quarta-feira, 11 de novembro de 2015

ENTREVISTA: REMEXENDO NAS AREIAS DE NGUNGUNYANE - Com uma trilogia, Mia Couto faz a sua incursão aos últimos dias do Império de Gaza

De vários pós, Mia Couto tenta entrelaçar estórias e histórias sobre os últimos tempos do império de Ngungunyane. Fá-lo através de uma trilogia, a que chama “As Areias do Imperador” e de que já apresentou o primeiro livro, “Mulheres de Cinza”.

O escritor diz não estar a tentar reescrever a História da derrocada do Império de Gaza, um dos mais importantes em África em finais do séc. XIX. Pretende, antes, chamar os moçambicanos para um exercício que considera necessário e intemporal: “a interrogação sobre a identidade e a memória”, construída muitas vezes sob ditames que muitas vezes ignoram a habilidade que as sociedades têm de interagir com o seu passado ou sobre tentativas de eternização de verdades circunscritas a determinado tempo. Ngungunyane é um nome de consensos e de divergências, de honras e de vergonhas e às vezes de embaraços. Estas facetas apaixonaram o também autor de “Terra Sonâmbula” para esta incursão cujo resultado começa a ser desvendado em “Mulheres de Cinza”. O lançamento deste primeiro volume da trilogia de Mia Couto foi pretexto para uma entrevista de que publicanos, neste espaço, as principais linhas:

 - “Mulheres de Cinza” estreia uma trilogia, “As Areias do Imperador”, com que pretende abordar os últimos dias do Império de Gaza. O que é Mulheres de Cinza” e o que será a trilogia no seu todo?

- Primeiro deixa-me referir que este, “Mulheres de Cinza” livro não pode ser proferido sem que se perceba que ele faz parte de um conjunto, a trilogia. É uma trilogia e a história já está toda na minha cabeça. É a primeira vez que isso me acontece, ter a história inteira ou o livro primeiro na cabeça antes de leva-lo ao papel. Tenho, posso assim dizer, a arquitectura do livro. Não sei o que vai acontecer mas já tenho a arquitectura do livro. No conjunto, o livro vai contar, aparentemente, os últimos dias do reinado de Ngungunyane. Não me apetece falar muito sobre Ngungunyane em particular, mas quero que ele seja simbolicamente um cruzamento de mitos, de lendas, de construções do passado que nós criámos para nós próprios em Moçambique. Esta (o primeiro livro da trilogia) é a primeira parte, contada por uma menina chope, que neste primeiro livro é uma espécie de antena para perceber as tensões, a chegada da grande invasão na altura em que Ngungunyane já se tinha estabelecido em Mossurize e depois migra para fazer o seu quartel-general em Manjacaze. E curiosamente já não só os vanguni, ele trouxe com ele cerca de 100 mil vandaus e isso é uma coisa que às vezes se esquece. Ficam logo perguntas como perguntas como ‘destes 100 mil não houve uns que ficaram, que se misturaram, trazendo os Sitóis e Sitholes, dos Muchangas, que são de um lado e do outro. Essas coisas fazem-nos pensar na nossa história, na nossa história recente. Voltando à questão, esta menina vai contar como é que estas tensões vão crescendo e como é que ela é testemunha de um episódio de guerra, de enorme matança junto àquela região de Zavala, Inharrime, etc. E esta menina depois vai situar-se junto da corte Ngungunyane, ela que é confluência de muitos mundos por falar português, zulu, chope, etc., servindo assim de tradutora de mundos. Por essa circunstância ela torna-se próxima da corte do imperador e torna-se também próxima do quartel militar dos portugueses naquela região. Ela embarca, depois, no mesmo navio, que curiosamente se chama Moçambique, que vai transportar Ngungunyane e os outros quatro prisioneiros para Portugal. Basicamente é essa a história do livro.

 - Diz que tem a trilogia toda já arquitectada. Por esse facto, o que vem é algo definitivo ou preliminar na medida em que ainda não estão no papel os outros dois volumes? 

- O que eu tenho é a arquitectura do livro. Se estou ansioso para pô-la toda no papel, ela existe, sim. Ao mesmo tempo o que eu quero saber é a história. Mas estou dividido, porque por um lado se souber de tudo deixa de ter interesse. Há uma área que eu não quero saber. Tenho, como dizia, a arquitectura do livro e o que se seguirá é a construção da história, do resto da trilogia, através dessa arquitectura. Digamos que estou agora, nesta história em concreto, numa fase muito feliz, na fase mais bonita da criação, em que a história flui, dando espaço à imaginação e à criação sobre um esqueleto já existente.

- Fazer uma incursão a um tema como o que escolheu pressupõe ser híbrido, no sentido de conhecer a história, no sentido científico de história, e fazer uma espécie de recolha no terreno para seguir o rasto da história. É essa a sua metodologia na construção desta trilogia? 

- Sim, é! E tenho feito isso, sim. Aproveito muito o facto de ser biólogo para fazer outras incursões, aquelas que me ajudam ou a construir uma história ou a conhece-la. Não direi que fiz uma incursão completa ao império de Ngungunyane, que se estendeu até Manica. Mas recolhi depoimentos, por falar em Manica, no Zimbabwe. Essa parte, em termos de território, podemos assim dizer, é uma parte que falta ainda, não fiz. Fiz sim na região de Inharrime, Zavala, etc., falando com gente. Percebi que esses depoimentos eram muito curiosos porque me davam muito do como perceberam a história. A riqueza da oralidade está aí, em que as coisas são transformadas em histórias. Falando com três, quatro pessoas têm-se três, quatro interpretações sobre as coisas. Ao invés de falar com um chope, vi-me a falar com os chopes. E aprendi muito com isso, aliás aprendo sempre que procuro pessoas nas comunidades tanto para a minha actividade literária como no meu conhecimento sobre a vida e as vivências no nosso país.

- Tinha algum conhecimento prático sobre a interação entre os chopes no contexto do império de Ngungunyane antes de lançar-se à trilogia ou foi este um primeiro contacto?

- É muito interessante ver como as nações moçambicanas se constroem, como é que elas se entrelaçam para criar este mosaico que é a nossa nação, Moçambique. Isso é que faz de nós um povo rico. Nesta incursão em concreto conheci alguém, que se tornou num amigo e que praticamente me introduziu à esta cultura que é a cultura chope, que é uma cultura muito rica pela sua variedade. Conhecia-a, para responder à pergunta, muito superficialmente e com este amigo aprendi muito. Gostei muito de ter aprendido do Afonso Silva Dambire, que é o amigo de quem falo, porque ele conduziu-me para a realidade chope não dizendo “nós somos assim”, dizendo, ao invés, “somos vários, há muita variedade de chopes e há muitas histórias que contamos. Se você é escritor não esteja preocupado em seguir o rigor histórico porque há muitas coisas”. Portanto, ele era uma pessoa que me indisciplinava muito, permitindo que aprendesse e conhecesse mais dos chopes de uma forma mais ou menos geral e no contexto da trilogia que decidi escrever.

Durante a sua pesquisa, terá sentido algum choque entre o que leu, principalmente nos livros dos historiadores, e o que encontrado no terreno? 

- Do ponto de vista da nossa versão da história moçambicana, da maneira como os moçambicanos a escrevem ou como autores que escrevem do lado de Moçambique, há divergências, não há uma leitura única. Há um alerta de alguém que não sendo moçambicano mas que escreveu um livro de referência sobra a história de Moçambique, o (René) Pélissier, que chama à atenção para uma coisa que é muito interessante que é: houve uma espécie de centramento da história da resistência anti-colonial. Ele diz assim: toda a história oficial, aquela que é mais solene e que foi adoptada pela Frelimo, foi centrada a sul. Quer dizer, os grandes heróis, os mais conhecidos, são do sul; mas há no norte gente que causou muito mais problemas aos portugueses, que tiveram resistências mais longas, mais sistemáticas, que não são celebrados da mesma maneira. Mas isso não responde exactamente à questão. Por exemplo, entre a história oficial que construiu o Ngungunyane, que pensávamos que era de Moçambique, ele nunca pensou em termos de Moçambique, em termos do que é hoje Moçambique. Nem no vocabulário dele isso existia. Mas não o podemos julgar por isso, porque o contexto dele não era este Moçambique. Ler +

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