sábado, 14 de maio de 2016

Financiamento chinês a Moçambique: a outra face da moeda

Empresariado moçambicano excluído de projetos públicos com empréstimo chinês, dificultando desenvolvimento da economia. Economista Eduardo Sengo defende que está na hora de Maputo reverter o cenário junto de Pequim. 

A cimeira Sino-África de 2005 foi o marco de uma nova era nas relações entre as duas partes. Baseada nas relações económicas, no caso de Moçambique que tiveram o seu marco no começo da década, elas permitiram um aumento do investimento público. Milhares de milhões de dólares foram disponibilizados a Moçambique desde então, aplicados nas mais diversas áreas.
Eduardo Sengo é economista moçambicano e diz que "maioritariamente os empréstimos da China não são comerciais, estão entre os concessionais e os moderadamente comerciais. De forma geral, são empréstimos acessíveis. Uma boa parte do financiamento ajudou-nos a melhorar um pouco o défice das infrastruturas, é um marco."

Ministérios, centros de pesquisa e de ensino, estradas e pontes são apenas alguns dos visíveis exemplos que se podem verificar por todo o país. Mas na construção de estradas, por exemplo, carros com matrículas chinesas e trabalhadores chineses também estão presentes. À boca pequena diz-se que até os pregos utilizados nas obras também vêm da China.

Tag aid deixa empresariado local de fora

Este tipo de financiamento, em que a maior parte do empréstimo não sai da China, não permite o desenvolvimento da indústria e do empresariado moçambicano. O economista considera que "este financiamento chinês não veio empoderar os recursos que foram canalizados pela comunidade empresarial. O que aconteceu é que as insfraestruturas em si são um benefício para as empresas existentes. Mas em termos do que chamamos conteúdo local nos seus projetos [a participação] tem sido pouca."

Entretanto, esta tendência não se regista apenas com o investimento chinês. O economista lembra que o mesmo acontece com o norte-americano, por exemplo, embora "não tão descarado como o chinês".
O analista e jornalista moçambicano Ericino de Salema também recorda esta tendência e explica que "isso tem a ver com o que se designa de ajuda ligada, tag aid em Inglês. Se são fundos chineses, japoneses ou portugueses há-de ser uma empresa proveniente desses países a ganhar a obra" e finaliza: "Quanto a isso acho que é uma questão um pouco explicada pela indústria do desenvolvimento."

Governo moçambicano deve negociar com Pequim

Caso a indústria moçambicana continue a ser excluída deste processo, principalmente neste momento em que a economia está em crise, e por isso necessitada de potenciamento do seu empresariado, quais seriam as consequências? Eduardo Sengo responde: "Acho que a ajuda da China não pode continuar da mesma forma, porque não vai trazer benefícios no empoderamento do empresariado local, muito pelo contrário, vai aguçar o défice da balança de pagamento."
O economista cita algumas boas práticas: "Poderemos levar [a cabo] projetos em áreas onde possamos reduzir o problema que se vive atualmente. Hoje temos dificuldades em fazer pagamentos para o exterior. Um projeto que venha a esta altura e que faça importações não vai ajudar em nada, porque vai aguçar esta pressão cambial. Mas um projeto de agro-processamento, por exemplo, pode ajudar a resolver esta pressão cambial. Vai aumentar a endogenização da economia, a doméstica, ela vai crescer."

Filipe Nyusi busca apoio financeiro na China?

Moçambique vive uma crise financeira sem precedentes devido principalmente a empréstimos pouco transparentes feitos pelo Governo, avaliados em cerca de 1,4 biliões de dólares para negócios não claros. Os tradicionais doadores do país, do Ocidente, já começaram a fechar os cordões à bolsa e outros congelaram as ajudas. E justamente neste momento o Presidente do país, Filipe Nyusi, inicia uma visita a China, no dia 16 de maio.
Eduardo Sengo lembra que a visita já estava programada desde o início deste ano, mas assume que a China pode ser parte da solução do atual problema: "Dada a situação atual imagino que não se possa descurar a hipótese de se procurar outras janelas de financiamento, dada a necessidade urgente que o país tem de recursos financeiros para continuar a crescer, a potenciar alguns projetos que poderão ser cancelados."

No Fórum de Cooperação China-África, que aconteceu em finais de 2015 na África do Sul, a China anunciou a concessão de 60 mil milhões de dólares em assistência e empréstimos aos países africanos. Isso inclui cinco mil milhões em empréstimos isentos de juros e 35 mil milhões para empréstimos concessionais e crédito à exportação, com condições preferenciais.
Quatro países, entre eles Moçambique, foram considerados pelo gigante asiático como parceiros estratégicos. Ainda em junho de 2015, a China anunciou uma verba de 5 mil milhões de dólares para investimentos chineses no país, durante os próximos anos. Deutsche Welle

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