Quebra da procura de matérias-primas e investimentos discutíveis estão a abalar a economia moçambicana.
“Não vai haver festas”, queixa-se a vendedora de legumes em Maputo. A
situação económica de Moçambique degrada-se rapidamente devido à crise
de matérias-primas e de investimentos públicos arriscados, que
provocaram uma queda histórica da moeda face ao dólar.
Lourdes
Mutembene está a vender o quilo de tomate a 60 meticais (1,2 euros)
contra os 35 que pedia há alguns meses. Resultado: não vende quase nada.
“No
Zimpeto [arredores de Maputo], onde nos abastecemos, dizem que aumentou
tudo por causa do dólar e do rand” sul-africano, acrescenta, encostada
ao balcão.
Idêntica conclusão amarga é a do seu vizinho de
bancada, Abou Sangare, um costureiro costa-marfinense: “Os materiais que
aqui compramos vêm todos da África do Sul, e tudo aumentou”, explica,
mostrando os rolos de tecidos.
O metical caiu mais de 40% face à
divisa norte-americana desde o início do ano, a pior queda de uma moeda
depois do kwacha zambiano, segundo a agência Bloomberg. A queda da moeda
traduz-se, automaticamente, num aumento dos preços, sobretudo num país
como Moçambique, que importa grande quantidade do que consome.
Este
país da África Austral exporta maioritariamente gás natural, carvão,
algodão e alumínio. Acontece que a procura mundial destas
matérias-primas está em queda há alguns meses.
As perspectivas
económicas moçambicanas assentam sobretudo na exploração das imensas
reservas de gás, descobertas desde 2010 pela italiana ENI e a
norte-americana Anadarko, no Norte do país. Mas a quebra vertiginosa dos
preços dos hidrocarbonetos levou os dois grupos a adiarem as decisões
de investimentos para 2016.
“Como o ritmo desses projectos é mais
lento, a dinâmica económica de Moçambique não está à altura das nossas
expectativas”, reconhece à AFP Rogério Nkomo, porta-voz do ministro da Economia e Finanças, .
Enquanto
isso, o consumidor enfrenta preços cada vez mais altos. “Devemos
trabalhar para compensar as importações. Afinal, somos um país agrícola,
mas também um ponto de passagem para vários países sem litoral, que
precisam dos nossos portos, caminhos-de-ferro e estradas”, disse o
governador do Banco de Moçambique, Ernesto Gove.
O caso Ematum
Embora
o país tenha um crescimento médio anual de 7% nos últimos 20 anos, o
nível de pobreza está a estagnar nos 54% da população, constata a antiga
primeira-ministra, Luísa Diogo. “A estrutura da nossa economia continua
a ser frágil.”
A tal ponto que, pela primeira vez em dez anos,
Moçambique pediu no final de Outubro ao Fundo Monetário Internacional
(FMI) um empréstimo de 286 milhões de dólares (cerca de 261 milhões de
euros) para sanear as suas finanças. E o Parlamento aprovou na passada
segunda-feira reduções orçamentais para 2016.
Mas os observadores
estão sobretudo preocupados com a escassez de reservas cambiais, apesar
de o banco central ter anunciado a 30 de Novembro que limitaria os
levantamentos com cartão no estrangeiro para evitar a fuga de divisas.
Os
críticos apontam o dedo a investimentos públicos arriscados lançados
pelo anterior Presidente, Armando Guebuza (2005-2015). Entre outros, a
construção pela China, em curso, de
uma ponte gigantesca e de uma via rodoviária circular em Maputo, cujos
custos terão sido mal avaliados, ou ainda a controversa compra de uma
frota de navios por uma empresa de capitais públicos, a Ematum.
Financiada
por um empréstimo obrigacionista de 850 milhões de dólares (mais de 780
milhões de euros, a preços actuais) garantidos pelo Estado, a Ematum
provocou alarido público quando se soube que a operação de aquisição dos
estaleiros navais de Cherburgo, França, incluía não apenas embarcações
de pesca mas também navios militares.
Sob pressão dos doadores
internacionais, o Governo acabou por inscrever 500 milhões do empréstimo
no orçamento da Defesa, integrando-os na dívida pública, que deve
chegar a 62% do PIB no final do ano, contra 38% em 2011, segundo a
agência Fitch.
“Os navios nunca foram usados e estão a enferrujar
no porto. O dinheiro foi gasto inutilmente e ninguém é capaz de explicar
para que serviu”, denunciou Ivone Soares, líder do principal grupo
parlamentar da oposição, a Renamo (Resistência Nacional Moçambicana). Público
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