“As mulheres moçambicanas carregam o país nas costas," mas o seu
trabalho nem sempre é visível ou reconhecido, disse à VOA a historiadora
americana Jeanne Marie Penvenne.
No seu livro, “Women, Migration&Cashew economy in Southern
Mozambique,” Penvenne conta histórias de vida e analisa os modos de vida
de mulheres moçambicanas envolvidas na produção da castanha.
Penvenne, que lecciona no Departamento de História da Universidade de
Tufts, aborda, em particular, o período 1945-1975, durante o qual a
produção do caju era uma das principais fontes de rendimento na antiga
colónia portuguesa.
Na altura da Independência, em 1975, o rendimento do caju era mais
importante do que o de açúcar e algodão e a mulher constituía a
principal mão-de-obra, diz a professora.
As mulheres saiam de Inhambane e Gaza para trabalhar no descasque da castanha em Maputo, na altura Lourenço Marques.
Um trabalho duro, em precárias condições, ambiente violento e com potencial de criar problemas de saúde.
Infelizmente, conta Penvenne, apesar de terem contribuído para o
crescimento do sector que chegou a ser um dos principais da economia
local, essas milhares de mulheres nunca viram o seu esforço reconhecido.
A professora diz que, mesmo na literatura científica, há pouca referência sobre a sua contribuição no sector do caju.
Pelo contrário, explica, as autoridades da época e a sociedade tratavam-nas como mulheres de má vida.
“Caso não conseguissem concluir o trabalho de base – limpar uma lata
de castanha – eram descontadas e muitas nunca chegaram a ganhar o
salário mínimo definido”, revela.
Além disso,na periferia onde viviam, em casas precárias, eram vistas como mulheres de conduta sexual suspeita.
Mesmo sendo “injustamente tratadas, não desistiam,” precisavam de sobreviver, diz Penvenne.
No livro, aponta-se que a alternativa a esse emprego seria a
prostituição na zona de Lagoas e Mafalala, arredores da cidade, o que
não era uma boa opção.
Penvenne também faz alusão crítica ao colapso da indústria do caju em
Moçambique, que iniciou na década de 1990, depois de o Banco Mundial
ter encorajado a exportação da castanha em bruto para a India,
alegadamente por ser a melhor opção.
Para escrever o livro, Penvenne entrevistou mais de 100 mulheres e
alguns homens que trabalharam na Caju Industrial de Moçambique, também
conhecida por CaTharani, em alusão ao empresário de origem asiática Jivá
Jamal Tharani, no populoso bairro de Chamanculo, em Maputo.
O livro está disponível apenas em inglês, mas a autora que estuda
Moçambique desde a década de 1970, gostaria também de o publicar em
inglês.
“Eu gostaria de pedir a Codesria ou a Embaixada dos Estados Unidos em
Maputo para fazer uma tradução, porque este livro é importante, porque
estas mulheres são importantes”, revelou Jeanne Marie Penvenne. Voz da América
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