Organizações não-governamentais condenam atitude belicista da Frente de
Libertação do Enclave de Cabinda, que em junho pediu a repatriação dos
cidadãos chineses residentes na província.
Quatro meses depois das ameaças feitas em comunicado pela Frente de
Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) aos cidadãos chineses que
residem na província, e da exigência feita ao Governo chinês para que
repatriasse urgentemente todos os seus nacionais, num prazo de 63 dias, é
cada vez mais evidente a ausência de cidadãos chineses em Cabinda.
As ameaças do grupo armado que reivindica a independência do enclave
angolano foram feitas a 15 de junho, depois de o Presidente José Eduardo
dos Santos ter realizado uma visita oficial à China. Durante esta
deslocação, foi celebrado um reforço financeiro chinês a Angola, sem que
tenham sido anunciados oficialmente os detalhes deste acordo.
Não se sabe se a diminuição da presença chinesa no enclave angolano
está relacionada com as frequentes ameaças da FLEC ou se é motivada pela
crise económica que o país atravessa.
No entanto, os únicos cidadãos chineses que ainda se encontram na
província de Cabinda trabalham nas grandes empresas chinesas
responsáveis pelas grandes obras públicas nos municípios de Belize,
Cancogo e Cabinda. Os trabalhadores estão sob proteção militar e os seus
acampamentos são de difícil acesso.
Apelos ao diálogo
A situação preocupa várias organizações não-governamentais (ONG)
angolanas, que condenam veementemente a atitude belicista do grupo
rebelde que reivindica a independência do enclave de Cabinda há vários
anos.
A associação OMUNGA, ONG sediada no Lobito, província de Benguela,
considera inadmissíveis as declarações violentas da FLEC contra os
civis. José Patrocínio, coordenador da organização, pede uma mudança de
atitude ao grupo armado dirigido por Nzita Tiago, afirmando que “a FLEC
deve rever imediatamente a sua posição”. Patrocínio salienta que a
OMUNGA é “a favor da discussão da situação de Cabinda, mas sem o uso de
violência”.
Também a Organização Humanitária Internacional (OHI) diz estar
preocupada com as ameaças da FLEC. O diretor executivo da ONG, João
Misselo da Silva, entende que é urgente encontrar uma plataforma de
diálogo para a solução de Cabinda, em vez de se investir contra
“cidadãos indefesos, quer sejam nacionais ou estrangeiros”.
“Queremos garantir a paz e a segurança no território de Cabinda, mas na
via do diálogo e de forma permanente”, explica Misselo da Silva.
Ainda assim, o responsável da OHI entende que o Governo angolano deve
explicar o teor dos acordos celebrados com a China durante a visita do
Presidente José Eduardo dos Santos, no sentido de se evitar qualquer
tipo de contestação e especulação.
Os detalhes, explica o diretor executivo da ONG, devem ser conhecidos
para que “os cidadãos de Cabinda tenham uma informação que lhes permita
agir de acordo com o pensamento de todos os habitantes da província que
reivindicam a independência”.
"Isso não é vida"
A DW África ouviu também o secretário provincial do Fórum Cabindês para o
Diálogo, Pedro Binda, que considera que é preciso que a FLEC compreenda
que não é com ameaças que poderá trazer a paz e o desenvolvimento à
província de Cabinda.
“Vamos desenvolver Cabinda participando e entendendo que o tempo da
guerra já passou”, começa por dizer Pedro Binda. “Se os chineses vieram
para resolver certos problemas que temos, sobretudo no domínio da
construção civil, penso que não há necessidade de ameaçar aqueles que
querem trazer algo importante”, explica.
O responsável do Fórum Cabindês para o Diálogo lançou ainda um conselho
aos dirigentes da FLEC que insistem em continuar com a guerra em
Cabinda, afirmando que “isso não é vida”.
“Vida é a instalação do poder, que protege a população, que permite a
cada um contribuir para os alicerces, evoluir, preparar os seus filhos –
que vão ser o futuro – e não permanecer no mal ou na mata, daí mandando
comunicados. Penso que isso é um atraso”, conclui Pedro Binda. Deutsche Welle
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