quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Jornal alemão critica duramente Isabel dos Santos e Governo de Angola

É bonita, a mulher mais rica de África. Priva com estrelas do cinema e exibe-o nas redes sociais. O luxo da rainha de Angola contrasta com a miséria em que vive a maioria da população, destaca diário Süddeutsche Zeitung. 

A reportagem intitulada #simplethings, publicada esta terça-feira (13.09), ocupa uma página inteira do Süddeutsche Zeitung. O diário alemão de Munique tem a maior tiragem dos jornais de qualidade da Alemanha e é considerado uma das maiores referências do jornalismo alemão.
Uma página onde se desmonta o glamour que rodeia a filha do Presidente angolano, Isabel dos Santos, e se fala da crise angolana, em torno de Eduardo dos Santos, que privatizou o Estado e que criou um aparelho que controla, por um lado, a segurança e o uso da força, e, por outro, setores chaves da economia angolana, como o do petróleo e o dos diamantes.

"A história dos ovos é uma vergonha"

Numa entrevista ao Financial Times, Isabel dos Santos disse que aos seis anos vendia ovos para comprar algodão doce e terá sido assim que começou o seu império empresarial.
É com essa história que começa a reportagem: "Na realidade, a história dos ovos é uma vergonha. Mas os angolanos adoram-na. Quando estão seguros que ninguém dos serviços secretos está por perto, troçam da história," comenta a jornalista Isabel Pfaff, autora da reportagem do Süddeutsche.

Um país, mundos diferentes

Mais do que buscar anedotas sobre a mulher que aos 43 anos é a mais rica de África, que evita os jornalistas e as perguntas incómodas, que raramente dá entrevistas e não se deixa fotografar, o jornal refere que a maioria dos angolanos jamais poderá fazer compras no Candando, o hipermercado localizado no Shopping Avenida, em Talatona, do qual Isabel dos Santos é proprietária.
Também dificilmente jantarão no restaurante Oon.dah, um dos mais caros de Luanda, ou beberão gin tónico no bar de praia Miami Beach, ambos pertencentes a Isabel dos Santos – que é também proprietária da UNITEL, maior provedora de telefonia em Angola, entre outros.
"Mais de um terço dos angolanos vive abaixo do limite da pobreza. Eles vivem no mesmo país da filha do Presidente, mas num outro mundo," escreve o Süddeutsche Zeitung.

MCK e Carlos Rosado

A jornalista Isabel Pfaff, autora da reportagem, traz opiniões críticas. "MCK descreve Angola em seus textos como uma cleptocracia de base familiar - com Isabel dos Santos como figura de proa. ‘Ela não ficou rica, porque é uma mulher de negócios muito inteligente, mas porque seu pai queria que fosse assim," escreve citando o rapper angolano.
O jornal alemão ouviu também o economista, jornalista e diretor do Jornal Expansão, Carlos Rosado de Carvalho, para quem "é dificil acreditar que toda a riqueza de Isabel dos Santos se deve ao seu talento empresarial. ‘Nenhuma da empresas que Isabel dos Santos gere apresenta suas contas de forma transparente".
Ao destacar a nomeação de Isabel dos Santos à presidência do Conselho de Administração da petrolífera estatal angolana, em junho passado, o texto volta a citar Rosado que dispara, "isso foi contra a lei," explicando o conflito de interesses – uma vez que empresas da filha do Presidente têm parcerias com a Sonangol.

Selfies e glamour

A discrição que a presidente do Conselho de Administração da petrolífera estatal Sonangol mantém relativamente aos seus negócios contrasta com a exposição da sua vida de luxo em redes sociais como o Instagram. Aí, Isabel dos Santos aparece fotografada ao lado de celebridades - como a estrela de Hollywood Lindsay Lohan, - ou em cenários como Cannes, durante o festival de cinema, descreve o Süddeutsche Zeitung.
Partilhas como estas deixam ativistas como Rafael Marques "à beira de um ataque de nervos", escreve o jornal alemão. Aquele que é tido com inimigo número um de Angola pesquisa e denuncia, há muitos anos, casos de corrupção e violações dos direitos humanos. "Marques quer processar o Estado angolano pela nomeação da filha do Presidente para a Sonangol, por uma questão de princípio", acrescenta a jornalista.
Citando Marques, o jornal alemão deixa claro o papel do ativista em Angola: "Se a autoridade investigadora não o faz, tenho que fazê-lo eu mesmo".
"Uma fotografia que a chefe da Sonangol publicou no Instagram em agosto mostra-a num iate, com os cabelos soltos, óculos de sol e o mar ao fundo. A foto tem a hashtag (etiqueta) #simplethings," encerra a reportagem do Süddeutsche Zeitung. Deutsche Welle

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