O Governo de Angola “tem um ano duro pela frente”. Quem o diz é a
unidade de análise da revista britânica The Economist, numa nota enviada
aos investidores, após analisar o Orçamento do Estado para 2016, que é
votado esta sexta-feira (11.12). A proposta do Orçamento está ainda em
discussão nas comissões de especialidade da Assembleia Nacional, mas os
economistas já questionam algumas das escolhas do Executivo angolano.
O próprio Governo de José Eduardo dos Santos, dizem os investigadores,
prevê um ano duro pela frente. A proposta do Orçamento do Estado inclui
um défice nas contas de 5,5% do Produto Interno Bruto, ultrapassando as
projecções oficiais em mais de 1 ponto percentual e obrigando a mais
endividamento público. E há várias razões para esta previsão. Uma delas,
dizem os analistas, é a tendência de queda do preço do barril de
petróleo.
O dilema do petróleo
Jane Morley, investigadora da Economic Intelligence Unit (EIU), afirma
que as receitas petrolíferas “vão continuar em baixa” e, por isso, “o
Governo vai tentar cortar a despesa em algumas áreas”. No entanto,
sublinha a investigadora, o Executivo “tem noção de que não pode cortar
os gastos nos salários, por exemplo, porque a população já está
indignada com o Governo”.
“As pessoas consideram que as receitas do petróleo não foram bem
partilhadas pelo país e que os mais desfavorecidos são os que mais
sofrem com os cortes”, lembra a analista.
Desde o segundo semestre de 2014 que Angola vive uma crise económica,
financeira e cambial, devido à queda da cotação do barril de petróleo no
mercado internacional. Em 2016, segundo Jane Morley, os problemas podem
vir a acentuar-se. “Se o preço do petróleo for ainda mais baixo do que o
previsto pelo Governo, isso vai ser tremendamente problemático”, diz a
analista da EIU, acrescentando que, “por outro lado, se o preço começar a
subir, mas não de forma particularmente rápida, há o risco de o Governo
pensar ‘está tudo bem, os nossos problemas acabaram, vamos voltar a
gastar’. Enfrentam um dilema, independentemente do que acontecer”.
Jane Morley considera ainda que as opções do Executivo angolano para
2016 “vão restringir o crescimento dos setores não-petrolíferos”. “Uma
das coisas que o Governo está a fazer é tentar aumentar as receitas
fiscais destes setores, que ainda são muito baixas, em parte, por causa
do legado da guerra civil – há muitas atividades não regulamentadas”,
explica a analista. “Ao mesmo tempo”, acrescenta, “num ambiente
económico difícil, aumentar os impostos às pequenas e médias empresas
não vai ser fácil, porque o Governo quer que estas empresas cresçam e
criem postos de trabalho, para contrariar o desemprego”.
Falta investir no desenvolvimento económico, dizem economistas
Depois de analisar a proposta do Orçamento do Estado, a unidade de
análise da revista britânica The Economist critica ainda a redução do
montante percentual para o desenvolvimento económico, que desceu para
13,17%, menos de metade do ano anterior.
“Achamos que não é uma decisão brilhante”, afirma Jane Morley. “O último
ano e meio mostrou que, mais do que nunca, o Governo precisa de
diversificar a economia e reduzir a dependência do petróleo. E gastar
pouco com essa tarefa não vai ajudar”.
A investigadora lembra que “não se pode diversificar a economia num ano
ou cinco anos”, mas sublinha que “é preciso gastar de forma imaginativa e
assumir o compromisso desde cedo para dar a volta à economia”.
O economista angolano e membro da direcção do Partido de Renovação
Social, na oposição, António Sapalo, concorda com a visão da EIU,
afirmando que ,“de 1975 até hoje, o Governo não se preocupou em investir
o dinheiro proveniente do petróleo em vários setores – agrícola,
industrial, de serviços – que concorrem na diversificação e
auto-suficiência do próprio país”.
Cortar na Defesa
António Sapalo critica as opções do Executivo angolano, considerando que
grande parte do Orçamento do Estado deveria destinar-se a impulsionar a
economia em tempos de crise. Mas isso, lamenta, não acontece, uma vez
que “o sector da Defesa recebe ainda uma boa parte do dinheiro”. Para o
economista e professor universitário, “neste momento, não se justifica,
por exemplo, comprar material bélico. Grande parte do dinheiro vai para
sectores irrelevantes”. “Na rubrica de transferências, o dinheiro vai
para organizações ligadas ao MPLA, que nada fazem para o desenvolvimento
do país. Recebem dinheiro com um fim único: a lavagem da imagem do
Presidente José Eduardo dos Santos”, acrescenta António Sapalo.
Jane Morley considera igualmente que os cortes nos gastos devem passar
pelo sector da Defesa e Segurança. Isto, explica, porque “o Governo não
pode cortar demasiado na Saúde, Educação e Serviços Sociais, porque isso
iria afectar os mais pobres”.
“O Executivo não enfrenta nenhuma ameaça militar. Gastar um quinto do
Orçamento na Defesa parece-me demasiado. Uma parte desta despesa deveria
ser transferida para o desenvolvimento económico”, conclui a analista
da EIU. Deutsche Welle
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