Angola sofre há um ano com a baixa do preço do crude a nível mundial. A
crise entorpeceu o motor da economia angolana. Governantes e empresários
querem agora diversificar as fontes de receitas após anos de
"comodismo".
Francisco Paulo comeu bolinhos ao pequeno-almoço. E bebeu um copo de
leite. É já um hábito, quando chega à Universidade Católica. É uma
senhora que traz os bolinhos: "Ela faz em casa, nós contribuímos com
alguma coisa", diz o economista.
Os bolinhos são produção nacional. Mas a maior parte dos ingredientes é
importada. Ovos, farinha, açúcar (e também o leite) - vem tudo de fora
do país.
"Nós continuamos a importar muito. Quase 70% daquilo que consumimos é importado."
Face à queda do preço do petróleo no mercado internacional, no início do
ano, o Governo angolano impôs um limite à importação de ovos ou
produtos da cesta básica como incentivo à produção nacional. Os preços
subiram ainda mais. Francisco Paulo diz, por exemplo, que os ovos estão
"bastante mais caros" do que há um ou dois anos - um ovo pode custar à
volta de 50 kwanzas, o equivalente a 30 cêntimos de euro. É cerca de 10
cêntimos mais caro do que um ovo comprado num supermercado alemão comum.
Os produtos fabricados em Angola também são dispendiosos, acrescenta o
investigador do Centro de Estudos e Investigação Científica (CEIC). "O
custo de produção, em si, é elevado, porque não é fácil produzir em
Angola. Montar uma fábrica envolve custos muito elevados."
Os angolanos e a crise
Os angolanos têm sentido bastante a crise do petróleo na carteira. "As
coisas sobem e o salário não sobe", desabafa Esmeralda, uma estudante.
"Ontem fui para a loja ao lado da Universidade comprar um par de calçado
que, na semana passada, estava a 3000 kwanzas [19 euros] e ontem
encontrei-o a 4000 kwanzas [25 euros]."
"Subiu o táxi, subiu o saco de arroz e tantas outras coisas do nosso
mercado, como roupas, calçado, bijutarias e outros alimentos", afirma
Gildo, outro jovem a estudar na capital angolana.
Em Luanda, a inflação subiu mais de 11,6% este ano, até setembro,
segundo o Instituto Nacional de Estatística angolano - um aumento
bastante acima das previsões do Executivo de José Eduardo dos Santos.
Petróleo-dependentes
Economistas como Francisco Paulo criticam o facto de Angola se ter
tornado tão dependente das receitas do petróleo e demorar tanto tempo a
diversificar a economia.
Diz-se em Angola que, antigamente, os navios chegavam cheios e
partiam cheios. Agora, chegam cheios e partem vazios. Entretanto, há
produtos angolanos que se chegam a estragar nas províncias, à espera de
seguirem para o resto do país. Disso mesmo se queixava um leitor que, em
fevereiro,
escreveu ao Jornal de Angola
, dizendo que "não faz sentido que as cantinas e os supermercados sejam
abastecidos por batata importada, quando o mesmo produto apodrece nos
terrenos dos camponeses" por incapacidade de escoamento. Um ouvinte da
DW África
dizia esta semana
que há "muitos ananases e tomates a estragar-se", mas o Governo "só pensa no petróleo".
No tempo colonial, até ao início dos anos 70, Angola foi um grande
produtor de café, que representava, nessa altura, cerca de 30% do total
das exportações angolanas. Mas, com o tempo, o produto deixou de ter um
peso relevante no comércio externo (cerca de 0,001% das exportações).
Hoje em dia, quase não se exporta mais nada a não ser petróleo ou
diamantes. No ano passado, 98,2% das exportações angolanas foram
produtos petrolíferos.
"Com a guerra de libertação, os portugueses abandonaram simplesmente o
país. O Governo de então, que é o mesmo de hoje, adotou o socialismo e
nacionalizou quase todas as unidades económicas. Ninguém conseguiu levar
a cabo todo o projeto que os colonos portugueses deixaram. As fábricas
pararam, literalmente", diz Franscisco Paulo.
A seguir, estalou a guerra civil. E o petróleo deu jeito, segundo o
investigador. "A economia petrolífera era a única que gerava dinheiro
para poder financiar a guerra e fazer a manutenção do poder."
Depois da guerra, o Governo encostou-se: "Nós pensámos que o preço do petróleo estaria sempre em alta."
Não esteve. Depois de vários anos com o preço do crude a rondar os 100
dólares o barril, o petróleo está agora abaixo dos 50 dólares.
Agora, uma das coisas que mais se fala no país é a necessidade de
diversificar a economia. "Diversificação" é uma palavra repetida vezes
sem conta tanto por políticos, como por empresários. No
discurso sobre o Estado da Nação
, a 15 de outubro, o vice-presidente angolano, Manuel Vicente, usou-a
mais uma vez para frisar a importância de "acelerar a diversificação da
economia no setor não petrolífero, bem como o crescimento económico e o
emprego."
É simplesmente impossível continuar a depender exclusivamente das
receitas do petróleo, acentua Jorge Pinto, da Associação Industrial de
Angola (AIA). "A maior parte dos analistas diz que o petróleo é um
veneno para qualquer economia no mundo. Porque é cómodo, o petróleo gera
muito dinheiro. A diversificação económica é aquilo que todo o
automóvel tem, é o pneu de socorro."
Mas diversificar a economia é algo que não se faz de um dia para o outro.
Sete anos até começar a produzir
Na província de Malanje, no norte de Angola, a Biocom é vista como um
exemplo da diversificação que o país deve fazer para não estar tão
dependente do petróleo.
Visitámos as instalações da empresa com um grupo de empresários alemães.
Ao longo da estrada de acesso ao edifício-sede, há campos de
cana-de-açúcar a perder de vista, ao longo de centenas de metros. A
Biocom produz açúcar branco e etanol. Além disso, a partir do bagaço
resultante da transformação da cana-de-açúcar, também produz
eletricidade.
A Biocom quer tornar-se numa das maiores empresas de agronegócio de
Angola. Para isso investiu 750 milhões de dólares. É um preço demasiado
alto para pequenos e médios empresários. A Biocom é detida pela
petrolífera Sonangol, o grupo angolano Cochan e a brasileira Odebrecht.
"Começámos aqui do nada. Isto era tudo uma mata. Hoje vocês podem ver
que existe aqui um grande projeto montado", diz Luís Bagorro, porta-voz
da Biocom.
A empresa foi
acusada de empregar trabalhadores em condições análogas à de escravo
na construção do complexo industrial em Malanje. A Biocom nega. E diz que está orgulhosa do que foi feito na província angolana.
"Estas foram todas infraestruturas criadas pelo projeto, razão pela
qual os custos foram muito elevados", afirma Bagorro. "A nossa energia é
própria. Transformamos também a água que consumimos."
Lado a lado com técnicos estrangeiros, fardados de verde, trabalhadores
angolanos monitorizam as máquinas e os tubos metálicos por onde passa a
calda de açúcar. A Biocom emprega mais de 2.200 pessoas; 91% são
angolanos e 9% são estrangeiros, segundo a empresa.
Demorou até começar a produzir. A Biocom foi criada em 2007, mas só em
2014 teve a primeira safra - a empresa ficou-se pelas 3.208 toneladas de
açúcar e 3,6 mil m3 de etanol. Este ano, já conseguiu septuplicar a
safra de açúcar e quase triplicar a produção de etanol.
Etanol?
Francisco Paulo aplaude projetos como este, para diversificar a
economia. A Biocom será uma boa forma de produzir açúcar para o mercado
interno e, quiçá, até para exportar. Mas etanol? Será que há veículos em
Angola adaptados para utilizar etanol como combustível? - pergunta o
economista.
"Quem vai ser o comprador principal de etanol? É uma questão a que devem
responder. Porque nós precisamos de alimento, continuamos a importar
açúcar. Se a Biocom produzisse açúcar em grande quantidade, seria muito
satisfatório para o país."
Angola precisa, porém, de energia para diversificar a economia. Ler +
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