terça-feira, 22 de setembro de 2015

ILHA DE MOÇAMBIQUE: A longa luta contra fecalismo a céu aberto

O FECALISMO a céu aberto, uma prática que sempre afectou a Ilha de Moçambique, na província de Nampula, continua a causar preocupação, desafiando os esforços empreendidos pelas autoridades municipais na sensibilização dos residentes sobre a necessidade de cumprir medidas elementares de higiene e saneamento do meio.
Esta situação tem um historial longo na cidade da Ilha de Moçambique, a mais afectada pela prática na zona costeira da província de Nampula. Há muito tempo que falar da cidade da Ilha de Moçambique é sinónimo de fecalismo a céu aberto, um mau aspecto para o desenvolvimento efectivo das actividades de carácter turístico.
O agravante é que mesmo que as autoridades governamentais e municipais promovam várias campanhas de sensibilização dos munícipes sobre o perigo que representa o fecalismo a céu aberto para a saúde pública, essa prática continua nas praias da urbe.
A gravidade do problema já levou as autoridades governamentais da província de Nampula a equacionar algumas medidas administrativas para desencorajar a sua prática, que alguns relacionam com hábitos culturais das comunidades locais.
Depois de um trabalho feito pelo município e administração locais, estas chegaram a declarar a Ilha de Moçambique livre da prática do fecalismo a céu aberto, notícia que não só deixou particularmente satisfeitos os turistas nacionais e estrangeiros, que realizam ali o turismo de praia e de sol, contribuindo assim na colecta de receitas para os cofres da edilidade.
Entretanto, a nossa Reportagem esteve recentemente naquela parcela do país, onde constatou que a situação melhorou quando comparada com os tempos passados, em que, conforme está dito, era crítica, e constituía um dos principais factores que impedia ou condicionava o desenvolvimento do turismo de que aquela região é potencial.
Mas, mesmo assim, numa ronda que efectuámos pelas praias da Ilha de Moçambique, fomos confrontados com alguns focos de fecalismo a céu aberto, particularmente nas noites e madrugadas.

AINDA HÁ MUITO TRABALHO ENTRETANTO 

ENTRETANTO, alguns residentes da cidade da Ilha de Moçambique que falaram à nossa Reportagem dizem que embora o trabalho da edilidade seja visível em termos de tomada de medidas de combate ao fecalismo a céu aberto, ainda há muito por fazer com vista à eliminação da prática. “Aceito que o saneamento do meio na Ilha de Moçambique está a melhorar ou melhorou muito. O fecalismo a céu aberto na nossa cidade está a acabar, mas o que vejo é que ainda precisamos de trabalhar mais para eliminar definitivamente este problema crónico, porque há pessoas que continuam a defecar nas nossas praias”, afirmou Issufo Selemane, residente há bastante tempo naquela ilha.
Ele acrescentou que para o efeito são necessárias mais infra-estruturas básicas para o saneamento do meio, como são os sanitários públicos, latrinas melhoradas nas comunidades, pois que os que actualmente existem não são suficientes para a satisfação das necessidades biológicas de todos os habitantes da ilha.
O nosso entrevistado disse, porém, acreditar que com o trabalho que está sendo desenvolvido neste momento pela edilidade local, um dia a cidade da Ilha de Moçambique venha a eliminar definitivamente o fecalismo a céu aberto, que na realidade constitui um sério risco à saúde pública. António Samuhu foi um dos entrevistados que afirmou que gostaria que as autoridades municipais e administrativas intensificassem as actividades de descongestionamento da Ilha de Moçambique, pois, no seu entender, o crescimento demográfico na cidade constitui um dos factores que agrava os problemas relacionados com o saneamento do meio naquela zona insular.
Na sua óptica, o fim da prática do fecalismo a céu aberto deve passar igualmente pelo maior envolvimento das comunidades residentes e respectivos líderes, nas campanhas de sensibilização e limpeza sobre a necessidade do uso de latrinas ou sanitários públicos em certas áreas do município, promovidas pelos responsáveis camarários e administrativos da Ilha de Moçambique.
Para Mauro Salimo, residente no bairro de Litini, um dos emblemáticos da Ilha de Moçambique, a eliminação definitiva do fecalismo a céu aberto na cidade deve compreender também a construção de muros de vedação das praias onde essa prática é mais notória. Disse que já tinha dado essa sua proposta num comício popular orientado pelo antigo edil da Ilha de Moçambique, Alfredo Matata, que, entretanto, até agora não foi correspondida.

“CIDADE YO-COPELA” FALHOU? 

ENTRETANTO, um dos grandes projectos de descongestionamento da cidade da Ilha de Moçambique, implementado depois da introdução da governação autárquica, denominado “cidade yo-copela” que traduzido em língua de Camões significa a cidade do continente, que visa a transferência de centenas de famílias que vivem na sua maioria nas ruínas, para a parte continental, concretamente no Posto Administrativo de Lumbo, aparenta não ter surtido efeitos desejados, a avaliar pelos pronunciamentos divergentes dos abrangidos.
É preciso explicar que o projecto foi concebido e implementado também no âmbito da promoção do saneamento do meio, pois que, a concentração do elevado número de habitantes, contribui também para a existência do fecalismo a céu aberto, uma vez que os sanitários públicos disponíveis não conseguem dar vazão à demanda de utentes.
Alguns residentes que aceitaram serem transferidos para Lumbo, divergem quanto ao falhanço ou não do referido projecto. Uns dizem que o projecto falhou por alegada falta de condições básicas para habitação, nomeadamente água, transporte, energia eléctrica e outras para uma zona que se pretendia modelo, em termos da existência dessas condições. Outros afirmam que valeu a pena a implementação da iniciativa, porquanto os executores do empreendimento cumpriram as suas principais promessas feitas em tempos de auscultação às comunidades, em relação à criação de mínimas condições de habitabilidade na área, embora na realidade muita coisa reste por ser realizado com vista a atrair mais pessoas que ainda residem nas infra-estruturas degradadas na parte insular. “Conforme vê, esta zona não dá para viver porque por exemplo, não tem água, os fontanários que construíram aqui no âmbito do projecto cidade do continente, não têm água. Eles nunca se preocuparam pelo menos na sua manutenção. As casas construídas no âmbito desse projecto não têm qualidade nenhuma ou desejada no que respeita à urbanização da área. Por isso, no meu entender o projecto falhou, sendo assim, estou frustrado ”, disse Ussene Antique.
Na sua opinião, pelo contrário, as autoridades camarárias da Ilha de Moçambique preocupam-se muito em promover apenas o desenvolvimento da parte insular e José Alberto, que igualmente vive na cidade do continente, acrescentou que um dos grandes problemas para os que moram nela está relacionado com a falta de incentivos que possam motivar os jovens a combaterem o desemprego, tido como um dos factores que contribui para o aumento galopante dos índices da criminalidade, caracterizada principalmente por assaltos a residências e cidadãos indefesos. Ler +

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