quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Rafael Marques: "Presidente de Angola gere o país como propriedade privada"

Desde Dezembro, Isabel dos Santos, filha do presidente de Angola, foi apresentada como líder de três projetos públicos. O império da mulher mais rica de África continua a crescer. 

A restruturação da Sonangol, maior empresa pública de Angola, o Plano Diretor Geral Metropolitano e a Comissão de Reajustamento da Organização do Setor dos Petróleos são os novos três projetos abraçados por Isabel dos Santos.
Rafael Marques, jornalista e ativista angolano, deu uma entrevista à DW África e comentou a situação.

DW África: Isabel dos Santos tem mais de 30 empresas e participações financeiras. A seu ver, qual é o motivo pelo qual Isabel dos Santos assume tantas funções? 

Rafael Marques (RM): Um dos motivos é a forma como o Presidente da República atribui essas funções a Isabel dos Santos. Por nepotismo, por corrupção e ao arrepio da legislação angolana. O segundo aspeto tem muito a ver com a mentalidade do passado comunista do Presidente de concentração absoluta de poder. Neste momento, o Presidente vai perdendo cada vez mais confiança nos seus colaboradores e vai concentrando cada vez mais responsabilidades do Estado nas mãos dos seus filhos que se tornaram nos seus principais conselheiros hoje. Praticamente já não se ouve falar do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) como partido político, que está no poder há 40 anos. O que se houve falar é da família presidencial. O MPLA serve apenas para legitimizar essa família presidencial.

DW África: Considera que esta concentração de poder pode colocar alguns problemas no seio do partido MPLA?

RM:Não, porque o MPLA se transformou num partido de oportunistas, de negociantes, de indivíduos que estão ali apenas para enriquecer de forma ilícita. Este é que é o grande poder do Presidente, por isso também é que está a entregar a Sonangol à filha, precisamente para que todos esses indivíduos do MPLA possam dirigir-se à filha, para fazer o “beija-mão”. José Eduardo dos Santos, ao não ter sido bem sucedido com o filho a ser potencial candidato à Presidência da República, está agora a tentar com a filha. Desde Dezembro a filha apareceu em três funções de alto perfill: na governação de Luanda, através do Plano Diretor Geral Metropolitano, na restruturação da Sonangol e na restrutação do setor petrolífero em Angola (com a Comissão de Reajustamento da Organização do Setor dos Petróleos). Deste modo, este é o país da família dos Santos. É como se o Presidente estivesse a distribuir já a sua herança pelos filhos e a herança é o património público.

DW África: Acha que esta concentração de poder, tendo em conta o panorama de crise em Angola, pode ser o estrangulamento da economia angolana?

RM:Não é um estrangulamento porque a economia angolana já está praticamente desagregada porque é uma economia que não foi diversificada, sempre dependeu dos altos preços do petróleo. As grandes receitas que obtivémos foi sobretudo entre os membros da elite, incluíndo a Isabel dos Santos, para que se tornassem bilionários e tivessem estilos de vida extravagantes, quer em Angola, quer no exterior do país. Estamos a viver uma situação apenas de agravamento da crise por falta de soluções e porque a única solução que o Presidente vê, com medo que o poder lhe escape, é concentrando mais poder nas mãos dos filhos.

DW África: Considera que esta situação possa levar a uma confusão entre que bens é que pertecem ao Presidente, que bens pertecem a Isabel dos Santos e que bens é que são,de facto, públicos?

RM:Não há confusão. Neste momento o Presidente da República gere o país como propriedade privada. Há uma efetiva privatização do Estado. A soberania de Angola foi praticamente desestruturada, foi afetada por esta forma como o Presidente gere o país. Não temos soberania. Então, as consequências deste ato poderão ser o descontentamente cada vez maior e concentrado na família presidencial. Porque as pessoas hoje, mesmo os indivíduos ignorantes, começam a olhar para o Presidente como o principal problema e a principal causa da situação que estamos a viver.

DW África: Houve também algumas pessoas que dizem que José Eduardo dos Santos deve demover a filha de tomar posse de tantas empresas e participações financeiras. Qual é a sua opinião?

RM:O Presidente não deve demover a filha. A filha não tem poderes institucionais para se colocar nesses lugares. Se ela está nesses lugares é porque o Presidente a colocou lá, ou seja, o problema aqui é o Presidente, não é a filha. Ler +

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