sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

“Em África, a realidade é: um chefe, muitos votos”

O Director do Programa de mestrado e doutoramentos em Estudos Africanos do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, Eduardo Costa Dias, considera que os princípios e acção política em África não podem ser vistos apenas à luz das referências ocidentais. É preciso ter em atenção a importância das estruturas e instituições tradicionais.

As eleições nestes países decorrem em circunstâncias nacionais distintas, mas é legítimo extrair uma conclusão comum sobre o que está a suceder em África?

Os países africanos são como um ramo de flores, cada flor é diferente da outra, e a situação é distinta em todos estes países. Por exemplo, as situações no Gana e na República Democrática do Congo são totalmente distintas. E, claro, a situação em Cabo Verde é única, absolutamente distinta da vivida na Guiné-Bissau, onde o partido no poder, e as suas diferentes facções, está refém do crime organizado. Em Cabo Verde temos uma democracia estabilizada, onde a alternância tem sido a norma, ainda que o PAICV continue a ser o partido mais importante…

Cabo Verde continua a ser uma situação quase única em África…

E temos casos como o Níger, onde o actual presidente, Mahamadou Issoufou, deve ser reeleito à norte–coreana, com mais de 90% dos votos. Mas temos de ter em atenção o seguinte: é que há outras redes de poder para além do institucional, como sucede no Níger, país sob controlo de interesses económicos externos ligados à exploração do urânio e das chamadas terras raras, e onde, igualmente, é determinante o papel das confrarias muçulmanas. Por outro lado, é preciso ter presente a ameaça que o Boko Haram representa para muitos destes países onde se vota em 2016 e que soluções vão encontrar para o desafio que o grupo representa.

Essa característica é comum a outros países que vão ter eleições este ano?

Há circunstâncias diferentes. Por exemplo, no Uganda, são importantes as autoridades tradicionais com as quais o Presidente Yoweri Museveni soube cultivar uma boa relação, concedendo-lhes honrarias, prestígio e dinheiro. E gostaria de chamar a atenção para o caso da Zâmbia, onde será interessante ver se o actual presidente, Edgar Lungu, consegue ou não ganhar a eleição.

As estruturas tradicionais são determinantes?

Em África, a realidade é: um chefe, muitos votos. Isto pode não ser politicamente correto, mas corresponde à realidade. Não é por acaso que em ulundi há uma expressão que se pode traduzir por indicação de voto. É difícil nestas sociedades, e mesmo nos seus espaços urbanos, verificar-se o princípio “um homem, um voto”. Há todo um conjunto de tendências baseadas numa dupla genealogia, como sucede nas sociedades muçulmanas, a genealogia do saber religioso e a genealogia propriamente biológica. Nestas sociedades é de grande importância a cadeia de transmissão de conhecimento que se expressa pela fórmula “digo isto porque ouvi de X que já tinha ouvido de Y, que tinha ouvido ao seu mestre”. Um princípio que se aplica, naturalmente, à política, como referi ao falar de um chefe, muitos votos. E aquilo que se tem verificado é a recuperação das autoridades tradicionais…

O modelo político das independências foi posto em xeque?

Sim. Aliás, as cabeças são outras, com excepção de Robert Mugabe. Isto é, a mentalidade é diferente e as circunstâncias são outras também. Desde logo, pelo fim da Guerra Fria.

E tem aplicação o modelo político ocidental, tal como o concebemos e praticamos na Europa?

Não tem aplicabilidade exacta em África. Deve ter-se presente que os contextos são outros nas sociedades africanas. Não são melhores nem piores, são diferentes. As pessoas são outras. Só a importância concedida à senioridade é disso exemplo. Outro caso: o relevo concedido às autoridades tradicionais pode contribuir, e tem contribuído, para a pacificação de conflitos, pelo menos, em sede local, com recurso a usos e costumes, uma prática quase inexistente na Europa.

Falamos de transição política, mas também das próprias sociedades?

E estamos a falar apenas dos processos que mais facilmente se dão a ver. Outro aspecto a ter em conta: as sociedades africanas são extremamente jovens, mais de metade da população tem menos de 30 anos. Outro aspecto ainda, e eu vi isso no Mali, numa aldeia onde não havia electricidade, mas um emigrante em França comprou um gerador e meia dúzia de computadores e criou um cibercafé. Note-se isto: uma das frases que mais se ouve em qualquer língua africana é “eu tenho saldo, ele não tem saldo”. Mesmo aqueles que julgamos estarem isolados, estão em contacto com o mundo. Podem não saber o francês, o inglês ou o árabe, mas alguém lhes diz o que está a suceder. Moz Africa View

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