Carlos Cardoso foi baleado mortamente há quase 15 anos (22.11.2000) em
Maputo. Ele é o ícone do jornalismo investigativo em Moçambique. Até
hoje o país não conheceu jornalista igual, diz o seu colega Fernando
Lima.
Na altura em que Carlos Cardoso foi assassinado investigava a maior
fraude bancária em Moçambique, no Banco Austral, que tinha como
principais gestores importantes figuras do partido no poder, a FRELIMO.
Os autores materiais foram indivíduos que pertenciam a grupos
criminosos, mas sobre os autores morais muito pouco ficou claro até
agora, apesar do julgamento. Mas Nyimpine Chissano, filho do Presidente
do país na altura, Joaquim Chissano, teve o seu nome envolvido. Ainda
sobre esta investigação outra pessoa foi assassinada, o economista e
gestor Siba-Siba Macuacua.
Carlos Cardoso é uma referência do jornalismo em Moçambique também
porque foi um dos fundadores da primeira cooperativa de jornalista do
país, a Mediacoop (1992), algo que só foi possível com a entrada do
multipartidarismo.
Sobre esta figura a DW África entrevistou um dos seus colegas de
trabalho nesta cooperativa, Fernando Lima. O jornalista dirige o
semanário Savana, também co-fundado por Cardoso.
DW África: O que mudou no panorama dos media em Moçambique desde a morte de Carlos Cardoso?
Fernando Lima (FL): Eu acho que mudou muita coisa para
já, e digo isso com muito pesar. Acho que não há um verdadeiro
substituto de Carlos Cardoso, se é que isso poderia realmente ser um
objetivo. Nem sequer grandes aspirantes a um título ou a uma
responsabilidade desta natureza. Agora, o que mudou concretamente, acho
que há de algum modo um panorama sombrio em termos de investigação, em
termos de profundidade de investigação e em termos de seriedade. E claro
que isto não se explica apenas por uma questão de recursos humanos, de
pessoas, de personalidades, de novas estrelas do jornalismo, também tem a
ver com uma situação económica que claramente se agravou muito desde o
assassinato de Carlos Cardoso. A maior parte dos jornais e de outros
órgãos de informação trabalham com muitas dificuldades, o que representa
uma grande pressão sobre os recursos humanos das redações, o que
significa que os jornalistas, de facto, não têm tempo para aprofundar as
suas matérias, para dar mais qualidade aos trabalhos que apresentam. E
também diria, em última análise, e sobretudo nos últimos anos, o
ambiente da liberdade de imprensa claramente se deteriorou.
DW África: Trabalhou e conviveu com Carlos Cardoso. Imagina-o, hoje, a fazer jornalismo nas atuais ciscunstâncias?
FL: Claramente que as circunstâncias em que Cardoso
operava não se alteraram radicalmente, ou seja, a base legal não foi
alterada. Digamos que há situações de conjuntura política que se
alteraram. Ora, um dos elementos importantes do DNA de Carlos Cardoso
era a sua grande coragem, uma grande inteligência e também um grande
afinco. Eu acho que existem condições claras para que ele fizesse um bom
trabalho. Agora, isso não significa que não teria de enfrentar os
expedientes do dia, nomeadamente, por exemplo, o que aconteceu há dois
meses com o editor do MediaFax que foi alvo de uma investigação da
Procuradoria-Geral da República porque publicou um escrito de uma outra
pessoa.
DW África: Carlos Cardoso é muitas vezes lembrado e é tema de
discussões em conferências internacionais, como por exemplo em
universidades na África do Sul. Em Moçambique, ele é lembrado da mesma
maneira?
FL: Eu diria que no coração dos jornalistas, no
consciente dos jornalistas o respeito e a admiração é idêntico ou ainda
maior, porque o sentimos como nosso, uma pessoa que viveu e trabalhou
nesse país. Mas há outros fatores que explicam uma tentativa de lavagem
da própria imagem de Carlos Cardoso ou uma tentativa de nos fazer
esquecer. Deutsche Welle
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