sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Mulher desafiada a lutar pela sua inclusão financeira

“Estamos a falar muito, discutir muito, mas temos que arregaçar as mãos e começar a fazer o trabalho a partir da aldeia...”, esta é a mensagem deixada pela activista social, Graça Machel a organizações da sociedade civil que lutam pelos direitos humanos das mulheres.
Graça Machel desafiou estas organizações a serem agentes activos na mudança de percentagem de mulheres que estão no sector informal para o formal da economia moçambicana falando recentemente no decorrer da I Conferência Internacional sobre Igualdade de Género e Empoderamento das Mulheres, que decorreu em Maputo sob o lema: “Mulheres Empreendedoras e Acesso ao Crédito em Moçambique”.
Convidada a dar a sua experiência sobre o acesso às finanças e empoderamento socioeconómico das mulheres, a presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade e da Rede New Faces, New Voices, fez perceber que é integrando mais mulheres no sector formal da economia que Moçambique vai desenvolver.
Actualmente, dos cerca de 24 milhões de moçambicanos, apenas 25 porcento é que utiliza a banca financeira formal e entre mulheres cerca de 17 porcento.
“Desafio as mulheres a mudar essas percentagens de mulheres que estão no sector informal para formal da economia. É nossa responsabilidade e parar esta coisa de esperar o Governo. O governo! Monitorar o governo! Vamos monitorar o governo sim, mas também vamos nos monitorar a nós próprias”, observou.
A activista social reconhece, no entanto, que a inclusão financeira da mulher não é um assunto apenas das mulheres. Vai para além da igualdade de género. “É uma questão fundamental da transformação social de uma nação. Todos os pronunciamentos que fazemos através da nossa Constituição da República, das nossas Leis, vai ficando muito para trás enquanto nós não considerarmos a centralidade da inclusão das mulheres na economia formal”, sublinhou.
Acrescentou que a inclusão financeira não se resume apenas na participação da mulher mas também em ela ocupar posições de liderança na definição das políticas económicas, estratégias, planos, na implementação e avaliação daquilo que é o desejo da transformação da sociedade moçambicana.
“ Eu creio que para os investigadores, para os economistas, para os planificadores da economia, para os activistas uma das questões fundamentais deve estar no centro da luta pelo desenvolvimento de Moçambique é a integração das mulheres na economia formal. Se quisermos utilizar as balizas dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, eu quero propor que uma das questões centrais seja a medida através da qual Moçambique consegue integrar a actividade das mulheres na economia formal. Aí, começaremos a ter uma medida real de como é que nós crescemos”, frisou.

 A EXPERIÊNCIA DE RUANDA E UGANDA 

Para encorajar as moçambicanas a lutar por elas próprias, Graça Machel buscou exemplos do trabalho que está sendo feito por mulheres de Ruanda e Uganda (dois países africanos) na mobilização de recursos para inclusão financeira da mulher e para o desenvolvimento local.
Fez saber que no Ruanda, as mulheres criaram um vínculo entre elas e decidiram utilizar as instituições existentes, isto é, a banca formal.
Trabalharam no sentido de envolver os diferentes níveis da sociedade desde ministros, governadores de bancos para encorajar a definir políticas e regulamentos que contribuam para a integração das mulheres na banca formal, através da criação de serviços bancários que vão de encontro com aquilo que são as necessidades das mulheres na comunidade.
“Nesse compromisso nós fazemos uma avaliação de dois em dois anos. O que é que se conseguiu, o que é que não se conseguiu e porque não se conseguiu. Para não ficar apenas como responsabilidade do sector financeiro, nós fazemos um trabalho de educação das mulheres de que tu nunca vais crescer ao nível de seres participante activa na economia nacional se ficares apenas no xitique (crédito rotativo) e é o teu direito tu teres acesso aos níveis mais complexos de utilização dos recursos. Nós trabalhamos na educação das mulheres, mas ao mesmo tempo falamos com os bancos de eles próprios irem ao encontro das mulheres”, esclareceu.
Para Graça Machel, a inclusão financeira da mulher não vai acontecer por si só. Há que haver um esforço deliberado de as mulheres conversarem entre elas e definir o que já sabem, o que é precisam de saber, como é que se organizam para saber mais e como elevar o grau de ambição que é necessário para que não fiquem na periferia mas sim no centro da economia.
Falando de ambição, a activista social referiu-se as ruandesas que decidiram trabalhar para pelo menos 50 porcento dos serviços financeiros que são oferecidos pelas instituições financeiras sejam produtos desenhados especialmente para mulheres.
“Aqui no país, a rede New faces, new voice promoveu um estudo para saber quais são as áreas de maior interesse em termos de investimentos das mulheres, precisamente para sabermos conversar com os bancos e dizer olha, se você quer ter clientes em números grandes, o que as mulheres preferem como prioridade são estes sectores”, disse.
Explicou que os serviços financeiros não podem ser cegos às necessidades das mulheres e nem devem asfixiar as mulheres. “Algumas instituições de micro-crédito dão dinheiro sim as mulheres, mas as mulheres não saem da pobreza porque é um ciclo vicioso, elas não conseguem gerir o suficiente para depois ter o lucro que põem de lado. Elas sobrevivem mas não se desenvolvem”.
Para Graça Machel há que melhorar os actuais produtos financeiros que são oferecidos a mulher para que todos saiam a ganhar e explica como: “o banco vai ter muito mais clientes, vai ter clientes pagadoras (as mulheres não gostam de dividas, elas quando pedem empréstimo pagam). Portanto é uma questão de negócio para eles também, não estão a fazer nenhum favor. Aqui não estou a falar como advogada dos direitos humanos. Não é um problema de direitos humanos agora, estou a falar de negócio. É negócio para os bancos e é negócio para as mulheres e o resultado é que os direitos humanos das mulheres vão ser observados, mas não vamos conversar com a banca na base de direitos humanos, vamos falar de negócio. Negócio bom para ti, negócio bom para as mulheres. Quando isso acontecer, então os direitos humanos vão ser realizados. Como? Ler +

Sem comentários:

Enviar um comentário