quinta-feira, 16 de junho de 2016

"Acredito que a situação seja mais grave do que a Vale quer demonstrar", afirma economista

Depois de suspender o transporte de carvão na linha férrea de Sena, em Moçambique, a brasileira Vale garante que não há qualquer impacto na produção. O economista Orlando da Conceição afirma que isso "é difícil". 

Em Moçambique, a empresa mineira Vale interrompeu no dia 8 de junho o escoamento de carvão mineral devido aos ataques de homens armados contra as suas locomotivas.
Na sequência disso, a multinacional fez saber que, até agora, não há quaisquer impactos negativos na produção ou nas exportações.
A DW África entrevistou o economista Orlando da Conceição sobre as consequências de uma possível retirada das mineradoras do país por causa dos ataques armados. Uma situação que pode colocar Moçambique numa situação "ainda mais debilitada".

DW África: Desde 8 de junho que a Vale suspendeu temporariamente o transporte de carvão por causa dos ataques aos seus comboios. A empresa diz que isso não traz impactos ou não trouxe até agora. É possível que isso aconteça, uma vez que, por exemplo, existem trabalhadores pagos e que não estão a produzir e que há compromissos com clientes? É possível que uma empresa pare a sua produção e não tenha prejuízos?

Orlando da Conceição (OC): É um bocadinho difícil dar-lhe uma resposta concreta, mas digo-lhe por alto que as empresas têm uma política de comunicação e de marketing e têm de manter a imagem de serem empresas rentáveis. E aí tudo se justifica, até dizer que essas questões não afetam. Mas é um bocado difícil, até porque, primeiro, o preço do carvão está baixo; depois, ao não escoar esse carvão e tê-lo nas suas reservas, tendo só despesas, torna-se difícil que esta situação não afete. Eu acredito que a situação seja muito mais grave do aquilo que a Vale está a tentar demonstrar.

DW África: Caso os confrontos levem a Vale a suspender as suas atividades em Moçambique, quais seriam as consequências para o país, principalmente?

OC: A primeira consequência, de entre várias, é que isso enviaria um sinal muito negativo para o mundo, sendo a Vale uma multinacional. Seria um sinal muito negativo para Moçambique como destino para o investimento direto estrangeiro. A Vale apostou no país, que tem um enorme potencial nesta área do carvão. Foram enormes investimentos e, ao retirar-se de Moçambique, enviaria esse sinal e não era nada bom.
Depois, temos a questão neste momento de que o país está a enfrentar algumas dificuldades nas suas relações com os parceiros internacionais, de cooperação, e isso implicaria perdas enormes nas receitas fiscais. Essa seria a segunda grande consequência que eu posso indicar.
Temos ainda a questão social, que também tem impacto na economia. O desemprego, que tem consequências não só económicas, como também sociais, diretas e indiretas. A Vale também tinha alguns programas de responsabilidade social, em implementação e em carteira, que, obviamente, serão suspensos.
A última consequência é que a Vale beneficiava de vários serviços, a nível [da província] de Tete. Tenho conhecimento de pessoas que investiram à medida da Vale, para prestarem serviços à Vale. São pessoas que não vão poder recuperar os seus investimentos, perdem de forma direta os rendimentos que tinham em relação com a Vale e nem sequer terão forma de recuperar o investimento que foi feito para servir. Estou a falar de empresas da área de catering, hotelaria, rent-a-car e por aí fora.

DW África: Numa altura em que o preço do carvão está em baixa no mercado internacional, a questão das infrestruturas ainda não está completamente resolvida. Com esta crise política, há um risco de as mineradoras, de uma maneira geral, abandonarem o país?

OC: É um motivo, sim, e eu acredito que essa decisão foi adiada. Podia ter sido tomada há mais algum tempo, mas acho que as empresas foram adiando. Mas agora chegou-se a uma situação em que não há outra opção se não abandonarem. Aliado, naturalmente, a outros, mas este é o principal motivo.

DW África: Recentemente, um alto gestor da Vale esteve em Maputo. Acha que a crise financeira e económica que Moçambique vive pode colocar o país numa posição frágil e de ter de fazer alguma cedência às multinacionais?

OC: Eu acredito que sim. Principalmente porque, como disse, Moçambique estar numa situação muito frágil. Ao nível das receitas fiscais, nós precisamos de investimento direto estrangeiro, atrair mais e manter o que já está aqui. Não nos podemos dar ao luxo de perder uma empresa do nível da Vale; já perdemos a Rio Tinto, que é verdade que vendeu os seus ativos a uma outra empresa que continua a operar aqui, mas não nos podemos dar ao luxo de perder a Vale. Então, nós teremos de fazer cedências e eu tenho receio que sejam cedências que, depois, nos vão deixar numa situação ainda mais debilitada. Já há um debate interno sobre as modalidades em que os contratos para os mega projetos foram assinados. Eu tenho receio que sejam condições muito mais desfavoráveis para Moçambique. Deutsche Welle

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