As ações e as vigílias de apoio aos 15 ativistas angolanos detidos
multiplicam-se. A imprensa internacional segue o caso com atenção. A
imagem do regime de Luanda estará a ser ainda mais prejudicada?
Na capital portuguesa, Lisboa, na quarta-feira (14.10), uma concentração
junto ao gabinete do Parlamento Europeu exigiu liberdade para os presos
de consciência. E em Luanda, vários embaixadores europeus reuniram-se
com o ministro da Justiça e dos Direitos Humanos de Angola para debater o
caso, incluindo a situação de Luaty Beirão, em greve de fome há 25 dias.
Os jornais de todo o mundo seguem o caso com atenção. Circulam inúmeras
petições que exigem "Liberdade, já!" para os prisioneiros políticos. A
aparente apatia governamental em relação à saúde do ativista e também a
repressão policial de vigílias têm sido alvo de críticas.
A DW África falou com o investigador angolano Paulo Inglês, da
Universidade de Munique, na Alemanha, que acaba de regressar de Luanda,
sobre potenciais consequências para o Governo do Presidente José Eduardo
dos Santos.
DW África: Será que todo este caso está a prejudicar ainda mais a imagem do regime angolano?
Paulo Inglês (PI): De certa maneira sim, está a
prejudicar, não só a nível externo, mas também a nível interno. Isto
quer dizer que alguns simpatizantes do Movimento Popular de Libertação
de Angola (MPLA), que é o partido que está no Governo, também têm
sentido uma espécie de frustração pela ação do Governo e sobretudo pelo
nervosismo que o Governo apresenta, por não saber lidar com uma
situação, que noutros contextos de democracia numa sociedade aberta é
tido como uma ação ou uma atitude normal. Se um grupo de pessoas se
reúne numa vigília no pátio de uma igreja para solidarizar-se com uma
outra pessoa que está presa, neste caso com o Luaty Beirão, isto seria
absolutamente normal. Inclusive o Governo não poderia fazer
absolutamente nada. Se tivesse que fazer, podia enviar a polícia até
para proteger essas pessoas. Em vez de justamente o contrário. Portanto,
não só a nível externo, mas também a nível interno, há cada vez mais
incompreensão da parte dos cidadãos sobre a atitude do Governo.
DW África: Acaba de regressar de Luanda. Como descreveria o ambiente que se vive atualmente na capital angolana?
PI: Por um lado, pelo facto do partido no Governo, o
MPLA, ser portador de uma política autoritária, há uma espécie de medo.
Há o medo de contestar ou contrariar a autoridade. E, em parte, o
Governo serve-se disso. Claro que as pessoas têm medo de se juntarem,
porque têm medo que chegue a polícia e carregue sobre elas. Por outro
lado, as pessoas estão a perder o medo em relação às ameaças. O que as
pessoas estão a perceber é que não faz sentido nenhum o que o Governo
faz. Está a começar a haver cada vez mais, sobretudo nas zonas mais
urbanas, e dentro da classe média emergente angolana, pessoas a
interrogarem-se se, de facto, acreditar cegamente no que o Governo diz
vale a pena, e se seguirem por aí, se não estão elas próprias a prepara
uma espécie de túmulo do futuro?
DW África: Recentemente, na greve dos taxistas, nas ruas a população
já pedia ao MPLA para deixar o poder. Acha que podemos esperar mais
ondas de protesto nos próximos tempos?
PI:
Vai depender um pouco de como as pessoas
conseguirem lidar com a crise. Em Angola não há esta cultura de depender
totalmente do Governo. Muitos angolanos não vivem do salário. E o
salário nem sempre chega para as suas necessidades quotidianas. As
pessoas têm sempre uma espécie de rede de contactos, através da qual
conseguem outros rendimentos. A questão vai depender da capacidade que
as pessoas tiverem de adquirir outros rendimentos, além do que recebem
do Estado. Para aquelas pessoas que só dependem do Estado, provavelmente
a possibilidade de haver distúrbios sociais é maior. Mas na minha
opinião, e isso faz parte da minha pesquisa, é que a grande maioria,
infelizmente, não depende totalmente do Estado. Portanto não é líquido
que a crise económica venha necessariamente trazer uma espécie de
distúrbio social.
DW África: Há dois anos, quando as manifestações nas ruas já eram
reprimidas com violência, dizia-se que Angola era um barril de pólvora.
Acha que neste momento pode dizer-se que o fim do regime está para
breve?
PI: É difícil dizer, por dois motivos. É verdade que
Angola está num processo longo de transição. Angola ainda não deu
aquele "clique" para a democracia. Temos o Governo de um partido que tem
uma tradição política, uma tradição de gestão do país de uma forma
autoritária. Não tem a tradição de respeitar os direitos. Isto, por
outro lado, também criou uma espécie de dependência dos próprios
cidadãos de serem guiados por uma autoridade forte. De modo que também
há medo de enfrentar a autoridade.
Agora, só o grau de consciência dos próprios cidadãos é que poderia por
em causa, digamos, a hegemonia do poder. Mas eu não sei se já existe um
grau suficiente de consciência dos próprios direitos na mente de muitos
angolanos. Eu acho que não. Porque, por um lado, a sociedade quer
abrir-se e o Governo funciona como uma espécie de tampa. É como se fosse
uma panela de pressão. Se não tirar a tampa, pode haver uma explosão.
Outra maneira seria diminuir o fogo. Nesse caso haveria um resfriamento e
podia-se tirar a tampa e não haver explosão. Mas a grande questão é que
o Governo mantém o fogo. Por isso, não sabemos o que vai ser.
DW África: Acredita que a pressão internacional sobre Angola vai aumentar nos próximos tempos?
PI: Há essa possibilidade. Mas a questão é que a nível
internacional há outros interesses. Por exemplo, aqui na Europa a
questão dos refugiados ocupa mais o espaço dos media do que o que se
passa em Angola. Se em Angola houvesse, por exemplo, uma explosão, ou um
distúrbio, chamaria a atenção. Mas neste momento não chama muito a
atenção. Não há uma espécie de visão de emergência sobre o que se passa
em Angola. Há quem diga que a União Europeia (UE), através da sua
representação em Angola, e outros países do ocidente, têm estado atentar
manter alguma pressão sobre o Governo angolano. Mas isso não tem
expressão a nível exterior. Não tem havido, e facto, uma pressão muito
grande, nem sequer por parte de Portugal. Deutsche Welle
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