domingo, 3 de abril de 2016

O prazo para a "tomada" de parte de Moçambique pela Renamo terminou. E agora?

As palavras “situação” e “conflito” passaram a fazer parte do quotidiano. Se vemos mais militares, especula-se que se passa alguma coisa. Mas, ao mesmo tempo que se vive a “situação”, a vida segue com normalidade

Esperei até às últimas horas da noite de 31 de Março para escrever este texto. Nessa noite vi ainda com mais atenção os noticiários das televisões moçambicanas. Nada de novo em relação ao que têm sido as notícias dos últimos meses – quase todos os dias se fala de uma emboscada, alegadamente organizada pela Renamo, e de apelos à paz.
No ecrã surge um oficial das forças de segurança em conferência de imprensa a comunicar que na zona A ou B a Renamo fez mais uma emboscada a transportes públicos ou a uma comitiva governamental. Sem se dizer, mas com certeza por ser o fim do prazo dado pela Renamo, na noite de 31 de Março, em vez de um pedido de paz, foram feitos vários. Refiro, por exemplo, o pedido do ex-Presidente Joaquim Chissano, que lembrou que o povo moçambicano exige a paz, e o dos ex-combatentes da liberdade, que recordaram como lutaram pela independência e que o actual momento exigia que os moçambicanos voltassem a unir-se em diálogo como o fizeram após o massacre de 1960 em Mueda. Explicaram: “Depois do massacre de Mueda, reunimo-nos, mesmo com as nossas diferenças, em Dar-es-Salaam.”
À lista dos apelantes à paz juntaram-se os empresários que apelaram à Renamo para voltar ao diálogo. O secretário-geral da Frelimo, Eliseu Machava, apelou à paz, mas num tom ligeiramente diferente do dos outros. Machava culpabilizou a Renamo ao não responder ao convite do Presidente da República para voltar a dialogar. Machava culpabilizou também os que dizem “que os dois têm de conversar”, os que assim dizem são covardes, porque covardia é fingir que não vêem as coisas. Deviam dizer isso ao Dhlakama e não à Frelimo, que não fez mal a ninguém”. A Renamo, nessa noite, não fez nenhum comunicado e até ao momento da publicação deste artigo, num dos jornais privados, a Renamo indicava que não estava à espera de “esquadrões da morte”.

O cerco à casa de Dhlakama e a volta ao mato

A 29 de Maio de 2015, na página do Presidente Dhlakama no Facebook, era publicada uma foto sua dos anos 1980 com a frase: “Irei morrer lutando por Moçambique.” A opção da savimbização tem sido falada quer por analistas quer pela própria Renamo, que justifica que o líder esteja “escondido”, afirmando que não existem condições de segurança e que temem o assassínio do seu líder pelas forças governamentais. Em Dezembro de 2015, Dhlakama anunciou que iria tomar o poder em Março nas seis províncias onde a Renamo ganhou as últimas eleições gerais. O prazo terminou. E agora?
E agora, por enquanto, Afonso Dhlakama continua no mato, onde voltou a “esconder-se” depois de emboscadas à sua comitiva e do cerco e invasão pela polícia à sua casa na cidade da Beira a 9 de Outubro de 2015. A morte de Jonas Savimbi e a “UNITA política” e a “UNITA do mato” têm levado a que se estabeleça uma comparação com Angola. É verdade que na Assembleia da República de Moçambique os deputados da Renamo continuam nas sessões, tal como os membros da Renamo nas Assembleias Provinciais. Alguns dizem que há duas “Renamos”, fazendo associações à UNITA nos anos 1990.
Não creio que haja evidências para tal afirmação. Existe realmente uma Renamo no mato e armada e existe a Renamo que continua nas instituições políticas. As comparações com Angola pecam por comparar realidades diferentes. Em primeiro lugar, há uma diferença demográfica. Em Angola, Luanda tem quase 50% da população do país. A realidade moçambicana é muito diferente: a maioria da população está no Norte e centro do país e não na capital. E a diferença mais importante é que, ao contrário da UNITA dos anos 1990, na Renamo não são conhecidos adversários internos a Dhlakama, como existiam em relação a Jonas Savimbi.

Os dois tipos de conflito – em Maputo e nas províncias

Há uma semana, a polícia fez rusgas, em Maputo, quer às casas de Dhlakama quer à sede da Renamo. Esta operação foi confirmada pela polícia, que chamou a comunicação social para mostrar as armas apreendidas. Pela primeira vez, o conflito das “armas/força” chegou à capital do país. Em Maputo, o conflito tem sido limitado aos debates parlamentares, que têm sido bastante inflamados, com cada parte a denunciar e a culpabilizar a outra. No entanto, a capital não tem sido teatro da parte real do conflito. Os tiros, as emboscadas, as colunas militares estão longe de Maputo, o que faz com que o “conflito” na capital se resuma a uma notícia na rádio, no jornal, na televisão. Já no centro e no Norte, o conflito entrou no dia-a-dia. Por exemplo, numa ida ao supermercado, onde as prateleiras têm cada menos produtos e os que existem estão cada vez mais caros, quando não há produtos, podemos ouvir justificações como “o camião ficou retido na coluna militar” ou, “com esta confusão, os bens do camião foram roubados”.
Esta semana tive de substituir um vidro partido e fui tentar comprar um. O senhor que ia substituí-lo levou-me à loja e, já sem surpresa, recebemos a resposta: “Com o conflito, o camião ainda não chegou.” A sair da loja disse-me: “Vamos aos chineses! Esses arriscam mais que os moçambicanos. E lá fomos e levámos o vidro! Segundo ele, não é o conflito que faz parar os chineses. A palavra “conflito”  é aplicada em muitas frases do nosso dia. Por vezes, substituímo-la por “situação”.
Estes “situação” e “conflito” passaram a ser parte do quotidiano. Se vemos mais militares, especula-se que se passa alguma coisa. Mas, ao mesmo tempo que se vive a “situação”, a vida segue com normalidade.

Tiros, refugiados, emboscadas? “Foi, não foi ou talvez”

Tiros? São tiros? Acordei a meio da noite em Quelimane com o que parecia serem tiros. O ruído de “tiros” durou uma hora e da janela vi os guardas das casas no meio da rua. Mal conseguia ouvir o que diziam, mas percebi o medo nas suas caras. Voltar a adormecer foi difícil. No dia seguinte, a explicação é que afinal seriam foguetes. “Foi, não foi ou talvez” tem sido a regra de informação. Muitos dos distritos onde têm acontecido mais incidentes ficam longe das capitais das províncias. A informação chega ou pelas forças governamentais a denunciarem emboscadas por parte da Renamo ou pela Renamo, que acusa as forças governamentais de raptos de líderes locais que são seus apoiantes.
O são-e-não-são também foi aplicado aos moçambicanos que fugiram para o Malawi. A agência de notícias Lusa e a televisão moçambicana foram ao Malawi e noticiaram a existência de campos de refugiados com moçambicanos. As Nações Unidas, o Governo do Malawi e organizações internacionais falavam de “refugiados” e de uma situação humanitária preocupante. O Governo de Moçambique primeiro negou, depois enviou uma delegação ministerial, e o ministro dos Negócios Estrangeiros confirmou tratar-se de moçambicanos a fugir da “tensão política”. A comunicação social deu voz a vários dos refugiados que diziam não querer voltar, porque temiam as próprias forças de segurança, alegando maus tratos por serem considerados apoiantes da Renamo. Ler +

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