quarta-feira, 20 de abril de 2016

"Se não está fácil a vida dos portugueses em Angola, não vai certamente melhorar"

Em entrevista, Luís Campos Ferreira, ex-secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, lembra que Angola foi "generosa" e merecia "saída digna"

Atualmente deputado do PSD, Campos Ferreira lamenta que o governo tenha metido "o nariz onde não era chamado", revelando " ingenuidade". Lembra que Angola foi "generosa" e merecia "saída digna".

Toda a situação em torno do BPI vai ter impacto nas relações diplomáticas e económicas entre Portugal e Angola?

Desejo que não. Mas, objetivamente falando, tendo em conta a personalidade de Isabel dos Santos e a importância que o Banco de Fomento de Angola tem naquele país, é difícil esperar que nada aconteça.

São de esperar retaliações?

Há três anos Angola acabou com as cimeiras bilaterais com o nosso país, que era um fórum muito importante para resolver problemas práticos nas relações entre os dois países. O Presidente angolano disse, nessa altura, que estava bem com todos os países, menos com Portugal. Não tinha havido nenhuma atitude ou medida da parte do governo português a desencadear essa decisão. Apenas a coincidência de estarem a ser noticiadas em Portugal investigações judiciais que envolviam altos quadros angolanos. Mas as retaliações mais complicadas começam mesmo no fundo da pirâmide. Podem simplesmente começar a dificultar a vida aos portugueses e às empresas que ali estão instalados. Se a vida deles já não está fácil, não vai, certamente, melhorar. Entramos numa espécie de pipeline da normalidade. Não haverá vantagem em ser português, em termos tido uma história comum, em termos uma língua comum.

O governo podia ter agido de outra forma, não aprovando o decreto-lei de desblindagem dos estatutos, tendo em conta a legislação europeia?

Não conheço totalmente o processo. Há muitas informações contraditórias. Se são regras europeias, Portugal tem que cumprir o que mandam os reguladores. Mas acho que, quando o próprio Presidente da República antes de promulgar o diploma tenta encontrar uma solução, é porque tem consciência que as relações com Angola podiam sair beliscadas.

E como avalia a intervenção do primeiro-ministro?

Fez bem em tentar resolver as coisas a bem. Angola merece isso. Lembro que, nem há meia dúzia de anos, era muito difícil a Portugal atrair investimentos e, nessa altura, foi Angola a apoiar-nos, ajudando-nos a criar algum músculo no sistema financeiro. Quem teve essa disponibilidade e generosidade merecia uma saída com dignidade. Acho muito natural que Isabel dos Santos não se conforme.

Vê motivos para não ser concedida idoneidade a Isabel dos Santos?

Isso é uma matéria sobre a qual entendo ser urgente um esclarecimento. Do Banco de Portugal (BdP) por exemplo. Há informações contraditórias, não se sabendo se foi ou não foi concedida. A confusão é grande e devia haver um esclarecimento. Angola é uma plataforma fundamental em África.

O que ainda pode ser feito para minimizar os "estragos"?

É muito complicado, até porque, apesar de se tratar de uma questão da banca, contagia as outras áreas. O meu conselho é que se tentasse criar uma espécie de perímetro em torno desta questão e fazer ver a Angola, por todos os meios diplomáticos possíveis, que continuamos a ser um parceiro a todos os outros níveis. O problema é que, apesar de bem intencionado, o governo perdeu grande parte (se não toda) a sua capacidade de intervenção diplomática quando meteu antes o nariz onde não era chamado. Se António Costa não tivesse entrado diretamente nos negócios teria mais espaço de manobra. Demonstrou um grande desconhecimento e ingenuidade.

Isabel dos Santos tem razão em acusar Portugal de beneficiar Espanha e o CaixaBank?

Por ironia do destino, os espanhóis estão na primeira linha de potenciais concorrentes de Portugal no território angolano. Diário de Notícias

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