Ausência de mediação entre Governo moçambicano e RENAMO está a
contribuir para o aumento da violência no país, diz analista político
moçambicano Silvestre Baessa.
Para Silvestre Baessa"de ambos os lados, a tendência é de as alas mais radicais assumirem maior protagonismo".
Em entrevista à DW África Baessa teme que,
face a um aumento da desconfiança mútua,
o Governo e a RENAMO se voltem a sentar à mesa de diálogo apenas quando
houver um "desgaste" da "opção dominante neste momento, a opção
militar". Entretanto, o analista sugere que o Presidente moçambicano,
Filipe Nyusi, leve a cabo reformas mais profundas - por exemplo, nas
lideranças do aparato de segurança do país.
DW África: A violência entre as forças governamentais e a RENAMO está a aumentar face à ausência de mediadores?
SB: Sem dúvida porque creio que de ambos os lados a
tendência é agora das alas mais radicais assumirem maior protagonismo,
seja do lado da RENAMO seja do lado do Governo,o que faz com que o
espaço para negociação seja cada vez maior. Tivemos ao longo do ano
passado muito tempo para se negociar, para se discutir e quando o
diálogo não produz nada em concreto em termos de resultados para uma
estabilidade mais prolongada, isso faz com que essas outras alas assumam
maior protagonismo.
DW África: Na semana passada o ex-mediador, Lourenço do Rosário,
disse à DW que os níveis de confiança estão muito deteriorados.
Concorda?
SB: Sem dúvida. Fracassados os esforços de paz por via negocial
voltamos para a situação inicial, que é a situação de extrema
desconfiança entre as partes.
DW África: Mas como dar a volta à situação?
SB: A experiência de Moçambique mostra que é preciso um
certo desgaste neste processo, sobretudo um desgaste na opção dominante
neste momento que é a opção militar. Portanto é preciso um desgaste
nessa opção para se chegar a um ponto em que se dá, mais uma vez, o
espaço e oportunidade para que o diálogo possa funcionar. Não estou
muito certo se isso vai acontecer a curto ou a longo prazo e não se sabe
se essa crise vai prolongar-se por muito mais tempo. O certo é que se
há de chegar a esse entendimento, aum certo reconhecimento que esta
opção não é a mais válida e a situação poderá não se prolongar.
Mas existem saídas que possam ser engendradas a curto e médio prazo. Uma
delas é o Presidente iniciar com reformas mais profundas. Desde que foi
empossado práticamente manteve intacta a liderança do aparato de
segurança, muito antigo. Creio que neste momento são esses grupos que
estão a assumir um protagonismo na liderança de todo esse processo com a
RENAMO.
DW África: Falou na radicalização de alas nos partidos. Esta radicalização parte das chefias ou da base?
SB: Os dois partidos têm bases muito seguras e as legitimidades
das lideranças derivam também de como controlam as bases etc.. Em todo o
caso este é um assunto que pode ser resolvido a nível das lideranças,
mas está claro que a ala mais radical por exemplo da é RENAMO encabeçada
pelo Manuel Bissopo (secretário-geral) e os outros seguidores que
vieram com o líder (Afonso Dhlakama) a partir das matas ao longo da
guerra. Essa é uma legitimidade que começa a ficar cada vez mais forte
porque as bases ressemtem-se mais das opções políticas, no caso da
RENAMO.
Neste momento acho que a maior pressão que o Presidente da RENAMO
sofre não é propriamente da RENAMO enquanto partido com representação
parlamentar mas é uma pressão vinda das bases (militantes e
ex-guerrilheiros) que não veem ganhos significativos depois de terem
terminado a guerra civil e terem denunciado esse Acordo Geral de Paz.
Do lado da FRELIMO acho que a base é significativa mas as decisões estão
ainda muito concentradas a nível do topo. É um partido que tem uma base
muito forte mas a tendência é muito centralizada no topo. Significa
que, a nível da liderança, se existir um consenso em relação à
negociação com a RENAMO as bases vão naturalmente obedecer.
DW África: Na sexta-feira(05.02) o Comité Central da FRELIMO
reúne-se e será debatida a situação do país, inclusive a situação
política. Que posição se poderá esperar da FRELIMO face à tensão
poítico-militar?
SB: A FRELIMO está muito dividida em relação a isto. Há
quem acredite que não é necessariamente uma questão de aceitar as
reivindicações da RENAMO mas é importante repensar o Estado. A RENAMO
lança um repto importante para quem quer pensar o Estado moçambicano em
relação ao processo de descentralização, em relação à integração de
todas asforças vivas da sociedade no processo de desenvolvimento e essa
ala vai tentar puxar para essa direção.
Dizer que é possível chegarmos a um caminho de paz sem necessariamente
usarmos a via mais violenta e sem pôr em causa os nossos interesses.
Há uma outra posição que é muito mais radical que diz, temos estado a
alongar este processo e não estamos a conseguir sair. Então é preciso
colocar um ponto final a isso, todo esse investimento que tem sido feito
nas forças de defesa e segurança nos últimos dez anos, é um
investimento que em parte responde ou dá legitimidade a esta ala.
Então dois resultados são possíveis nessa reunião: uma mais firme da
FRELIMO e mais radical em relação à RENAMO, que tem combatido
diretamente a RENAMO. E aí temos que ver como a RENAMO irá reagir. A
outra é aquela que vai tentar chamar à consciência para o retorno do
diálogo político. Deutsche Welle
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