terça-feira, 7 de junho de 2016

Analista angolano defende nomeação de Isabel dos Santos para presidir à Sonangol

O sociólogo angolano João Paulo Ganga considera que a nomeação do novo Conselho de Administração da Sonangol, liderado por Isabel dos Santos, constitui uma medida de coragem do presidente da República, José Eduardo dos Santos, e uma estratégia de defesa do interesse nacional face a interesses portugueses.

Luanda - O sociólogo angolano João Paulo Ganga considera que a nomeação do novo Conselho de Administração da Sonangol, liderado por Isabel dos Santos, constitui uma medida de coragem do presidente da República, José Eduardo dos Santos, e uma estratégia de defesa do interesse nacional face a interesses portugueses.
Ao analisar, domingo, os principais temas da semana, no debate da TV Zimbo, Ganga afirmou que Angola precisa de veículos financeiros no exterior e empresas transnacionais que gerem dinheiro, daí considerar acertada a decisão do Chefe de Estado.
"Há uma animosidade muito grande, mas penso que o Presidente esteve bem, porque a nomeação da Isabel dos Santos, neste momento, significa a defesa do interesse nacional", vincou.
João Paulo Ganga, cujo antagonista de debate foi o analista Gildo José, afirmou que o Titular do Poder Executivo viu-se "forçado" a nomear a filha para essas funções, pelo facto de "o Governo Português ter desblindado os estatutos do BPI".
Referiu que a decisão do Chefe de Estado está longe de ser considerada nepotismo e sublinhou que a mesma (nomeação) foi uma "reacção aquilo que aconteceu em Portugal".
"Neste momento, os veículos financeiros que Angola tem em Portugal, sejam da SONANGOL EP., sejam da empresária Isabel dos Santos, estão a ser colocados em causa e isto vai afectar a estabilidade do nosso país", expressou.
A seu ver, o Presidente da República percebeu que era melhor, por questão de defesa do interesse nacional, jogar o melhor trunfo: a filha.
Para si, o nepotismo não é uma prática que deve ser defendida em Angola, mas esse fenómeno é transversal e já ocorreu com dirigentes de vários partidos políticos, como a UNITA e a FNLA, no passado, e em todas as instituições do país essa prática tem sido uma realidade.
"Temos que nos adaptar à realidade do nosso país. Não é a Lei que vai mudar isso. Devíamos ter leis, porque o nepotismo em Angola não é crime, em que as pessoas tivessem um limite de nomeação de parentes", comentou.
Do seu ponto de vista, é normal as nomeações serem de confiança política, daí que as críticas sobre eventuais violações à Lei da Probidade Pública sejam infundadas, porque decorrem de uma acção no seio do funcionalismo público.
"O caso da Isabel dos Santos não é de improbidade pública, porque ela foi nomeada como PCA de uma empresa pública, mas isso não a torna funcionária pública. Os actos dela não devem ser decorrentes de improbidade", acrescentou.
Todavia, João Paulo Ganga entende que Isabel dos Santos deve ir ao Parlamento angolano para aclarar se há promiscuidade entre interesses públicos e privados, para aferir onde começa a gestão da Sonangol e se a mesma já renunciou os cargos de gestão noutra empresa.
"Temos que evitar a diabolização das pessoas. Estamos a tentar analisar um problema tão sério como este através da diabolização, de que o Presidente quer enriquecer a filha e ficar com o dinheiro público. Devemos ter alguma serenidade. Nesse momento, os interesses de Isabel dos Santos coincidem com o interesse nacional", disse.
Acrescentou que neste momento o interesse público de Angola passa por reforçar a participação da Sonangol no BCP, em Portugal, criar condições para ter outros veículos financeiros e económicos lá fora, para se criar estabilidade no país.
Por sua vez, Gildo Matias José corroborou a opinião e disse ser normal a decisão do Chefe de Estado de apostar na filha para relançar a Sonangol EP.
Fundamentou que a decisão de escolher um PCA é uma opção política que não requer concurso público, daí reafirmar que falar em probidade é incorrecto.
"A questão de ser a filha do Presidente pode levantar questões de natureza ética e filosófica, mas o Presidente apenas teve a preocupação de defender o interesse público e da maior empresa do país. Ela já deu provas de que tem competências", disse.
A respeito da competência, João Paulo Ganga concordou que a empresária tenha vasta experiência no sector privado, mas em relação ao sector público dá-lhe o benefício da dúvida.
Entende que Isabel dos Santos não deve ser condenada por ser filha do Chefe de Estado, mas tem de provar trabalho para ajudar a resolver os problemas da empresa.
Sugeriu que a empresária crie, na sua gestão, delimitações entre o que é público e o que é privado. Afirmou que a presença da Isabel dos Santos no cargo exige seriedade, porquanto está em conta o nome da família presidencial, que considera ter perdido alguma popularidade.
"As pessoas estão de alguma forma saturadas. Esta nomeação é uma oportunidade de demonstração que este mecanismo de diabolização não tem razão de ser. Ela tem o benefício da dúvida e deve provar, defendendo o emprego. É uma janela de oportunidade. Se não aproveitar, o grau de impopularidade vai crescer. As pessoas querem resultados", realçou.
O Conselho de Administração da SONANGOL EP., liderado por Isabel dos Santos, foi nomeado nos termos da Constituição e na sequência da aprovação do novo modelo de organização da gestão do Sector dos Petróleos.
No seu primeiro comunicado após a nomeação, a nova Presidente do Conselho de Administração salientou que "a preocupação com a redução de custos, bem como o aumento dos lucros e da competitividade são hoje prioridades estratégicas obrigatórias".
Todavia, disse que alcançar os resultados pretendidos é uma tarefa difícil e complexa, pois a SONANGOL EP. enfrenta esta conjuntura e toma a iniciativa de encarar a mudança e marcar uma nova era".
Adiantou que a nova equipa terá como principal objectivo a implementação do novo modelo para o sector petrolífero angolano e a execução de um Programa de Transformação, que terá como foco diminuir os custos de produção e optimizar os recursos, tendo em vista aumentar a competitividade internacional do sector petrolífero angolano.
Disse esperar que venha a aumentar a rentabilidade da empresa e os dividendos para o accionista Estado; assim como assegurar a transparência na gestão e a aplicação de standards internacionais de reporte e de governação.
Isabel dos Santos foi nomeada Presidente do Conselho de Administração da Sanangol, não executivo, em Decreto Presidencial publicado em Luanda na última quinta-feira, 2 de Junho.
A nomeação surge, de acordo com uma nota de imprensa da Casa Civil do Presidente da República, distribuída nesse dia, na sequência da aprovação do novo modelo de organização da gestão do sector dos petróleos.
O novo modelo organizacional reserva à Sonangol, concessionária nacional, a responsabilidade da gestão e monitorização dos contratos petrolíferos.
Na mesma altura, foram nomeadas outras entidades para o novo Conselho de Administração da Sonangol, com destaque para o presidente da Comissão Executiva da empresa, Paulino Fernando de Carvalho Gerónimo.
Além de Isabel dos Santos e Paulino Fernando de Carvalho Gerónimo, o novo Conselho de Administração da Sonangol integra mais seis administradores executivos e três não executivos. África 21

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