segunda-feira, 9 de maio de 2016

Rápidos no gatilho: forças de segurança brasileiras mostram verdadeiro rosto

Poucos irão ouvir falar de como é a vida em muitas das 600 favelas do Rio de Janeiro enquanto os maiores atletas do mundo vão estar a correr, a saltar e a nadar rumo à glória das medalhas nos Jogos Olímpicos. Naomi Westland, da Amnistia Internacional no Reino Unido, conta como é a realidade das favelas da Cidade Maravilhosa

O táxi segue, desde o Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, ao longo de uma enorme favela, onde casas de blocos de cimento e cor de ferrugem se alinham umas contra as outras em ruelas estreitas, com tanques de água de plástico azul empoleirados nos telhados, e a roupa estendida balança com a brisa sob telheiros de zinco que a protege das frequentes cargas de chuva que transformam as ruas da cidade em rios de águas rápidas.
Crianças entram e saem a correr de dentro das casas e aves vasculham o lixo empilhado junto às margens de um rio. Do rádio de um carro ouvem-se baladas dos anos 1980. Os primeiros acordes de piano de True Colours, de Cyndi Lauper, enchem o ar pesado e com cheiro a fumo. Passada uma curva e no topo de uma colina avista-se o Cristo Redentor - a estátua icónica de Jesus Cristo de braços abertos e esticados sobre a cidade.
Dentro de menos de cem dias, o Rio de Janeiro vai ser a primeira cidade da América do Sul a acolher o maior espetáculo do mundo: os Jogos Olímpicos, com dez mil atletas a participarem em 28 desportos e a custar milhões de milhões de dólares. É um evento que se norteia pela promoção da paz; porém, a sua chegada à cidade está numa rota que leva exatamente ao contrário. Milhares de visitantes vão fazer a viagem do aeroporto até à cidade - conhecida como Cidade Maravilhosa devido às suas praias de cartão postal e ao cenário das suas montanhas verdejantes - mas poucos irão ouvir falar de como é a vida em muitas das 600 favelas do Rio de Janeiro enquanto os maiores atletas do mundo vão estar a correr, a saltar e a nadar rumo à glória das medalhas.
O Brasil tem o mais alto registo de homicídios do mundo, em números absolutos. Em 2014 - o ano em que o país foi anfitrião do Mundial de Futebol - foram mortas pelo menos 60 mil pessoas. De forma chocante, milhares dessas mortes foram causadas por quem tem como dever proteger a população. Só no estado do Rio de Janeiro, a polícia matou 580 pessoas naquele ano, o que se traduz num aumento de 40% em relação aos 12 meses anteriores.
E em 2015 esse número foi ainda maior: 645 mortes por ação policial. Destas, 307 ocorreram só na cidade do Rio de Janeiro, o que representa quase 20% do número total de homicídios ali registados. A maioria das vítimas de mortes por ação policial são jovens negros que vivem nas favelas ou em outras comunidades pobres.
Até agora, em 2016, as mortes às mãos da polícia brasileira são já 10% mais do que no período análogo do ano anterior.
Com as operações de segurança para os Jogos Olímpicos a arrancarem, sem as necessárias salvaguardas aqueles números podem aumentar ainda mais. Entretanto, a mobilização maciça da polícia e da polícia militar, até mesmo do Exército, para as ruas evoca em muitos brasileiros a memória angustiante dos negros dias de ditadura no país.
O complexo de favelas Maré, próximo do aeroporto do Rio de Janeiro, parece à primeira vista um bairro pobre de uma qualquer cidade latino-americana. Edifícios meio arruinados disputam o espaço entre si, ladeados por bancas de rua onde se vendem bananas, papaias, ovos e camisolas de futebol de contrafação a preços de pechincha. Teias de cabos aéreos cruzam as ruas, ligando de forma precária as habitações à mais próxima e sobrecarregada rede de fornecimento de energia elétrica. Adolescentes passam de bicicleta, camionetas espremem-se pelas ruas apertadas e cheias de buracos, carregados com entregas para as mercearias e para os cafés, e música de dança soa em altos berros através de uma janela aberta.
Mas uma observação mais minuciosa revela algo que torna este local assustadoramente diferente. Em praticamente todas as esquinas da enorme favela - onde vivem 140 mil pessoas - há um adolescente sentado numa cadeira de plástico com uma pistola na mão ou uma metralhadora no colo, a "proteger" o naco de território do gangue a que pertence. Adolescentes com armas de fogo é algo tão comum que os locais raramente olham duas vezes. O ambiente pode ser extremamente tenso. E, com demasiada frequência, o estertor staccato dos tiros enche o ar dando uma mortal banda sonora à vida na favela. Ler+

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