domingo, 15 de maio de 2016

Entrar em Moçambique com os olhos postos na Europa

Após ter tentado os Estados Unidos, o BiG decidiu avançar para o mercado moçambicano

Quase 18 nos depois de Carlos Rodrigues ter criado o BiG, o pequeno grande banco português deu o primeiro salto além-fronteiras. Moçambique não foi a primeira escolha — já tinham tentado entrar nos Estados Unidos sem sucesso —, mas acabou por ser a que vingou.

Contudo, a expansão não fica por aqui. O BiG quer continuar o processo de internacionalização “algures para um país mais perto do centro da Europa”, disse o presidente do banco em conversa com o Expresso, em Maputo. Sem querer dizer onde, o próximo passo já está definido e serão mercados maiores do que Portugal.
Mas porquê começar por Moçambique? O pedido de uma licença bancária ocorreu em 2013 e agora, três anos depois, arrancam as operações numa altura em aquele país atravessa um período que, no mínimo, podemos classificar de complicado. Além dos confrontos armados, ou “conflito de baixa intensidade” como o Governo gosta de apelidar aos combates com a Renamo, que instalaram um clima de pré-guerra e dividiram literalmente o país em dois — é quase impossível circular sem escolta militar pela estrada que liga Maputo ao Norte do país —, a situação financeira complicou-se com os países doadores a ameaçarem cortar os apoios. Desde que foram descobertas despesas do Estado que estavam ocultas (cerca de 1,4 mil milhões de dólares), estes países, que são contribuintes líquidos do Orçamento, querem mudar a forma como financiam Moçambique. Ainda esta semana, os Estados Unidos, que colocam por ano cerca de 400 milhões de dólares e são o maior doador, fizeram saber que vão rever a assistência prestada ao Governo central.
Carlos Rodrigues explica que depois de abortada a entrada nos EUA, devido à situação financeira de Portugal, e excluída a hipótese de entrar em Espanha, encontrou, em 2012, em Moçambique um progresso enorme nas instituições e um sistema financeiro basicamente todo privatizado, com alguns bancos portugueses, que tinha atingido um bom nível de excelência. “Apercebi-me que Moçambique estava no bom caminho para que na parte financeira e na parte económica se possa desenvolver e criar boas oportunidades.”
O mercado africano vai ser nas próximas duas décadas uma das partes do mundo com crescimento mais rápido, defende o gestor, e, em África, Moçambique oferece um controlo e legislação do sistema financeiro que garante estabilidade e vai potenciar as oportunidades no sector energético, agrícola e turístico. “Não há enquadramento melhor para um banco estar”, afirma Carlos Rodrigues.
Mas porquê agora, em 2016? “Nas decisões de longo prazo temos de ter em conta se continua estruturalmente a ser verdade o que nos levou a vir para cá”, isso aliado a uma estrutura de capital e balanço que o BiG tem. Carlos Rodrigues diz que o “BiG não tem tendência para dar passos maiores do que as pernas”.
O sistema financeiro em Moçambique é bem regulado, com uma supervisão apertada e uma concorrência forte. Mas mesmo assim o líder do BiG defende que “há muitas oportunidades”. Além de um sector público enorme em Moçambique, e por isso um vasto leque de possíveis privatizações, existem recursos naturais que necessitam de financiamento para serem explorados. Mas esta área de negócios é uma aposta muito diferente daquela que foi feita no BiG em Portugal, que, porém, não assusta a gestão. “O problema é que eu já sou muito velho” e este modelo de negócio para Moçambique não é muito diferente daquele que Carlos Rodrigues implementou em Portugal quando nos anos 80 abriu a Chemical.
“Para cada cliente e contraparte vamos ter uma focalização enorme para arranjar soluções à medida, sejam institucionais ou particulares.” E é por aqui que o BiG Moçambique aposta que conseguirá singrar neste mercado. “A mesma fórmula que permitiu o sucesso do BiG”, afirma Carlos Rodrigues.
Mesmo assim fica sempre a dúvida pois esta é uma das economias mais pobres do mundo, envolvida num conflito armado e com uma ameaça de corte dos seus principais doadores. Perante a pergunta: “O que é sabe que nós não sabemos em relação a Moçambique?”, a resposta de Carlos Rodrigues é imediata: “Nada. Mas sei que temos os ingredientes humanos e as soluções que podemos apresentar que vão tornar esta operação um sucesso. Não há alternativa.”
E há oportunidades para rentabilizar rapidamente o investimento. A economia esteve até há muito pouco tempo controlada e com uma estabilidade cambial e um controlo de inflação que não é normal em África. Tem também um nível de taxas de juro de dois dígitos, o que permite pensar em margens financeiras possíveis superiores. Além de que em Moçambique é prática normal cobrar comissões de vendas de produtos e serviços. Se se juntar a isto a possibilidade de lucros em operações financeiras e de mercado, estão lançadas as bases para ter rapidamente uma operação rentável, defende Mário Bolota, administrador do BiG e um dos responsáveis diretos pela aposta neste mercado.
Além dos dois administradores portugueses que lideram o BiG Moçambique, Sérgio Magalhães e Joel Rodrigues, o cargo de presidente do conselho de administração é ocupado por Salvador Namburete, ex-ministro da Energia de Moçambique. Sobre a atual situação do país, acredita que irá melhorar “muito mais cedo do que se possa imaginar”, isto porque Moçambique “já viu pior e com muito menos recursos”. Além de que não acredita que os doadores deitem foram mais de 35 anos de “relacionamento bastante positivo com Moçambique” e por isso está confiante que se chegue a um “acordo que acabará por ser benéfico” já que deverão ser introduzidas medidas que garantam mais a transparência. Namburete acredita que, apesar dos grandes desenvolvimentos do sector energético nos últimos 10 anos, existe ainda muita coisa a fazer. Por isso, este será uma das áreas que receberá a grande parte do investimento, quer seja hidroelétrico quer no gás ou no carvão. Mas as oportunidades não ficam por aqui. Agricultura e turismo são outras das grandes apostas. Sectores que até podem beneficiar da atual crise com os doadores, já que é muito possível que estes deixem de financiar diretamente o Orçamento do Governo de Moçambique para apoiarem projetos individuais. Se isso acontecer, abre-se uma nova porta para a entrada de mais empresas estrangeiras. Expresso

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