior, num “chapa my love”. Eles ali naquele “Prado” e nós ali naquele amontoado de ferro enferrujado em movimento, a diferença não era “lá grande coisa”. Aquela estrada esburacada tinha conseguido, “equivocar-nos”, colocando-nos “democraticamente” nivelados…criando à nossa volta a ilusão de que afinal, todos passávamos pelo mesmo martírio…entre o nosso “chapa-timbaweni” e o luxuoso Prado. Por essa via, éramos “todos iguais”…afinal, o povo não passa a vida a cantar que quer igualdade? Então aquelas covas, de forma mágica tinham feito um “nivelamento social”!
Quando o carro dos noivos passou junto do nosso “chapa-timbaweni”, quase perdi os sentidos! A noiva era uma bela donzela ainda na flor da juventude. Uma princesa africana de verdade. Uma musa com a pele cor de ébano…cabelo natural ornamentado com grinaldas, sorriso luminoso de “mulala” de Nampula…só mesmo os poetas Eduardo White, Armando Artur e Luís Carlos Patraquim saberiam descrever essa diva negra! Da parte do noivo…comparando com ela, aquilo era tragédia humana! Não era possível o que eu via! Um “madala” feio, carrancudo, desdentado com rugas indisfarçadas. Tinha uma aparência furiosa. Mesmo assim, esforçava-se por manter o charme de um tempo já ido. Também tinha gosto no vestir, mas o “madala” já estava cansado.
Todavia, de uma coisa o “madala” se orgulhava e fazia questão de deixar transparecer: respirava uma boa “saúde financeira”. Era um velhote cheio de “cash”. Dormia em cima de dinheiro. Naquela passagem junto do nosso “chapa” bem podre, percebia-se que era carinhoso e apaixonado. Ele agarrava a delicada cintura da jovem e distribuía sorrisos. Era um homem feliz. Por vezes, cochichava ao ouvido dela algumas palavras românticas. Amiúde, mostrava orgulhoso a reluzente aliança no dedo… Definitivamente, o amor é assim mesmo: cego. Não se compadece com idade, perfil, aparência física, condição financeira. Parece que eles tinham nascido um para o outro, apesar da diferença abismal de idades.
 Aquilo era o sublime e o ridículo. Tanto dava para rir como para tirar lágrimas.
Em pouco tempo, no nosso “chapa”, como era de calcular, começou o “fala-fala” questionando o porquê daquela diferença de idades entre os noivos.
 - Meus senhores, aquela menina tão linda foi casar com aquele “madala”? Aquele velhote tem a idade de ser avô dela! Como os pais da jovem deixaram aquilo acontecer? Que vergonha!
 - Hoje em dia, o que conta é o “cash”. Os pais de hoje, só sonham em ter um “mukomwana” que seja um “manda-chuva”, o resto é conversa. Em pouco tempo, o “madala” vai “bazar” e deixará toda a fortuna com a “catorzinha” que continuará a curtir com os seus pais. Jogaram no seguro!
 -Afinal onde está a moral? Aquele velhote devia ser preso. O gajo é um violador de menor pá! -Moral? Os tempos hoje são outros. Isso de “moral e não moral” foi do tempo colonial. E mais: moral não compra pão. As pessoas mandaram “fumar essa coisa de moral”!
- Mandar prender o velhote? Onde você já viu um gajo cheio de “grana” a ficar “djelado”? Deixem o “madala” em paz. Ele tem taco, tem gostos e sabe viver a vida! Qual é o vosso problema? Deixem o velhote curtir. O dinheiro é dele. Onde vocês entram? Onde vos dói. Porquê essa dor de cotovelo. Deixem o “madala” curtir à vontade a sua “catorzinha”!
-Desculpa irmão, mas casar com uma criancinha é pecado. É contra a Igreja. -Olha, aquela menininha é uma pessoa ungida e abençoada por Deus. Quantas mulheres estão encalhadas por aí? O senhor é que permitiu essa bênção!
-Mas para quê casar cedo pá? Deixem os gajos, um dia esses dois vão chorar. Vão começar a trair-se a “torto e a direito”…Ela vai querer um jovem e esse “madala” uma mulher “madura”.
-Deixem a menininha casar-se a vontade, desde que tenha já passado pelo rito de iniciação, lá foi preparada para ser mulher adulta. Aqui é na África. E já agora, quem foi o curandeiro que “txunou” esse “madala” pá? Acho que deu “wasso-wasso” a “catorzinha”…
-Vocês ai…pouco barulho pá! Chega com esse “papo-furado”! Dinheiro trocado na mão! Paguem o “ chapa”. Olha, não tenho moeda de 1 metical para vos dar de troco! - sentenciou o cobrador do “chapa-timbawene”. Notícias

 ALBINO MOISÉS

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