quarta-feira, 6 de julho de 2016

“A existência de uma sociedade em que poucos têm muito e muitos têm quase nada leva à conflitos, leva à violência”, Severino Ngoenha

“Não pode existir uma comunidade, não pode existir uma Nação, não pode existir um País se os bens que esse País produz, se os bens que esse País tem não são partilhados por todos. A não partilha de bens, quer dizer a existência de uma sociedade desigual, a existência de uma sociedade em que poucos têm muito e muitos têm quase nada leva necessariamente à conflitos, leva necessariamente à violência”, desta forma começou por retratar a nossa situação política, económica e social o Professor Doutor Severino Nhgoenha na conferência Pensar Moçambique, organizada pelo Parlamento Juvenil(PJ), e desafiou as centenas de jovens presentes a “remoralizar o País”.

Falando na abertura da 6ª conferência “Pensar Moçambique” o Magnífico Reitor da Universidade Técnica de Moçambique (UDM) começou por desafiar os jovens moçambicanos, citando o filósofo Frantz Fanon, que “cada geração tem uma missão a realizar, ela pode realiza-la ou traí-la”.

Depois Ngoenha disse que na juventude moderna há tendência de existirem dois extremos “problemáticos” os conformistas e os criticistas. “Considero conformismo aquele grupo de pessoas, ou de jovens, que se engajam na vida política, na vida social, na vida académica simplesmente para obter do posicionamento que a pertença a um desses grupos lhe dá mordomias, posicionamento, visibilidade. Considero conformismo aqueles que não entram em partidos ou em grupos de reflexão para trazer ideias e participar na modificação radical da situação do nosso País mas que entram para fazer uma espécie de carreira política. Seria bom que nos partidos políticos, parlamentares e extra-parlamentares, entrassem muitos jovens, seria bom que se dividissem entre esses partidos todos. Mas a importância da entrada deles nesses partidos seria para mim porque eles trairiam um ar novo, novas ideias, trariam novo posicionamentos. Modificariam a maneira de pensar no interior dos grupos políticos, sociais do País que é o nosso, este nosso Moçambique”.
Contudo o Professor declarou que constata “que a maior parte daqueles aderem e entram a pertencer as forças políticas, aos organismos sociais são mais motivados por uma carreira pessoal que por um interesse ligado ao bem comum. Comportando-se desta maneira eles não agem procurando descobrir qual é o seu lugal, a sua missão, não participam em transformar e a melhorar o País que é o nosso mas conformam-se com os problemas com que estamos confrontados e têm levado paulatinamente o País ao afundamento, a uma crise primeiro moral. Quer o lado da corrupção, quer o lado da guerra são essencialmente reveladores de uma crise moral com que o nosso País está confrontado. Conformar-se significa pautar-se por um conformismo não só a nível político, económico mas também, e sobretudo, a nível moral”.

 “Como jovens, o questionamento fundamental é o que nós podemos fazer”

Sobre o outro grupo de jovens, “aqueles que se reúnem em grupos, que se reúnem fora das instituições e que pautam constantemente e necessariamente sobre aquilo que vai mal. Para criticar este partido, criticar aquele partido, criticar o Parlamento ou os parlamentares, para se oporem às decisões tomadas, que até podem ter um posicionamento crítico justo mas tudo o que eles trazem como cntribuição é dizer o que não está bem, é criticar, é dizer o que está mal, mas não participam nem com ideias nem trazem nenhum contribuição em termos de perspectivas daquilo que Moçambique deveria ser, limitam-se simplesmente a mostrar a cara dizendo as coisas que não vão”.
O Reitor da UDM socorreu-se de outro filósofo, o romano Séneca, para sugerir que os jovens devem é reivindicar os seus direitos sobre si mesmos. “Me parece que não ser conformista e não ser criticista significa sentir-se responsável por aquilo que eu faço, pelo meu posicionamento, pelo meu estar na sociedade que é a minha sem contentar-me, nem do extremo do conformismo mas também não se limitar a um posicionamento crítico”.
“Trata-se para nós de perguntar-nos, não tanto aquilo que esperamos que as gerações passadas tenha feito para nós, não aquilo que Moçambique nos pode pode dar mas, como jovens, o questionamento fundamental é o que nós podemos fazer. Talvez não para que Moçambique seja melhor mas para que Moçambique do futuro seja menos pior do que aquele que nós recebemos como legado e que vivemos na situação em que nós estamos” clarificou o Severino Ngoenha.

                       “Os conflitos numa sociedade são necessários e são salutares”

O Professor universitário procurou orientar os jovens, que lotaram a conferência que teve lugar em Maputo, para não desperdiçarem a ocasião para elencar os problemas que Moçambique tem, “temos muitos problemas, problemas graves que todos conhecem (…) Este é o País que nós temos, este é o legado que nós temos de outras gerações, esta é a nossa situação. Pensar Moçambique significa, em minha opinião, partir do que é, daquilo que temos em frente e podermos interrogar, pensar, como é que a partir do que é temos que construir o que deve ser, aquilo que pode ser, sem utopias mas com realismo”.
“O ponto de partida são as catástrofes que nós vivemos no quotidiano, temos que nos interrogar como e porque chegamos a situação que nós estamos e existem uma série de porquês. Existem em primeiro lugar para a situação actual de Moçambique razões endógenas e razões exógenas. Existem razões que são intríssecamente moçambicanas e existem razões das quais não nos podiam defender e que tem a ver com poder, com forças que são exteriores e que incidem pela força que tem na situação que vivemos no quotidiano. Existem razões históricas, que podemos dividir em duas partes: as longínquas e as mais próximas de nós. Existem a s razões do presente. Séneca que eu citei dizia um Homem sábio não é aquele que ocupa a vida dele a pensar nas coisas que não pode modificar, mas que se prontifica e luta para tentar pensar e agir sobre aquilo que depende dele” explicou Ngoenha.
Na óptica do Reitor da Universidade Técnica de Moçambique a questão dos conflitos não é a mais importante, “os conflitos numa sociedade são necessários e são salutares porque eles marcam e demonstram as diferenças na compreensão da vida social (…) Nós pautamos desde a muitos anos, logo após a independência, por razões geopolíticas até regionais da guerra fria, por uma solução militar. Matamo-nos, aumentamos a fome, destruímos a sociedade, destruímos comunidades, criamos situações de desconfiança entre todos nós. Parece-me que a juventude tem que incidir não no conformismo do primeiro grupo que elenquei mas tem que pensar que existem outras estradas para percorrer, não para eliminar as diferenças e a contraposição de ideias (que é salutar), mas para eliminar a maneira como as nossas diferenças e os nossos contrastes encontram uma solução no interior das nossas sociedades”. 

“A violência não começa com a violência das armas”

“Em todas sociedades do mundo existem diferenças, existe contraposição de ideias, mas nós podemos pautar na solução destes contrastes por uma dimensão da palavra, do diálogo, da discussão como podemos pautar por uma dimensão da confrontação, do conflito e até das armas. Infelizmente Moçambique tem pautado pela segunda dimensão” lamentou o académico que chamou atenção para “A contraposição dos meios que mobilizamos para a guerra é despropocionadamente superior a aquilo que mobilizamos para a paz, e no entanto continuamos a dizer que a paz é mais importante que a guerra. Quer dizer o que nós mobilizamos para parar com o conflito não tem proporção com aquilo que mobilizamos para a guerra. O filósofo Kant dizia que a guerra cria mais malvados que aqueles que ela elimina”.
Por isso o Severino Ngoenha aponta a tolerância como solução, “é o único conceito que não tem um único antónimo mas tem dois, a intolerância e a indiferença” e por isso o Professor teve o cuidado de explicar claramente o que é ser tolerante. Ler +

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