A crescente tensão político-militar em Moçambique poderá ter graves
consequências para a economia do país, afirma o economista moçambicano
Hipólito Hamela, em entrevista à DW África.
Hipólito Hamela, consultor económico e docente na Universade Eduardo
Mondlane, relembra que o setor do turismo teve enormes prejuizos em 2013
quando a RENAMO bloqueou a circulação rodoviária, sobretudo na
província de Sofala. Agora o maior partido de oposição volta a anunciar
"postos de controlo", ou seja bloqueio de estradas.
DW África: Que repercussões poderá ter a crise político-militar em Moçambique tendo em conta experiências anteriores?
Hipólito Hamela (HH): Foi realizado um estudo que
mostrou que a indústria do turismo perdeu muito dinheiro com o último
conflito em que a guerra estava concentrada na zona de Save, quando a
RENAMO bloqueou a circulação rodoviária. Por isso digo que a indústria
do turismo este ano está má, porque tiveram grandes prejuízos com uma
drástica redução do número de turistas não só em Vilanculos. Ocorreram
nomeadamente vários cancelamentos de reservas que estavam feitas para o
fim do ano. Foi uma desgraça absoluta. A situação é a mesma para os
transportadores, porque, primeiro, não podem cumprir com os prazos de
entrega. Por exemplo: vão entregar uma mercadoria no dia 24 de fevereiro
em Nampula, mas depois os transportes chegam ao Save e não podem
passar, para além daqueles que perderam os camiões e outros meios. É um
problema grave.
DW África: Falou dos setores do turismo, dos transportes... e com a indústria da mineração e outros setores o quadro é idêntico?
HH: Acho isso mais complicado, porque na indústria da mineração existem os commodities, há o problema do preço do petróleo que caiu para 30 dólares, o preço do carvão baixou, esta situação da baixa dos preços dos commodities, conjugada com a situação político-militar: as pessoas podem imaginar o que isso significa.
DW África: Como deveria atuar o Governo face a esta situação tendo em vista todos esses perigos?
HH: Tem que haver diálogo entre as partes. Não vejo outra solução.
DW África: E será que Moçambique dispõe de mediadores à altura para conseguir resolver este conflito?
HH: Temos gente com muita capacidade para lidar com
este problema. Temos, por exemplo, um Joaquim Chissano, com toda
experiência e capacidade de diálogo, que resolve os problemas dos outros
países e que portanto pode resolver claramente o problema de
Moçambique. Chissano é um homem com uma grande capacidade para promover
este diálogo. O nosso Governo não tem falta de recursos para dialogar.
Tem muitos recursos e é uma pena que não os use.
DW África: Como economista, sabe que a economia de um país
também se alimenta muito da imagem que o país emite para o exterior onde
já se fala de uma grande tensão político-militar e perigo de guerra
civil. Concorda?
HH: Fiquei estarrecido, fiquei mal, quando ouvi o
Presidente de S.Tomé e Príncipe, que visitava Cabo Verde, abordoar a
solução para os conflitos armados na Guiné-Bissau e em Moçambique. Caí
de costas, porque nunca esperei na vida ver Moçambique a ser comparado à
Guiné-Bissau.
DW África: E o que significa isso para os grandes, médios e pequenos investidores interessados em investir em Moçambique?
HH: Os pequenos investidores não lhes acontece nada,
porque vêm para aqui abrir restaurantes, pequenas lojas, etc. Mas para
os grandes esta situação é um problema sério e tem que ser resolvido
imediatamente. Já fizemos isso no passado e por isso insisto: temos uma
pessoa com essa capacidade: Joaquim Chissano. Ele sabe fazer isso e já
deu provas noutros países. Por que não em Moçambique? Deutsche Welle
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