Desde Dezembro, Isabel dos Santos, filha do presidente de Angola, foi
apresentada como líder de três projetos públicos. O império da mulher
mais rica de África continua a crescer.
A restruturação da Sonangol, maior empresa pública de Angola, o Plano
Diretor Geral Metropolitano e a Comissão de Reajustamento da Organização
do Setor dos Petróleos são os novos três projetos abraçados por Isabel
dos Santos.
Rafael Marques, jornalista e ativista angolano, deu uma entrevista à DW África e comentou a situação.
DW África: Isabel dos Santos tem mais de 30 empresas e
participações financeiras. A seu ver, qual é o motivo pelo qual Isabel
dos Santos assume tantas funções?
Rafael Marques (RM): Um dos motivos é a forma como o
Presidente da República atribui essas funções a Isabel dos Santos. Por
nepotismo, por corrupção e ao arrepio da legislação angolana. O segundo
aspeto tem muito a ver com a mentalidade do passado comunista do
Presidente de concentração absoluta de poder. Neste momento, o
Presidente vai perdendo cada vez mais confiança nos seus colaboradores e
vai concentrando cada vez mais responsabilidades do Estado nas mãos dos
seus filhos que se tornaram nos seus principais conselheiros hoje.
Praticamente já não se ouve falar do MPLA (Movimento Popular de
Libertação de Angola) como partido político, que está no poder há 40
anos. O que se houve falar é da família presidencial. O MPLA serve
apenas para legitimizar essa família presidencial.
DW África: Considera que esta concentração de poder pode colocar alguns problemas no seio do partido MPLA?
RM:Não, porque o MPLA se transformou num partido de
oportunistas, de negociantes, de indivíduos que estão ali apenas para
enriquecer de forma ilícita. Este é que é o grande poder do Presidente,
por isso também é que está a entregar a Sonangol à filha, precisamente
para que todos esses indivíduos do MPLA possam dirigir-se à filha, para
fazer o “beija-mão”. José Eduardo dos Santos, ao não ter sido bem
sucedido com o filho a ser potencial candidato à Presidência da
República, está agora a tentar com a filha. Desde Dezembro a filha
apareceu em três funções de alto perfill: na governação de Luanda,
através do Plano Diretor Geral Metropolitano, na restruturação da
Sonangol e na restrutação do setor petrolífero em Angola (com a Comissão
de Reajustamento da Organização do Setor dos Petróleos). Deste modo,
este é o país da família dos Santos. É como se o Presidente estivesse a
distribuir já a sua herança pelos filhos e a herança é o património
público.
DW África: Acha que esta concentração de poder, tendo em conta o
panorama de crise em Angola, pode ser o estrangulamento da economia
angolana?
RM:Não é um estrangulamento porque a economia angolana
já está praticamente desagregada porque é uma economia que não foi
diversificada, sempre dependeu dos altos preços do petróleo. As grandes
receitas que obtivémos foi sobretudo entre os membros da elite,
incluíndo a Isabel dos Santos, para que se tornassem bilionários e
tivessem estilos de vida extravagantes, quer em Angola, quer no exterior
do país. Estamos a viver uma situação apenas de agravamento da crise
por falta de soluções e porque a única solução que o Presidente vê, com
medo que o poder lhe escape, é concentrando mais poder nas mãos dos
filhos.
DW África: Considera que esta situação possa levar a uma
confusão entre que bens é que pertecem ao Presidente, que bens pertecem a
Isabel dos Santos e que bens é que são,de facto, públicos?
RM:Não há confusão. Neste momento o Presidente da
República gere o país como propriedade privada. Há uma efetiva
privatização do Estado. A soberania de Angola foi praticamente
desestruturada, foi afetada por esta forma como o Presidente gere o
país. Não temos soberania. Então, as consequências deste ato poderão ser
o descontentamente cada vez maior e concentrado na família
presidencial. Porque as pessoas hoje, mesmo os indivíduos ignorantes,
começam a olhar para o Presidente como o principal problema e a
principal causa da situação que estamos a viver.
DW África: Houve também algumas pessoas que dizem que José
Eduardo dos Santos deve demover a filha de tomar posse de tantas
empresas e participações financeiras. Qual é a sua opinião?
RM:O Presidente não deve demover a filha. A filha não
tem poderes institucionais para se colocar nesses lugares. Se ela está
nesses lugares é porque o Presidente a colocou lá, ou seja, o problema
aqui é o Presidente, não é a filha. Ler +
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