Henrique Luaty da Silva Beirão, 33 anos, é o improvável herói de um movimento de democratização que cresce todos os dias, tirando o sono ao Presidente José Eduardo dos Santos. O ativista está a mudar a História de Angola. Republicação de um texto da Revista E, de 17 de outubro
Luaty Beirão, 33 anos, irrompeu no universo político angolano como um vendaval poderoso, numa noite quente de fevereiro de 2011.
Vivia-se em todo o mundo, e em particular no continente africano, a euforia da Primavera Árabe. A 17 de dezembro de 2010 um jovem tunisino, Mohamed Bouazizi, suicidou-se, ateando fogo ao próprio corpo, em protesto contra a injustiça social. A morte de Bouazizi deflagrou uma série de protestos, levando o Presidente Ben Ali a fugir para a Arábia Saudita apenas dez dias mais tarde. O movimento democrático propagou-se depois pela Argélia e Egito. Durante alguns meses os democratas dos países africanos sujeitos a regimes autoritários viveram a ilusão de que a Primavera Árabe floresceria em todo o continente.
Naquela noite, 27 de fevereiro de 2011, perto de três mil jovens juntaram-se nas instalações do Cine Atlântico, em Luanda, para assistir ao concerto de Bob da Rage, um jovem músico luandense radicado em Lisboa. O evento contava ainda com a presença de MCK e de Ikonoklasta, um dos nomes de guerra de Luaty Beirão, à época ainda pouco conhecido fora do universo do hip hop angolano. Era o primeiro concerto em Angola de Bob da Rage. O jovem músico lembra-se muito bem dessa noite: “Disse ao Luaty que entre o público estava um dos filhos do Presidente, o Danilo, que sempre foi meu fã.”
Então, sem prevenir Bob, que foi completamente apanhado de surpresa, assim como os organizadores do evento, Luaty subiu ao palco e mostrou porque escolhera o nome de Ikonoklasta. “Sou um kamikaze!” — Gritou, antes de se voltar na direção de Eduane Danilo dos Santos: “Senhor Danilo vai dizer ao teu papá. Não queremos mais ele aqui. 32 é muito. É muito! (...) Senhor Dino Matross, senhor Virgílio de Fontes Pereira, todos pro caralho! Paulo Flores deu aquela dica, explorador dos oprimidos — fora!”
Convocou então o público a participar numa manifestação a favor da democracia: “Tragam só panelas, tragam só mambos que não tenham agressão. Muito obrigado.”
A manifestação fora convocada semanas antes, de forma anónima, através das redes sociais, para o dia sete de março, na Praça da Independência. Luaty abandonou o palco, com o público enlouquecido, e Bob da Rage substituiu-o, atuando durante hora e meia. Quando finalmente saiu foi para discutir com Luaty: “Eu estava furioso. Hoje, sabendo tudo o que aconteceu a seguir, compreendo o que o Luaty fez e acho que fez bem. Mas naquela altura achei um desrespeito para comigo, para com os organizadores e até para com o filho do Presidente.”
Os dirigentes angolanos receberam a notícia sobre a desabrida intervenção de Ikonoklasta no Cine Atlântico com enorme susto. Alguns dos rostos mais conhecidos do MPLA desfilaram, aterrorizados, pelos estúdios da Televisão Pública de Angola, TPA, nos dias seguintes, enfatizando as enormes diferenças entre os países do Norte de África e Angola. Na intimidade não escondiam o espanto por verem alguém como Luaty, filho de um velho militante do partido, João Beirão, primeiro diretor da FESA, Fundação Eduardo dos Santos, a assumir posições críticas ao regime.
Dias depois, Luaty gravou e colocou nas redes sociais um vídeo a desculpar-se diante de Eduane Danilo, ao mesmo tempo que respondia aos que o acusavam de ser um “filho do regime”: “Eu chamo-me Luaty Beirão, sou filho de João Beirão, o primeiro diretor da FESA, Fundação Eduardo dos Santos, sou portanto, como me acusam, um filho do regime, mas não vejo porque isso me obrigaria a seguir a linha de pensamento do meu pai. (...) Tenho o meu próprio cérebro.”
Fez questão, contudo, de realçar que o pedido de desculpas não era extensivo aos dirigentes políticos que insultara. Lamentava apenas não ter citado mais nomes: “Quando temos uma elite governante que faz discursos com ameaças, sinceramente... A reação teve o mesmo peso e medida, da maneira que podemos fazer. Eu reagi, se houve um abuso do direito de liberdade de expressão, eu estou à espera, e entendo que num país com leis as pessoas que as violam tenham as suas consequências legais. A estas personalidades não sinto o dever de pedir desculpas.”
Nunca se soube ao certo quem convocou a primeira manifestação independente contra o regime de José Eduardo dos Santos. Provavelmente, estudantes angolanos na Europa. O que se sabe é que nesse dia apareceram na Praça da Independência apenas 12 jovens, logo detidos pela polícia. Um desse jovens era Luaty Beirão. Nos meses seguintes, Luaty organizou uma série de outras manifestações pacíficas, várias delas violentamente reprimidas pela polícia ou por milícias armadas, ligadas a altos dirigentes angolanos. No dia 10 de março de 2012, no bairro do Cazenga, em Luanda, cerca de quarenta manifestantes foram cercados e atacados por uma dúzia de homens empunhando bastões, facas e pistolas. Luaty foi para o hospital com uma ferida aberta na cabeça. O economista Filomeno Vieira Lopes, secretário-geral do Bloco Democrático, um pequeno partido político, sem representação parlamentar, mas com relativa influência nos meios intelectuais, procurou refúgio numa residência particular. As milícias forçaram a entrada na residência, agredindo-o com barras de ferro. As imagens de Luaty e de Filomeno Vieira Lopes, com os rostos ensanguentados e a roupa rasgada, provocou grande comoção e revolta em Luanda, inclusive em círculos próximos do poder.
Na manhã de 11 de junho de 2012, Luaty Beirão dirigiu-se ao aeroporto de Luanda. Iria viajar para Lisboa com o objetivo de participar numa digressão do grupo Batida, de que foi integrante, juntamente com Pedro Coquenão. Pouco antes de entrar no avião, um funcionário do aeroporto reconheceu-o, confessou a admiração que sentia por ele, enquanto músico e ativista cívico, e disse-lhe que vira dois polícias a mexer na sua bagagem. Ao chegar a Lisboa, muito nervoso, Luaty foi conduzido para uma sala onde o interrogaram. Na única bagagem que trouxera no porão, uma roda de bicicleta, foi encontrada mais de um quilo de cocaína. A polícia portuguesa terá recebido uma denúncia vinda de Luanda. O juiz de instrução criminal deixou Luaty sair em liberdade, após ter dado como provado que o músico fora vítima de uma cilada.
Não se conhece qualquer reação do Governo português perante esta situação. Vejamos: o Governo angolano tentou incriminar um cidadão que também é português, introduzindo ilegalmente cocaína em Portugal. O que fez Portugal? Nada. Portugal permaneceu em silêncio. Este episódio, que não mereceu grande interesse nem da imprensa portuguesa nem dos partidos na oposição, ilustra de forma exemplar o grau de submissão do poder político e económico em Portugal relativamente ao regime angolano. Ler +
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