quinta-feira, 11 de agosto de 2016

“É preciso saber ouvir o eleitorado”

Eleições municipais na África do Sul 

Tomaz Salomão, antigo Secretário Executivo da SADC, diz que é preciso respeitar a voz do eleitorado e aponta um conjunto de factores que terão contribuído para a derrota do ANC. A seguir, as partes mais importantes da entrevista concedida ontem.

O que falhou na estratégia do ANC? 

Estamos a falar de eleições autárquicas e locais. elas provaram que a democracia sul-africana está viva e é vibrante. Os partidos vão ter que se coligar, para poderem fazer a gestão dessas cidades. Partidos que durante a campanha eleitoral se digladiavam no parlamento, agora, não têm outra opção, além de conviver e trabalhar em conjunto. O grande vencedor destas eleições foi o eleitorado, porque mostrou aos partidos políticos o que pode fazer do ponto de vista de transmitir uma mensagem ao próprio ANC.

O desemprego, a corrupção e a impopularidade de Jacob Zuma terão gerado vantagens para a Aliança Democrática? 

É preciso olhar para os antecedentes destas eleições, há quatro momentos do processo. O primeiro evento é o chamado Maricana, onde foram mortos 34 mineiros pelas forcas policiais. Isto, de alguma maneira, contribuiu para um grande desgaste da imagem do ANC e do seu governo. O segundo evento é o famoso “caso Nkandla”, da casa do presidente da República da África do Sul, por sinal, presidente do ANC. O assunto acabou por ser arrastado e foi resolvido pelo tribunal. Quando um tribunal decide contrariamente àquilo que é a posição do Chefe de Estado, a sua imagem fica desgastada, e este aspecto não podemos desvalorizar. O terceiro aspecto está relacionado com as ligações de Jacob Zuma e sua família à família Gupta, que aparece naquele país não se sabe como e começa a tomar conta dos domínios económicos que antes eram de domínio de elementos das minorias brancas, ao mesmo tempo a tomar determinado tipo de atitudes que não foram de grande apreciação do povo sul-africano. Digamos que estas ligações não foram muito boas, ao ponto de não ser autorizada (a família Gupta) a aterrar na base aérea secreta das forças armadas da África do Sul. O quarto aspecto que não pode ser subestimado é o facto de o presidente ter removido o ministro das Finanças, “Nkandla Man”. isto não significa que o presidente não tenha autoridade constitucional para assim o fazer, só que as implicações dessa decisão contribuíram para a descida acentuada do rand para proporções nunca antes vistas. A economia começou a sofrer, os sul-africanos que tinham as suas poupanças na bolsa da África do Sul, de um dia para o outro, viram as suas poupanças ficarem reduzidas a zero. Tudo isto contribuiu para desgastar a imagem do ANC e, consequentemente, do seu presidente.

Quais são os recados que estes resultados transmitem aos partidos libertadores em África, incluindo a Frelimo em Moçambique? 

Eu acho que os dirigentes do ANC são claros em afirmar que é preciso perceber a mensagem que está a ser transmitida pelo eleitorado, isto em primeiro lugar. É preciso perceber que estas são eleições autárquicas, ocorrem numa determinada zona geográfica, onde as pessoas vivem e é imposto um determinado candidato, como aquilo que aconteceu em Tshana. todos assistimos às cenas de violência de ocorreram depois dessa imposição. isso concorre para que os dados fiquem dispersos, porque, quando a pessoa é activista de um determinado partido e não é eleita ou não é alistada e concorre de forma independente... foi o que aconteceu na província natal de Jacob Zuma, Nkandla. A mensagem é que, por um lado, é preciso olhar para a qualidade do serviço que se presta, por outro, é preciso saber ouvir o eleitorado. esta é uma mensagem e um recado para os partidos que pretendem concorrer nestas circunstâncias. O País

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