sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Temos de acabar com essa história de gueto, de favela, de cidade partida

09h00 Angélica Prieto (texto) Célia Lamarão (vídeo e fotografias) João Roberto (grafismo) João Santos Duarte (edição multimédia) Maria Romero (webdesign) 26 de Fevereiro 2016

No início era apenas água. Depois chegaram os primeiros homens e mulheres e espetaram estacas de madeira que foram conquistando terreno ao mar. Hoje em dia é um dos maiores complexos de favelas do Rio de Janeiro. O Expresso entrou na Maré e faz um retrato de uma comunidade marcada pela pobreza, o tráfico de droga e troca de tiros, mas onde também há pequenas bailarinas e gente que acredita num futuro. Há apenas um caminho: prosseguir resistindo. “Aqui, onde muitos só enxergam a violência, nasce uma nova maneira de contar os tempos da cidade”

Vinte e oito de setembro de 1934. O dia em que Cionilia nasceu. Data que durante 13 anos não pôde comemorar. A vida de menina começou na “roça”, no Espírito Santo, estado vizinho do Rio de Janeiro.
Cionilia fez-se mulher com pouca idade. Aos oito anos, foi levada pelo tio para uma fazenda, em Campos, no norte do Rio, depois de perder a mãe. O tio abandonou-a ao seu próprio destino e ela depressa deixou de ser criança para ser “escrava”. “A infância chamava-se trabalho”, recorda, com clareza, nos atuais 81 anos.
Via as crianças passando com aquelas bolsinhas para ir para a escola. Ficava ansiosa e imaginava: 'Meu Deus, quando é a minha vez'.
A menina teve de fazer chegar a sua vez. Criou coragem, saltou o muro da fazenda, com a ajuda de uma vizinha, e fugiu. Fê-lo com 13 anos de idade (mas ainda não o sabia na altura, porque não lhe tinham dito em que ano havia nascido). Deixou, sem olhar para trás, o “prato, a colher e a caneca” que lhe pertenciam e que estiveram sempre à parte dos que lhe tiraram a infância. Mas queria saber quantos anos tinha. Nunca ninguém lhe dissera. E o que buscava estava no livro de escrivão do tio. Decidiu então procurá-lo no Rio de Janeiro, num lugar chamado Maré.
Seguiu em busca do tio depois de ter juntado alguns “mil réis” com a ajuda da segunda família que a acolheu. Desta vez, “gente muito boa”. Chegando à Maré, a resposta que almejava estava guardada no tal livrinho que tinha o “nome de todo mundo”. E as palavras do tio não as esquece: “Olha, você nasceu no dia 28 de setembro de 1934, no mês que vem você vai fazer 14 anos”.
Os anos passaram e o destino de Cionilia iria cruzar-se, mais uma vez, com a Maré. Por esta altura já era menina crescida, mulher casada e com certidão de nascimento. Depois de tratar de toda a documentação, até um novo nome arranjou. Cionilia ficou para trás para dar lugar a Maria Luiza. Um nome bom de se ouvir e que todos sabiam pronunciar.
Quando foi para o Rio de Janeiro, a “capixaba” – nome dado a quem nasceu no estado do Espírito Santo - trazia consigo quatro crianças e a promessa feita pelo marido de que teria na cidade grande uma casa guardada. Acabou por ficar na casa do “irmão de leite” do marido. Encontrou apenas um quarto, uma sala, uma cozinha que dividiam pelas duas famílias, e ainda uma latrina que fazia ‘buttuff’ dentro do valão”, a vala a céu aberto onde corriam os esgotos da favela.
“Era humilhada, as crianças não podiam tocar na parede porque a mulher do outro lado gritava. Sabe como é criança, a gente não segura”, conta Maria Luiza, que não esquece os tempos que passou no “lixão”. Foi a altura em que foi obrigada a apanhar lixo para dar de comer aos filhos. Por entre os restos deitados fora, ficava atenta àquilo que poderia usar um dia para construir a sua própria casa.
Manteve-se forte e conseguiu colocar de pé o próprio “barraco”. Fê-lo com a ajuda dos vizinhos. “Num dia, fiz o primeiro quarto. Quando cheguei de tarde, já pulei para dentro.” E o sentimento de alívio ficou na memória: “Graças a Deus, saí da casa dos outros”. Mesmo que a nova casa fosse paredes meias com o “valão” dos esgotos.
A Maré foi o refúgio de Maria Luiza. E a única saída para muitos outros brasileiros que arriscaram perder o pouco que tinham para conquistar o Rio de Janeiro. A esperança depositada na cidade de braços abertos levou-os a desbastarem a margens da Baía de Guanabara e a fazer do mar a sua terra. Não se olhava ao conforto, mas lutava-se por um lugar para viver. Mesmo que, para isso, fosse necessário conquistar espaço aos "manguezais", a zona de vegetação junto ao mar.
Os primeiros chegaram nos anos 40. Vinham da aridez do nordeste brasileiro, do interior do país ou de outras favelas do Rio desocupadas pelo Governo. Trabalhavam no centro da cidade e na construção de dois grandes projetos que nasceram nas margens do que é hoje a Maré: a Avenida Brasil, umas das principais vias de acesso ao Rio de Janeiro, e a Universidade do Brasil, atualmente a Universidade Federal do Rio de Janeiro.Construíram as casas sobre o mar, quando não havia mais espaço no único lugar de terra firme da região, o Morro do Timbau. Sobre enormes e finas estacas cravadas na água, os pequenos lares de madeira foram sendo erguidos à volta do morro e ao longo da Baía de Guanabara. Tinham o nome de palafitas. Muitas erguidas numa só noite pelos moradores, às escondidas, para que o Exército não as derrubasse. Durante a madrugada, os vizinhos reuniam-se em “mutirões” (expressão usada para referir um conjunto de pessoas que se juntava para trabalhar em prol da comunidade) para que fosse mais rápido construir o barraco. E iam ganhando terreno à água. Ler +

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