quinta-feira, 24 de março de 2016

NEGÓCIO DE MADEIRA EM SOFALA: Entre a tensão militar e a crise financeira

A PRODUÇÃO dos operadores florestais de Sofala tem sido fraca devido à tensão político-militar que afecta a região centro do país, que os impede de cortar, processar e escoar madeira.
O “Notícias” apurou junto do chefe dos Serviços Provinciais de Florestas e Fauna Bravia em Sofala, Paz Martinho, que esta situação se verifica, sobretudo, nos distritos de Marínguè, Chemba, Cheringoma e Chibabava.
“A presença de homens armados da Renamo está a afectar o sector de florestas na província de Sofala porque o raio de acção em termos de mobilidade para se realizar o controlo ficou muito reduzido. Há regiões onde os fiscais já não podem entrar para realizarem o seu trabalho, sob pena de haver confrontos. Por causa disso, o nosso raio de acção para a gestão dos recursos reduziu bastante”, lamenta Paz Martinho.
O nosso interlocutor acrescentou que pela mesma razão os operadores florestais já não vão ao terreno porque têm medo do que lhes pode acontecer. Referiu ainda que, como consequência, os madeireiros não têm pago as suas licenças reduzindo, deste modo, as receitas do Estado.
Segundo a fonte, esta situação afecta a exploração de recursos florestais e faunísticos, uma vez que, não sendo possível fazer a fiscalização nas reservas, os animais ficam entregues à sua sorte. “Esta situação não só põe em risco os recursos florestais, mas também os faunísticos. Olhando para a mobilidade dos animais, há regiões onde os fiscais não podem chegar para fazer inspecção, o que coloca os animais entregues à sua sorte”, afirma.
O chefe dos Serviços Provinciais de Florestas e Fauna Bravia de Sofala prevê maus resultados para a próxima campanha de exploração florestal que inicia em Abril, depois do período de defeso, entre Janeiro e Março, exactamente porque os confrontos militares decorrem nas regiões onde estão localizadas as concessões.

QUEDA DO PREÇO COMO FACTOR DE DESISTÊNCIA

Paz Martinho estima que 13 por cento dos operadores florestais abandonaram a actividade até o final do ano passado devido à queda do preço da madeira no mercado internacional, motivada pela crise económico-financeira no mundo.
“O volume de corte admissível na província Sofala é de 80 mil metros cúbicos por ano, mas não temos conseguido atingir esse número por causa do decréscimo do número de operadores florestais, queda do valor do produto no mercado internacional, e também porque a madeira começa a escassear”, declara.
Entretanto, afirma que a redução do número de exploradores florestais é satisfatória, especialmente os que operam em regime de licenças simples, mas lamenta que muitas concessões tenham encerrado as suas actividades.
“Se conseguíssemos reduzir um concessionário em cada quatro operadores em regime de licenças simples seria muito benéfico. Os ganhos seriam enormes porque o concessionário está lá por 50 anos ou mais e tem a obrigação de fazer um investimento, enquanto o de licença simples não tem a obrigação de montar essa infra-estrutura toda”.
O “Notícias” visitou alguns estaleiros para se inteirar sobre o processo de exportação de madeira, um dos quais pertence a uma empresa chinesa denominada Eastern Tradding, que opera em Sofala desde 2011.
O seu responsável, Chun Xing Li, mostrou-se indignado com as tendências actuais do mercado que, segundo afirmou, colocam em risco a actividade dos madeireiros.
Ele fez saber que por causa da crise financeira uma tonelada de madeira processada é actualmente vendida a 500 dólares norte-americanos, contrariamente aos 600 dólares praticados anteriormente. Por sua vez, o director adjunto da Indústria Madeireira de Moçambique, Mahomed Magid, está preocupado com o corte ilegal de madeira feito maioritariamente por cidadãos de origem asiática, o que está a provocar o desaparecimento de algumas espécies.
Dados recentemente publicados apontam que o país apresenta actualmente uma taxa de desflorestação de 0,58 por cento, o que significa a perda de uma área de floresta equivalente a 219 mil hectares anualmente. O objectivo da reforma do sector desenhado pelo Governo é de descer a taxa para 0,2 por cento por ano.

CONCORRÊNCIA DESLEAL

Alguns operadores nacionais na província de Sofala sentem-se prejudicados pelo facto de alguns compradores de madeira terem, nos últimos quatro anos, acesso directo às florestas, numa acção facilitada por alguns líderes tradicionais e outros membros das comunidades a troca de dinheiro. Segundo eles, o poder financeiro dos chineses introduziu uma nova forma de estar no seio das comunidades que começam a ter em conta as vantagens comparativas sobre os benefícios de colaborar com cidadãos moçambicanos ou chineses.
Ficámos a saber que os empresários estrangeiros fornecem os meios necessários para o corte e transporte de madeira aos furtivos que, em troca, lhes vendem o produto a um preço muito abaixo comparativamente ao praticado no mercado.
“É uma realidade que com o poder financeiro que os chineses têm conseguem corromper as comunidades, porque elas ganham mais com eles do que a trabalhar com operadores moçambicanos”, considera Mahomed Magid. Ler +

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