sexta-feira, 1 de abril de 2016

DESPROPRIAÇÃO DA TERRA: Até quando injustiças contra idosas!

JÚLIA, único nome de registo, é uma idosa de 90 anos que há muito tempo clama por justiça, porque está a ficar sem parte do seu quintal, numa disputa com familiares, no bairro de Xipamanine, cidade de Maputo.
A idosa teria, em tempos, construído uma casa de madeira e zinco no seu pátio para acomodar uma prima que voltara do lar com seus filhos menores. Com o tempo, a prima teve outro casamento, mas deixou os filhos na casa emprestada. Lá perdeu a vida. Os filhos cresceram sob alçada de Júlia, criaram as suas famílias e saíram daquele quintal.
Contudo, uma das sobrinhas manteve-se no local, fez filhos e hoje se recusa a abandonar o espaço alegando que herdou da mãe. Para não deixá-la ao relato, Júlia construiu uma dependência ainda no mesmo quarteirão e ofereceu à sobrinha. Esta deu a casa oferecida a um dos seus filhos e mantém-se no quintal da tia.
Indignada, a idosa meteu queixa no tribunal comunitário local onde o Juiz sentenciou a seu favor, dando prazo de 90 dias para a sobrinha abandonar o espaço. Na ocasião, a sobrinha concordou com a sentença e assinou o documento de que sairia do quintal da tia.
Os três meses passaram, a sobrinha não abandonou a casa da idosa, pelo contrário comprou chapas de zinco e renovou a habitação.
“Informaram-me que ela recorreu da sentença no tribunal judicial. Não sei o que é que ela quer. Quando entende me insulta, não me respeita, não me dirige a palavra no meu próprio quintal. Já lhe dei uma casa. Custa deixar-me em paz? Será que fiz mal em acolher a mãe quando precisava? É este o preço que tenho que pagar por ter feito o bem a ela e aos seus irmãos?” - emociona-se Júlia, com voz trémula e lágrimas nos olhos, mas com esperança de que algum dia o caso terá desfecho. Júlia é apenas um exemplo de tantas outras idosas que sofrem situações similares na sociedade moçambicana. Algumas são linchadas acusadas de feitiçaria, maltratadas e/ou obrigadas a abandonar as suas casas pelos filhos e passam a viver com familiares ou pessoas de boa vontade que aceitam acolhê-las. Outras são acolhidas em lares para desamparados, deixando tudo que construíram ao longo da vida. O Lar de Nossa Senhora dos Desamparados, cidade de Maputo, por exemplo, acolhe 94 idosos e a maioria são do sexo feminino.
“Quando chegam ao nosso lar, os idosos dizem que estavam na rua, apanhavam coisas nos contentores de lixo para se alimentar ou que dependiam de ajuda de vizinhos para sobreviver. Outros estavam abandonados em suas palhotas sem ninguém para os cuidar”, relata a irmã Fátima Carneiro. Esta freira lamenta o facto de estarem a aumentar as petições de familiares que desejam deixar os seus parentes idosos naquele lar.
“Há 15 anos, os idosos eram trazidos por autoridades policiais, mas agora é a família que pede para deixá-los. Alegam que já contrataram empregados, mas estes não sabem cuidá-los e porque não passam o dia todo em casa, vem pedir asilo para eles”, referiu. Aconselhou, no entanto, a sociedade a ter paciência e a cuidar da pessoa idosa porque precisa. Ler +

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