terça-feira, 21 de junho de 2016

Isabel dos Santos a Presidente? "Tudo é possível"

Marcolino Moco diz que se perdeu "toda a vergonha no país". Segundo o ex-primeiro-ministro angolano, numa república transformada em "monarquia", a filha do chefe de Estado teria boas hipóteses de ascender à Presidência. 

Grão a grão, Isabel dos Santos, a filha do Presidente de Angola, assume a dianteira de instituições estratégicas no país.
A 2 de junho, a mulher mais rica de África foi nomeada pelo pai, José Eduardo dos Santos, como presidente da petrolífera estatal Sonangol. E em breve, poderá integrar o Comité Central do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), para em seguida ser colocada no Bureau Político do partido no poder, de acordo com uma fonte partidária ouvida pelo jornal português Expresso. Aparentemente, o objetivo seria colocar Isabel dos Santos como segunda figura na lista de deputados e, em 2018, como substituta do pai na Presidência da República.
A DW África falou com o ex-primeiro-ministro angolano e antigo secretário-geral do MPLA, Marcolino Moco, que não se mostrou surpreendido com estas movimentações em Angola.

DW África: Isabel dos Santos tem estatura presidencial?

Marcolino Moco (MM): Em Angola, é capaz de ter. Perdeu-se toda a vergonha no país. Perdeu-se todo o sentido de seriedade. Mas isso era previsível particularmente desde que José Eduardo dos Santos fez a Constituição de 2010, aprovada da forma mais estranha, perante a estupefação de todos - já se previa que o objetivo era tomar conta do país e de todas as instituições, primeiro do próprio partido e depois da comunicação social, telecomunicações, de tudo. Agora, tudo é possível. Aliás, esta revolução de José Eduardo [dos Santos] começou em 1998, quando eu, Lopo do Nascimento, França Van-Dúnem e outros elementos capazes de contrariar o Presidente fomos afastados da direção do partido, sem se saber como. Foi a partir daí que o Presidente criou todas as condições para poder fazer tudo o que tem feito até hoje.

DW África: O MPLA é um partido grande e multifacetado: aceitaria uma sucessão "dinástica"?

MM: A prática de José Eduardo dos Santos dos últimos tempos ensina-nos que ele não precisa de consensos - ele impõe e todos se acobardam. Por medos ou receios de perderem o seu status acabam por aceitar. E como a comunicação social está nas mãos do Presidente e dos seus filhos, aparecem então comentadores, como apareceram agora a seguir à nomeação estranha da filha para presidente da Sonangol, a dizer que isso está certo, que não há mais ninguém, um pouco à semelhança do que se passa hoje na Coreia do Norte.

DW África: Uma Presidente Isabel dos Santos poderia reunir o consenso dos angolanos ou isso causaria revolta?

MM: A resposta é a mesma. Infelizmente, nunca se deixou ao povo de Angola a oportunidade de viver em democracia. A população está atemorizada - está revoltada por dentro mas não tem lideranças ética e moralmente capazes de a orientar. Mas pode haver surpresas, porque o que José Eduardo dos Santos está a fazer hoje é um abuso do poder que um dia vai ter as suas consequências.

DW África: Dito tudo isto, o que falta para Angola poder ser considerada uma monarquia absolutista?

MM: Eu já escrevi que Angola é há algum tempo uma monarquia absolutista, com cara de república. O meu último livro, "Angola - Estado-nação Ou Estado-etnia Política?", que está agora a sair à venda, fala sobre isso. Aliás, não sou o primeiro a utilizar esse termo em relação à situação - que piorou. Por isso é que dei o nome de "monarquia" ao regime de José Eduardo dos Santos. Deutsche Welle

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