segunda-feira, 4 de abril de 2016

Militarização do Estado moçambicano ameaça a paz, alerta historiador da Universidade de Maputo

O historiador Gerhard Liesegang, da Universidade Eduardo Mondlane, diz que o país está a desenvolver uma "tendência unilateral", típica de ditaduras de alguns países africanos.

Maputo - O historiador alemão radicado em Maputo Gerhard Liesegang aponta a militarização do Estado moçambicano como a principal ameaça à paz, alertando para os riscos de uma "fascização "da esfera política no país.
"A militarização do Estado nos últimos tempos é uma ameaça veemente à paz", disse Gerhard Liesegang, em entrevista à Lusa, sustentando que, desde a sua investidura como Presidente da República de Moçambique, em janeiro de 2015, Filipe Nyusi apresentou um modelo de atuação militar que pode ser um obstáculo para a consolidação da democracia, informa a agência portuguesa Lusa.
Numa altura em que a crise política em Moçambique se agrava com registos de confrontações militares entre as Forças de Defesa e Segurança e o braço armado do maior partido de oposição, a Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), o historiador da Universidade Eduardo Mondlane observa que o país está a desenvolver uma "tendência unilateral", típica de ditaduras de alguns países africanos.
Ao referir-se ao triunfo da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) nas eleições gerais de outubro de 2014, o historiador sustenta que a redução da margem de vitória conseguida pelo partido no poder há mais de 40 anos, com 57,03 % nas presidenciais e 55% no parlamento, aponta para a necessidade de reformulação do modelo centralizado vigente, sob pena de se agudizar a tensão política.
"Parece-me que há um grupo que quer tomar conta de tudo, até dos recursos, sem uma divisão mais aceitável", declarou Liesegang, sugerindo a introdução de um quadro constitucional mais flexível e abrangente, acomodando as exigências dos grupos sociais que se sentem excluídos.
Para Gerhard Liesegang as autarquias provinciais, proposta da Renamo rejeitada pela Assembleia da República em 2015, não são "necessariamente a solução" para a crise política, na medida em que a estrutura económica do país ainda é frágil e incapaz de garantir que algumas províncias sobrevivam de forma independente.
"Os estados modernos que adotaram um modelo similar já mostraram que o sistema é muito oneroso e, financeiramente, Moçambique não teria capacidade para responder a estas exigências", afirmou, admitindo, no entanto, que este debate abra espaço para uma atualização da Constituição.
Liesegang, que trabalha em Moçambique desde 1969, assinala que os três anteriores chefes de Estado (Samora Machel, Joaquim Chissano e Armando Guebuza) desde a independência tinham noção da evolução histórica do problema político, mas entretanto, não conseguiram transmitir o seu legado para o atual Presidente.
"Além da militarização do Estado, noto que há alguns elementos relativamente insensíveis e isso é um grande perigo para a paz", referiu.
Destacando a importância de uma educação que desenvolva a cultura de alternância política, tanto na sociedade como nas lideranças, o historiador observa que comunidade científica é relativamente fraca, considerando que o país precisa deacadémicos mais críticos e interventivos e de pensadores capazes de postular soluções para os problemas sociais.
"É necessária uma comunidade científica mais viva, ativa e capaz de apresentar soluções para a nossa realidade", sustentou o diretor-adjunto de investigação e extensão e professor auxiliar na Universidade Eduardo Mondlane, sublinhando que é imperiosa, acima de tudo, vontade política.
"A história não é tudo, mas é preciso que as pessoas que querem decidir sobre o futuro de uma nação tenham conhecimento histórica, sensibilidade e tolerância política", concluiu, apelando para a "urgente necessidade de interiorização de um espírito de paz" nas lideranças.
A Renamo ameaça governar à força nas seis províncias onde reivindica vitória nas eleições gerais de 2014, acusando o partido no poder, a Frelimo, de ter protagonizado uma fraude eleitoral no último escrutínio. África 21

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