O porta-voz da UNITA nega que o partido tenha criado um plano contra o
Estado angolano, como se alegou. Alcides Sakala diz que esta é mais uma
"artimanha" do regime num país prestes a entrar num "processo de
transição".
A União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), o maior
partido da oposição no país, recusa a autoria de um alegado plano para
atentar contra as instituições do Estado e tomar o poder pela força.
Em entrevista à DW África, o porta-voz da UNITA, Alcides Sakala, afirma
que o presidente do partido, Isaías Samakuva, escreveu ao Presidente de
Angola para "denunciar a falsidade" de um documento onde estaria
descrito o suposto plano. A UNITA acusa os Serviços de Inteligência de
José Eduardo dos Santos de produzir o documento, apesar de ele ser
atribuído ao Gabinete de Estudos, Pesquisas e Análise do partido da
oposição.
DW África: A UNITA nega este alegado plano para derrubar as instituições do Estado?
Alcides Sakala (AS): Esta notícia não tem fundamento nenhum. Foi
mais uma maquinação do regime angolano, que, em momentos de crise,
procura sempre artimanhas para criar um ambiente de medo. Com esta
preocupação em mente, o nosso secretário-geral [Vitorino Nhany] deu uma
conferência de imprensa para desmentir mais esta cabala.
DW África: Fala-se que esse suposto plano foi forjado para se ter um
motivo para uma purga militar ou criminal contra a direção da UNITA.
Acredita nesta tese?
AS: Da parte dos nossos colegas e compatriotas, tudo é possível.
Eles agiram sempre de má-fé. Conhecemos a História de Angola - nesta
fase de pouca independência, muita coisa foi forjada. E, para a UNITA,
os tempos são novos. O país vive um processo novo - procura afirmar a
paz nacional, que também é frágil, porque é preciso transformar esta paz
militar em paz social, mas este é o caminho. Portanto, não vamos entrar
nesta cabala do MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola], que
procura, através deste discurso musculado, esconder as suas franquezas.
DW África: Trata-se de uma nova estratégia das autoridades de combater a oposição em Angola?
AS: É uma nova estratégia que surge no quadro da radicalização do
discurso político, que temos vindo a acompanhar. Sobretudo quando a
maior parte dos dirigentes do MPLA começa a fazer, novamente, alusão a
situações do passado, num discurso que está a incitar à violência e
procura responsabilizar "A" ou "B". Por isso, em nome da paz e
serenidade, é oportuna a posição assumida pelo secretário-geral do nosso
partido, denunciando esta cabala e reafirmando o nosso empenho na
procura de caminhos que possam conduzir ao aprofundamento do processo
democrático.
DW África: A UNITA escreveu uma carta ao Governo de Angola sobre este assunto.
AS: Exatamente. Quando nos chegaram estas informações, a direção
do partido achou por bem dar a conhecer à autoridade mais alta do país o
que estava a acontecer, dizendo que a UNITA não tinha nada a ver com o
que estava a circular de há algum tempo para cá.
DW África: Por outro lado, a UNITA tem procurado um diálogo aberto
com o Presidente da República e com o MPLA, mas parece que, até agora,
nada disso aconteceu. Acredita que isso poderá acontecer nos próximos
meses?
AS: É tudo uma questão de tempo. Pensamos que [isso] é útil para o
país e para o processo de transição que Angola vai viver nos próximos
tempos. Porque estamos, de facto, no fim de um sistema político em
Angola. O "Eduardismo" está praticamente no fim, pelos indicadores que
vamos tendo aqui. E a nossa análise é que toda a transição devia ser
feita na perspetiva do reforço do papel das instituições - infelizmente,
frágeis, mas que terão de ser criadas no âmbito da separação de
poderes. Deutsche Welle
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