terça-feira, 8 de dezembro de 2015

DEBATE POLÍTICO EM MOÇAMBIQUE: Elísio Macamo defende um novo paradigma

O SOCIÓLOGO Elísio Macamo considera que a qualidade de debate de assuntos políticos em Moçambique não é boa, o que é mau para o país, que precisa de intervenções muito para além de observações negativas, orientadas na perspectiva de tirar ganhos políticos, simplesmente.
Numa breve entrevista que concedeu ao jornal Notícias, a propósito de debates que se multiplicam no país sobre várias temáticas, o académico refere que o grande desafio é partir para um maior compromisso, sobretudo entre os moçambicanos com formação, para uma plataforma de discussão de questões que convide os outros a participar e deixar de agredi-los no espaço público. Considera que não há ainda, infelizmente, uma abertura para apreciar os assuntos do país que não seja para fora das convicções ideológicas dos intervenientes.

Not: O que acha da qualidade de debate de assuntos políticos, económicos e sociais do país? 

Elísio Macamo(EM): Acho que neste momento, a qualidade não é boa porque está muito polarizado. Há intervenções tanto de politicos como de académicos que não são construtivas. A título de exemplo, estamos presentemente a atravessar uma crise financeira aparentemente séria. Até aqui não ouvi grandes análises que não sejam apenas uma apresentação negativa do país. Por exemplo, as pessoas fazem contas e dizem que a EMATUM custou tanto, a ponte da KaTembe tanto. Isso não me parece correcto. Nós estamos em crise. Eu acho que precisamos de intervenções que vão muito para além dessas observações superficiais.

Not: Neste debate, os órgãos de comunicação social parece terem alguma responsabilidade, nma altura de concorrênncia em que se olha mais para o lucro… 

EM:Há isso sim, mas eu podia colocar o problema de outra maneira. Eu havia de dizer que os jornais são o reflexo da sociedade e não o contrário, no sentido de que só esse tipo de jornalismo é que vende. Então é assim porque a sociedade quer provavelmente esse tipo de jornalismo. É verdade que nós, como pessoas sensatas e razoáveis, devíamos esperar que os jornais tivessem melhor qualidade, que houvesse preocupação por parte dos jornais de tratar melhor os temas, mas a maneira como tudo é feito não permite que certos temas sejam discutidos pelo próprio mérito. Há sempre aquela preocupação de ganhar pontos politicos na discussão de certos temas. Há sempre aquela preocupação de proteger as minhas crenças políticas quando estou a dizer alguma coisa. As pessoas (leitores) não vão estar muito interessados em verfificar se o que eu faço faz sentido ou não. Eles vão estar preocupados em saber a quem aquilo faz mal ou a quem beneficia e em função disso posicionarem-se. Se o leitor achar que o analista está a falar mal da Frelimo, enquanto ele é da Frelimo vai se aborrecer. Se achar que estou a falat mal da Renamo, enquanto é da Renamo, também vai se aborrecer. Mas não há aquele meio termo que se encontra nos méritos próprios da questão. Este é que é o problema. Jornalistas, sim, por um lado, e há certos jornais que eu não quero mencionar porque são uma vergonha para a própria profissão. Mas também há um pouco da parte de quem consome o noticiário que tem que exigir mais qualidade. Pode exigir mais qualidade, ignorando esses jornais.

OPINAR PARA ALÉM DA CONVICÇÃO IDEOLÓGICA 

Not: A que é que se refere quando fala neste caso da polarização dos assuntos no debate das questões no espaço público? 

EM : Sou de opiniãoo que existe um pouco a ideia de que quem está no poder, quem governa é problema, independentemente do facto de ser da Frelimo ou da Renamo, por exemplo. Porque a nossa vida não está a andar bem, então tem que haver um culpado para isso e quem não está no poder não é necessariamente problema. É essa polarização a que eu me refiro que faz com que mais uma vez os méritos das questões não sejam interessantes ou que sejam mais interessantes aqueles que confirmam os palpites que tenho na cabeça sobre o que está mal.

Not: Perante este estado de coisas, quais são os desafios para termos um debate construtivo sobre os temas candentes no país? 

EM: os desafios estão num maior compromisso da nossa parte, que temos uma formação, num maior compromisso por uma forma de debater as questões que convidem os outros a participar na discussão. Quando abordo uma questão não deve ser no sentido de agredir as pessoas a quem eu discuto. Devo abordar a questão no sentido de convidar a pessoa a entrar numa sala onde a gente possa conversar. O que se passa agora é que muitas vezes quando a gente faz intervenções, sobre questões politicas, sobre como o país é gerido, é na perspectiva de pintar um diabo, que é o outro, e de evitar a conversa com essa pessoa. Não há uma abertura para apreciar um assunto para além das nossas convicções ideológicas. Eu penso que nós, sobretudo os académicos, temos que investir ainda mais na promoção desse tipo de debates, sob pena de corrermos o risco de a gente ficar também polarizado. A discussão não deve ser no sentido de que eu sou deste ou daquele partido, mas sim uma discordância que surja do próprio mérito da questão. Por exemplo, estamos a enfrentar uma crise financeira no país. O mais provável aqui, numa discussão sobre esta situação seria que houve um governo que roubou. Pode ter acontecido, eu não não quero negar isso. E depois a outra opinião pode dizer que é a conjuntura internacional para aquele que defende o governo. Mas há uma outra maneira de perceber este assunto sem nos refugiarmos por detrás dessas posições afectas como, por exemplo, colocar questões sobre como é que funciona uma economia; como são tomadas certas decisões sobre infraestruturas; quais são os riscos que a gente enfrenta quando toma decisões desta natureza; o que pode acontecer ou que será que os que tomaram decisão acutelaram-se suficientemente. Essa seria uma outra discussão.Mas a nossa discussão, infelizmente, tem terminado assim: Aquele roubou e aquele não roubou.

UM PAÍS FAZ-SE DE PROBLEMAS 

Not: Que possíveis saídas para a retomada do diálogo ao mais alto nível no país? EM:Para mim, o momento que atravessamos não é complicado pela sua própria dinâmica, pela sua própria natureza. Ele é complicado simplesmente pelo facto de que nós temos uma perspectiva sobre as coisas. É uma perspectiva um pouco das histórias infantis de que há um problema e esse problema é resolvido e a vida passa a ser feliz para o resto da história. Ora, um país não se faz dessa maneira. Um país faz-se de problemas. Eu acho que se calhar haveríamos de tirar um pouco de ansiedade em nós próprios. A ideia não deve ser como nós vamos sair disto aqui, mas sim como é que vamos gerir este problema até que um dia se resolva porque às vezes um problema se resolve por si próprio. Respondendo concretamente à sua questão - eu tenho escrito isso - acho que já chegou um momento de a gente abrir o diálogo, que o diálogo não poder ter como ênfase a acomodação deste ou daquele partido. O diálogo tem que ter como ênfase em se encontrar regras que sejam aceites pela maioria para a gente saber gerir esses problemas porque nós vamos ter sempres estes problemas. Nenhum de nós é Deus, que vai descançar depois do sétimo dia, depois de ter feito o mundo. Nós somos parte deste mundo e isso singifica que nós estamos sempre a criar problemas. Notícias

Sem comentários:

Enviar um comentário