Os 15 ativistas detidos em Luanda são acusados de "envolvimento na
preparação de atos de rebelião" e não só por estarem a ler um "livro
subversivo" - é o que diz o embaixador itinerante angolano em entrevista
à DW.
Existirão elementos que provam que os jovens ativistas estariam a preparar um golpe de Estado?
Segundo António Luvualu de Carvalho, embaixador itinerante de Angola,
caberá aos tribunais concluir a veracidade dos factos, no julgamento que
iniciará a 16 de novembro. No entanto, para o emissário do chefe de
Estado angolano, uma coisa é certa: em junho, quando foram detidos, os
jovens ativistas não estavam apenas a ler um "livro subversivo" ("Da
ditadura à democracia") do académico norte-americano, Gene Sharp.
"Eram atos de mobilização e de instrução, segundo este livro de Gene
Sharp, de como é que as pessoas se deviam comportar para deixar cair um
Governo - utilizando crianças, idosos, senhoras para pô-los em confronto
com as autoridades, para que as autoridades matassem essas pessoas, num
número estimado entre 20 e 25".
De acordo com Luvualu de Carvalho, o objetivo seria "provocar uma
comoção internacional e mobilizar os países ocidentais, de preferência
da NATO, a bombardearem Angola."
Presidente angolano não cederá a pressão internacional
Apesar da
pressão internacional
para libertar os 15 ativistas, que a organização de defesa dos direitos
humanos Amnistia Internacional considera serem "presos de consciência", o
Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, "não tomará nenhuma
posição":
"Da justiça o que é da justiça", sublinha o embaixador angolano em
entrevista à DW África em Lisboa. "Havendo separação de poderes em
Angola, o poder judicial irá tratar desta questão nos tribunais. Aqui em
Portugal, houve uma grande pressão nacional e também internacional para
que se libertasse o antigo primeiro-ministro José Sócrates, que ficou
detido 11 meses sem provas, sem acusação, e o Presidente Aníbal Cavaco
Silva em momento algum se pronunciou sobre este caso. Portanto, o nosso
Presidente também em momento algum se pronunciará sobre casos que têm a
ver com a justiça."
Direitos humanos
Várias organizações e movimentos cívicos, incluindo a Amnistia
Internacional, têm denunciado um conjunto de atos de desrespeito pelos
direitos humanos em Angola. No entanto, esta visão é contestada por
Luvualu de Carvalho:
"Não existe falta de respeito pelos direitos humanos em Angola. Em
tempos, fui confrontado com alguns vídeos de uma prisão onde guardas
prisionais excederam as suas competências e, inclusive, castigavam com
açoites alguns detidos. Mas, depois de essas informações terem sido
tornadas públicas, estes guardas prisionais, foram detidos, julgados e
os que foram condenados estão a cumprir as suas penas."
O embaixador itinerante de Angola sublinha que o país "está
perfeitamente sincronizado com o século XXI", embora admita: "Claro que
não é um país perfeito, como não é Portugal, nem os Estados Unidos da
América, nem o Reino Unido. Mas acredita-se que todo o trabalho que tem
estado a ser feito levará à evolução da sociedade."
Relações Portugal-Angola
Por outro lado, António Luvualu de Carvalho desvaloriza as críticas ao
Governo de Luanda e nega que haja em Portugal um sentimento
anti-angolano generalizado.
"Existem setores da sociedade portuguesa, devidamente identificados, que
cultivam o ódio anti-Angola. São grupos de pessoas bem identificadas
que possuem os seus meios e vão-se servindo destes meios para passarem
uma mensagem odiosa e diabolizante contra o Estado angolano, contra o
povo angolano."
Portanto, acrescenta, "não se pode comparar a postura do Estado
português, que tem sido exemplar, com a conduta de certos indivíduos",
que, segundo as recentes declarações do embaixador angolano na capital
portuguesa, José Marcos Barrica, visa diabolizar Angola. Luvualu de
Carvalho sustenta, a propósito, que "existe um movimento claro de alguns
setores internacionais para atacar a imagem do povo angolano."
Segundo o embaixador angolano itinerante, os recentes pronunciamentos de
Marcos Barrica não visaram pôr em causa as "saudáveis relações" entre
os Estados angolano e português. Deutsche Welle
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