segunda-feira, 7 de março de 2016

Moçambique “Quantos milhões morreram na saga do colonialismo?”

Em Moçambique as opiniões sobre o racismo e as marcas do tempo colonial podem mudar de acordo com a geração, de acordo com quem viveu o apartheid e quem nasceu depois da independência. “Podemos dizer que fomos colonizados por um país periférico — e isso dá uma mentalidade periférica”

Na mesa de jantar da família Quelhas, há pratos de várias origens: bebinca (uma sobremesa goesa), doce de mandioca e coco e matapa (pratos típicos de Moçambique), chamuças (especialidade indiana). Há também mandioca frita, beringela, mangas e papaias.
Celisa Quelhas (n. 1953) é auditora e nasceu em Goa; o marido, António (n. 1947), é engenheiro e português; os filhos são moçambicanos e a nora Tasia também.
Na sala de estar há vários aperitivos, uma taça com desenhos do pintor moçambicano Malangatana destaca-se pelas suas cores vivas. “Fazemos uma grande mistura de pratos goeses, portugueses, moçambicanos”, explica Celisa, apontando para a mesa.
Normalmente, a reunião familiar dá-se em sua casa, ao domingo. Porém, hoje, uma noite de Maio, o encontro é em casa do filho, Nuno (n. 1978) gestor de uma empresa de investimento e pai de uma criança de meses.
É uma moradia que fica no Bairro do Triunfo, na Costa do Sol, um pouco a seguir ao famoso Mercado do Peixe, onde moçambicanos e estrangeiros comem peixe e marisco fresco. Situada na zona Sul, é considerada uma das zonas abastadas da cidade. É frequente ver seguranças à porta das casas que se seguem umas às outras em linha recta, a de Nuno Quelhas não é excepção.
Celisa e os irmãos nasceram em Goa, de onde saíram em 1962, depois de o território ser anexado pela Índia. Os pais eram enfermeiros, foram para Portugal e depois para Moçambique. A seguir à independência, a 25 de Junho de 1975, as famílias de Celisa e de António regressaram a Portugal mas os dois acabariam por ficar e casar um par de anos depois de se conhecerem, em 1973.
“A família do meu pai já é constituída por uma diversidade cultural grande, tem ascendência judaica e outras”, descreve Nuno a olhar para o pai. “Em Moçambique, encontra-se muita gente com esta influência multirracial, vem do tempo antes de Portugal chegar a Moçambique. A componente árabe já tinha prevalecido.”
Em 1973, a população branca de Moçambique era de 190 mil (2,3% da população), segundo um gráfico reproduzido pela investigadora Cláudia Castelo em Passagens para África — o Censo de 1970 indicava um total de 8 milhões de habitantes em Moçambique. Actualmente, 99% da população moçambicana é negra, diz o Censo de 2007, 0,4% de raça mista e 0,6% de outras raças.
Celisa e António nunca sofreram pressão social por serem um casal de diferentes origens, porque em Moçambique “havia muitas famílias mistas” — brancos com negros, brancos de diversas origens com africanos, asiáticos. “Nunca senti racismo e posso até dizer que nunca ouvi falar de raça na minha família. Em minha casa entravam pessoas de todas as classes”, sublinha Celisa. Lembra-se também de, em 1973, olhar para a placa do gabinete onde o pai trabalhava, ver escrito “consulta externa indígena” e perceber “que naquela consulta só havia pessoas negras”.
António Quelhas também nunca sentiu que houvesse diferenciação racial. Pertenceu à tropa local, onde havia “uma mescla de gente africana, goeses, negros, hindus, muçulmanos” e “um chefe que era eu, tinha formação superior”. “Nos empregos, havia alguma discriminação mas eram regras impostas pelo Governo; até certa altura, dizia-se que os brancos que estavam cá eram brancos de segunda.”
Da geração mais velha à mais nova, em casa da família Quelhas, a percepção é que no país há e houve uma harmonia racial. Nuno estudou na África do Sul, Suazilândia, Inglaterra e não hesita em afirmar que “Moçambique é o país mais multirracial” que conhece. “Já vivi em Londres, e existem leis que criam integração racial. Em Moçambique as pessoas convivem sem ter de haver nenhuma regra. Um partido como a Frelimo [Frente de Libertação de Moçambique], que assumiu o poder depois de 1975, não teria conseguido um governo multirracial se isso não fosse intrínseco. Os países lusófonos são dos que mais miscelânea têm e Moçambique é onde acontece de maneira orgânica”, defende.
Tocam à campainha os amigos de Nuno e Tasia, moçambicanos negros. Vêm jantar, é sexta-feira.

A desconfiança sobre os portugueses


O teatro está fechado mas o director do grupo Gungu, Gilberto Mendes (n. 1966), faz a visita guiada. Ele é uma estrela em Maputo, parando na rua para o cumprimentarem. No edifício, que tem o seu nome, bem no centro da cidade, acontecem também gravações de programas de televisão. Dramaturgo e encenador, autor de mais de 60 espectáculos, teve uma peça, O Julgamento, censurada por retratar um processo de corrupção moçambicano. Já por várias vezes abordou a questão racial nos seus espectáculos.
Uma das peças do Gungu faz a caricatura de uma mulher portuguesa, branca, que consegue, sem ter qualificação profissional para isso, ser contratada para trabalhar num hotel e obter mais uma tão almejada estrela para o estabelecimento. “A melhor maneira de passar exemplos é fazendo exemplos rácicos, não no sentido pejorativo mas de analogia”, explica Gilberto Mendes.  
Uma das ideias de abordar a questão racial até surgiu por causa de um amigo português que decidiu viajar de Lisboa a Maputo de carro. A travessia demorou dois anos e quando ele chegou Gilberto Mendes gozou: “Isso é brincadeira de branco. Se fosse um preto a fazer uma viagem dessas, já tinha morrido há muito tempo.” Fez então um espectáculo que pegava “em coisas que, entre aspas, podem ser feitas por uns e não podem ser feitas por outros, que a gente olha e acha que pertencem a uma determinada raça”, explica.
E os espectáculos têm sucesso porque ainda há no inconsciente colectivo moçambicano um preconceito que se traduz em pequenos exemplos como o facto de, “se um negro abrir um restaurante, não ter tanto sucesso quanto se for um branco”, observa. “Se as pessoas não têm a formação para perceber estes clichés, acabam induzidas em erro e a respeitar uns e a não respeitar outros.”
Em 2013, segundo o Observatório da Emigração, havia pouco mais de 24 mil portugueses em Moçambique. É vulgar nas ruas de Maputo ver portugueses, e a imagem que permanece é que a maioria ocupa cargos de chefia.
No parque onde encontramos Calton Cadeado, que fica numa das zonas altas e nobres da cidade, vêem-se meninos com as suas amas, fardadas, a marcar de forma evidente a divisão de classes — algumas das fardas fazem lembrar o imaginário colonial e é, aliás, comum venderem-se nas ruas de Maputo no mercado paralelo. Calton Cadeado é chefe do departamento de Paz e Segurança do Instituto Superior de Relações Internacionais.
Nascido na Beira, tem centrado a sua investigação na população e dá-nos a leitura de alguns discursos sobre a questão racial, como a percepção de que há uma discriminação que privilegia os brancos, que vieram em maior número nos últimos anos por causa das riquezas naturais do país: “Ainda é muito cedo para dizer que os brancos vieram para controlar. Na teoria da conspiração, ninguém tira isso da cabeça dos moçambicanos”, considera. Mas não nota tensão racial em Moçambique — e se existir será nos espaços urbanos como Maputo, até porque as elites negras e brancas se misturam nos mesmos lugares, nos mesmos restaurantes, nos mesmos círculos intelectuais, defende.
Para ele, no discurso sobre as identidades, primeiro aparece a questão da etnia, depois da região e só em último a raça.
Em relação aos portugueses, poderá haver uma desconfiança e o fantasma de que voltaram para recuperar a propriedade perdida, diz — para mais, a ideia de que os portugueses foram obrigados a abandonar o país em 24h e a levar apenas 20 quilos com eles criou o sentimento de perda, sublinha. Calton Cadeado não acha que essa desconfiança seja significativa. Se eram vistos como os maus da fita, os portugueses seriam, mais tarde, “protegidos” pelo discurso insistente de Samora Machel (1933-1986) de que a luta tinha sido contra o sistema — Samora seria, aliás, criticado por ter demasiados brancos no seu governo, lembra.
A relação hoje entre portugueses e moçambicanos não é de igual para igual, há muitos que chegam a ganhar mais do que os nacionais, sobretudo nas empresas multinacionais, diz. “A explicação que arranjo para a diferenciação salarial é que quem financia dita as regras. A outra ideia é que há uma drenagem do capital, que vem e volta para o local de origem” — mas esta última ainda é só uma hipótese de investigação que está a aprofundar. Ler +

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