quarta-feira, 6 de julho de 2016

Isabel dos Santos foi "acabar com a festa" na Sonangol?

Isabel dos Santos assumiu liderança da Sonangol com objetivo de fazer "limpeza" na "manjedoura"? Questão que se coloca quando a Sonangol mergulha no ambiente de desconfiança e centralização de poderes, segundo Rui Verde. 

Segundo um artigo do jurista Rui Verde, publicado no site Maka Angola, está instalada a desconfiança na petrolífera Sonangol. Isabel dos Santos terá entrado com uma postura hostil e com isso um mau clima entre a velha e nova administração instalado.
E uma deliberação da empresa de finais de junho impõe novas medidas que consubstânciam essas suspeitas, por exemplo a dispensar todos os advogados da empresa que estivessem a acompanhar, defender ou atacar em tribunais ou a revogar todas as procurações e representações dadas a gestores e funcionários para assinar cheques ou fazer transferências.
Face a nova forma de operar é caso para se deduzir que Isabel dos Santos foi nomeada para Presidente do Conselho de Administração pelo seu pai com o objetivo de "acabar com a festa" da anterior administração?
O jurista Rui Verde responde: "Bom, se havia festa ela entrou com o objetivo, certamente, de acabar com tudo o que a anterior administração estava a fazer. Foi assim uma espécie de tomada de um castelo inimigo, a atitude dela."

Revolução contra-producente

Por seu lado, o economista angolano Fernando Heitor recorda que esta é uma prática muito comum nas instituições públicas do país. E ela assume duas vias: a da revolução e da reforma. Para o economista a filha do Presidente José Eduardo dos Santos optou pela primeira, o que a seu ver é contra-producente.
Heitor cita as consequências ao nível dos recursos humanos, defendendo que "é preciso que se salvaguardem os direitos dos trabalhadores. Acho que os trabalhadores visados devem estar atentos, têm de recorrer as instâncias de direito para protegerem os seus próprios direitos."

No referido artigo, Rui Verde considera anormal uma demissão coletiva dos juristas, sem avaliar caso por caso. Para ele esse tipo de ações só tem lugar quando há desconfiança em relação a tudo e todos.
De lembrar que durante cerca de 12 anos a Sonangol foi liderada por Manuel Vicente, homem de confiança de José Eduardo dos Santos, que só abandonou o cargo em 2012 para ocupar a vice-presidência de Angola, onde está até hoje. Desde então, Francisco de Lemos José Maria dirigiu a empresa até junho de 2016, quando foi exonerado para dar lugar a Isabel dos Santos, filha do Presidente José Eduardo dos Santos.

É caso para se questionar se o Presidente angolano não confia mais nos altos quadros angolanos para dirigir os bens maiores do país? Rui Verde diz que " é claro, que ele está a concentrar na família os bens maiores de Angola, ou está a filha ou está o filho. Porque todos os bens importantes, desde o Fundo Soberano, os petróleos, o desenvolvimento da cidade de Luanda são só os filhos. Isso revela a desconfiança ou uma mera centralização absoluta do poder, não sei bem. Mas se calhar são as duas coisas."

E que consequências podem trazer decisões radicais? Fernando Heitor explica que "não se sabe. As revoluções são muito violentas, são drásticas, provocam muitos custos humanos e até muitos custos económicos e financeiros. E normalmente provocam aquilo que se chama clima instável no local de trabalho, o que é negativo."
E o economista argumenta: "Portanto, não se pode partir para a caça as bruxas, ainda que haja um e outro corrupto, um ou outro ladrão no local de trabalho, não significa que todos são gatunos, todos os setores não são corruptos. Portanto, é preciso se ter cuidado quando se estão a tratar de questões de recursos humanos. E depois há uma outra vertente, há pessoas que já têm experiência e esses quadros não pdoem ser preteridos, afastados de animo leve."

Dívidas da Sonangol

E a Sonangol, suspeita de falta de transparência, não enfrenta apenas problemas decorrentes da restruturação, no que diz respeito a sustentabilidade também não goza de boa saúde. Segundo o Maka Angola, a empresa enfrenta dificuldades em pagar uma dívida de mais de 13 mil milhões de dólares a banca internacional.

Rui Verde cita as dificuldades nos seus diferentes níveis:"Que está em dificuldades, está, e talvez por três razões: a primeira, que é óbvia, porque o preço do petróleo desceu. A segunda, que não é tão óbvia, é que a Sonangol serviu para tudo, durante anos e anos foi uma espécie de Estado dentro de um Estado. E a terceira tem a ver com o nível de endividamento muito elevado."
Esses problemas desencadearam outros ainda. De acordo com Rui Verde, no que se refere ao endividamento "criou alarme nos bancos europeus desde que José Eduardo dos Santos não cumpriu aquela promessa de uma garantia bancária para o BESA. As dificuldades da Sonangol acabam por refletir as dificuldades de Angola e não propriamente dificuldades concretas. É evidente que ela espera que a filha, e os seus assessores, resolvam os problemas." Deutsche Welle

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