As autoridades de saúde, na província de Nampula, admitem que existem
"profissionais" que vendem sangue a pacientes. As autoridades sanitárias
apelam a todos para que denunciem os casos, porque vender sangue é
ilegal.
Foi, durante muito tempo, uma prática silenciosa. Mas, hoje em dia, é
quase feita à vista de todos: a venda de sangue na província moçambicana
de Nampula. Tudo acontece no Hospital Central de Nampula, a maior
unidade sanitária da região norte do país.
Meio litro de sangue, 500 meticais
A reportagem da DW desloca-se ao banco de sangue do Hospital Central de
Nampula, onde encontra imediatamente um homem a vender sangue. Abordado
pela nossa reportagem, pede, por meio litro de sangue, 500 meticais, o
equivalente a 10 euros. Mas está disposto a negociar o preço: "Você tem
quanto aí? Vou baixar para 300 meticais", diz-nos o homem.
Segundo doentes e familiares, trata-se de uma prática comum, em
Nampula. Um dos utentes do hospital, de nome Hélder Caetano, confirma
que se viu obrigado a pagar dinheiro por sangue para salvar a vida de um
familiar, internado no Hospital Central de Nampula: “Para ter
facilidade de sangue a pessoa tem que falar com um enfermeiro em
serviço. Eu tive uma prima que trabalhava lá no banco de sangue, mas já
não está lá, e a situação ficou mais complicada.”
Outra cidadã abordada pelo repórter DW, Angelina Sardinha, familiar de
um doente internado na pediatria, não autorizou a gravação da
entrevista, mas também confirmou que há sangue à venda.
Stocks de sangue diminuiram drásticamente
Oficialmente o sangue é gratuito em Moçambique. No entanto, segundo
apurou a DW África, começou a ser comercializado em 2000, depois da
extinção de uma organização de dadores voluntários, que fornecia sangue
aos hospitais da província de Nampula. A venda de sangue tornara-se
necessária, segundo alguns funcionários do hospital, depois dos stocks
de sangue terem diminuido drásticamente.
Mais tarde, em 2008, foi criada a "Associação dos Voluntários de Doação
de Sangue", em Nampula, mas a "comercialização" continuou. O presidente
da associação, Zacarias Juriasse, diz que é preciso alertar a população
de que o sangue não está à venda: “Está-se a propagar informações falsas
de que o sangue é vendido, por causa de um punhado de dadores que
vendem seu sangue.”
Na cidade de Nampula há apenas 141 pessoas que doam sangue com
frequência. Juriasse admite ter conhecimento de membros da associação
que vendem sangue, embora não saiba quantos ao certo. Conhece também
casos de pessoas que usaram ilegalmente o nome da associação para fazer
esse tipo de negócio ilícito.
Os próprios funcionários dos hospitais vendem sangue
A directora clínica do Hospital Central de Nampula, Bainabo Sahal, diz
não ter detalhes sobre o caso. Mas a directora Provincial da Saúde de
Nampula, Munira Abudou, reconhece a existência de pessoas, incluindo
funcionários da Saúde na província, que vendem sangue, particularmente
naquele hospital. Munira Abudou promete punições: “Sangue não se paga, é
de borla.”
O Banco de Sangue do Hospital Central de Nampula tem falta de sangue. As
autoridades apelam aos cidadãos que façam doações, que podem salvar
vidas. Mas chamam à atenção: Doar sangue não pode e não deve virar
negócio. Deutsche Welle
Sem comentários:
Enviar um comentário