quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Analista critica agência que rebaixa para zero potencial económico de Angola

Crise no setor petrolífero seria um dos fatores para retração do crescimento angolano. Mas o economista Manuel Alves da Rocha aposta nos outros setores da economia do país. 

A economia angolana não terá o crescimento reduzido a zero em 2016. Esta é a estimativa do economista e investigador da Universidade Católica de Angola Manuel Alves da Rocha, que em entrevista à DW África criticou o relatório divulgado no final de semana pela agência de notação financeira Fitch. De acordo com este relatório, a queda do crescimento económico em Angola se deve, entre outros fatores, à crise da indústria do petróleo.
Segundo a Fitch, a previsão de crescimento da economia angolana deve chegar a zero até o fim deste ano. A redução contrasta com a meta do ano passado, que foi de 3,3%. Para o professor Manuel Alves da Rocha, apesar de o país enfrentar uma forte crise na economia, a estimativa da agência internacional não corresponde à realidade.
"Isso são previsões da Fitch, não quer dizer que venham a se consolidar. O FMI (Fundo Monetário Internacional) tem uma previsão, o Governo tem a sua previsão. E apesar de o Governo estar a fazer um esforço para manter o nível do investimento público, e manter também o investimento público como uma das alavancas da economia, o crescimento tem vindo a diminuir, isso é verdade. Mas eu não estou nada de acordo com a Fitch ao dizer que em 2016 a economia angolana vai apresentar um crescimento zero”, pontua o especialista, acrescentando que na revisão do Orçamento Geral do Estado 2016 o Governo baixou a sua estimativa de crescimento para cerca de 1% este ano.

Outros setores da economia

A queda da economia angolana se deve, sobretudo, segundo a Fitch, à baixa da cotação internacional do barril de petróleo. Angola seria grande dependente desta produção, uma vez que 95% de suas exportações são petróleo e a metade de suas receitas são oriundas destas vendas. Mas Alves da Rocha discorda e chama atenção para outros setores económicos do país.
"Não podemos esquecer que, para além do petróleo, Angola tem uma indústria transformadora; tem agricultra; tem a construção; tem o setor do comércio; tem o setor das telecomunicações; Angola tem o setor de energia. Apesar de não se beneficiarem de investimentos como no passado, estes setores de atividades estão a funcionar. Em uma menor intensidade, mas estão a funcionar”, pondera Alves da Rocha.
Em relatório divulgado em  julho deste ano, afirma o investigador do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola, a projeção de crescimento económico do país estava à volta de 2%. Contudo, Alves da Rocha admite que se uma nova análise fosse feita agora, a previsão para o fim deste ano seria bem menor. "Mas não estamos a admitir que o crescimento seja 0% este ano”, ressalta.
Para 2017, o economista diz que a projeção pode chegar a 0%, "dependendo da produção do petróleo e dos problemas financeiros das companhias petrolíferas estrangeiras que estão em Angola”. "O que nós admitimos para 2017, 2018 e 2019 é que o setor do petróleo cresça a uma taxa de 0%. Mas temos outros setores, e portanto não é lícito dizer que a taxa deste ano será de zero porcento”, acrescenta.

Crise financeira e investimentos

De acordo com o economista, a crise financeira do país pode se agravar ainda mais devido às reformas económicas necessárias que foram deixadas de lado.
"Nós não fizemos reformas que devíamos ter feito, no tempo em que devíamos ter feito, e no tempo em que essas reformas seriam, sobretudo, mais baratas, menos sacrificantes para a população. Nós não fizemos. Ou não fizemos as mais essenciais. E por isso a dinâmica de investimentos da economia angolana tem vindo a diminuir. Isto é um fato”.
A estimativa da Fitch reduziu a avaliação de Angola no mercado financeiro internacional. O país agora, segundo esta avaliação, é classificado como B – ou "lixo”. Manuel Alves da Rocha critica esta classficação e alerta que a avaliação negativa deve retrair ainda mais os investimentos estrangeiros em Angola.
"A Fitch, ao divulgar essas informações, já baixou o índice de classificação de Angola. E o que vai acontecer é que, como os investidores privados estrangeiros guiam-se muito por essas classificações, e o investimento estrangeiro em Angola, que  já não estava a ser de grande monta este ano, vai se retrair e simultaneamente as taxas de juro no mercado estrangeiro sobem, o que vai contribuir para agravar a situação económica e financeira do país”. Ler +

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