sábado, 23 de janeiro de 2016

Moçambique: riqueza e miséria de mãos dadas, a segunda alimentando a primeira

Teresa Cunha e Boaventura Manjane

Apesar da desaceleração actual, Moçambique está a viver um ciclo de crescimento económico inédito e as profecias do FMI anunciam um futuro ainda animador. Mas o que isso significa para a maioria dos moçambicanos e moçambicanas? A resposta não é agradável: riqueza e miséria, a segunda alimentando a primeira sempre à custa da justiça.

É facto que, hoje em dia, a maioria das mulheres e dos homens que vivem em Moçambique sofrem uma extrema contradição: serem miseráveis num país com riquezas minerais, energéticas, culturais, linguísticas, de florestas, rios e mar fartos e de uma terra que dá frutos incontáveis. Tais riquezas são lhes usurpadas, exploradas e vezes sem conta, com isso, a sua própria vida. Tudo em nome do logro de um crescimento económico que afinal, não é mais, senão a vida de quase todos em troca da ganância de apenas alguns.

Hoje já se tornou lugar comum afirmar-se que o colonialismo europeu terminou com a independência política mas, ao mesmo tempo, muitos dos seus efeitos estão ainda longe de acabar. Mais do que isso, a economia extractivista e de acumulação primitiva do período colonial continua em outros termos e com uma violência redobrada. No contexto da globalização financeira são os velhos e novos poderes coloniais que invadem e ocupam o tecido produtivo, corroem as esperanças de uma soberania tanto política como económica e continuam a demonstrar-se na força mediática dos números que apregoam, transformando a miséria de quase todos na ideia de uma oportunidade histórica de saída do chamado sub-desenvolvimento de Moçambique.

De facto, várias fontes indicam que Moçambique está a viver um ciclo de crescimento económico inédito e que, apesar de uma desaceleração actual, as perspectivas são “animadoras”. Em 2014 o Banco Mundial fazia menção ao ritmo do crescimento do país e situava a taxa em 7%. Em Janeiro deste ano o Africa Confidential afirmou que segundo o Standard Bank a taxa se situará em 5,5% mas o FMI acredita que chegará aos 6,5%. No entanto, as medidas de austeridade dominarão a imagem económica em 2016.. Chegando a este ponto, já é possível afirmar que, apesar das riquezas continuarem a alimentar esta macro-economia de luxo, as medidas de corte e esvaziamento das funções sociais e redistributivas do Estado devem continuar e ser aprofundadas a troco de um recente auxílio financeiro ao país. E isto é apenas uma parte da história. O economista moçambicano Nuno Castel-Branco explica que o núcleo extractivista da economia moçambicana é responsável por 75% dos investimentos privado, 90% das exportações e 50% da taxa de crescimento do PIB mostrando onde residem as extremas fragilidades do sistema e de como a ‘bolha económica’ pode, a qualquer momento, destruir quase totalmente as expectativas de futuro para todas e todos as/os que não fazem parte dos rendeiros da extracção, nacionais e internacionais.

Apesar dos perigos eminentes que são descritos acima e, da persistência dos dados sobre o Desenvolvimento Humano em Moçambique o colocarem no oitavo pior lugar (posição 180 em 188 países analisados) a partir do último dos países onde a vida é mais difícil de ser vivida, as perspectivas neo-coloniais do capital financeiro e extractivista não desarmam. No dia 15 deste mês foi divulgado pelo Club of Mozambique um relatório do FMI profetizando que a taxa do crescimento médio durante a primeira metade da próxima década poderá atingir um número impressionante de 24% ao ano. O FMI calcula que até meados da década, metade dos rendimentos do país serão gerados pelo gás natural. Sabendo-se que o capital extractivista do gás é estrangeiro (sul-africano, norte-americano e italiano), assim como do carvão (brasileiro e indiano) da floresta e da agricultura intensiva (japonês, brasileiro, sul-africano, etc.) percebe-se a intensidade com que a ofensiva colonial se processa e se pretende restabelecer no tempo e no espaço não importando as consequências para o país, para as populações, para a paz e para a justiça.

Por estas razões pode continuar a dizer-se que, da tragédia da sua miséria, a maioria das e dos moçambicanos vê os palácios, os four by four, os resort faustosos, a obscenidade de todo o luxo diante dos seus olhos como se tudo fora um sonho mau. Do seu lado, este país muito rico já é de outros. Tem vindo a ser concessionado, concedido, realocado por uma elite que há muito tempo não se pergunta de que lado está.  Ler +

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