quinta-feira, 8 de setembro de 2016

“Moçambique vive uma governação atípica”

Nasceu na Frelimo e é hoje o número dois do segundo maior partido da oposição nacional. Em “Grande Entrevista a STV”, Lutero Simango abriu o peito e falou de tudo, um pouco, numa conversa que a seguir, trasncrevemos na íntegra 

O País (OP) - A veia política do seu pai foi a influência que seguisse a pegada política? 

 Lutero Simango (LS) - Não só o meu pai, penso que toda a família, porque o pai do meu pai era também um activista junto as comunidades locais em Machanga. O avo do meu pai também foi um resistente contra a ocupação colonial e terá sido morto pelo exército colonial. Quando o meu pai começa a se engajar activamente pela política o seu pai tinha sido já preso e estava nas celas da PID. Acredito que a influência política é uma veia familiar.

(OP) - Lembra-se que de algum ensinamento que o seu pai tenha lhe transmitido na perspectiva politica e que cresceu consigo e ditou esta caminhada na política?

(LS) - Os grandes ensinamentos que retive e que até hoje servem como base de valores morais, foi quando ele ia as reuniões da Frente de Libertação de Moçambique, em Dar-es-Salam, na Tanzânia. As vezes carregava-me no colo para participar em algumas dessas reuniões. Portanto, testemunhava, as vezes quando ele regressava a casa depois de ter estado muito tempo fora, vinha fardado com sua pistola e nós como crianças fazíamos uma série de perguntas. O que é isto ou aquilo. No entanto fomos nos percebendo que estava acontecendo uma luta de revolução em Moçambique. A nossa casa, para além de ser um centro de acomodação, era também um ponto de trânsito de pessoas que vinham de diversos pontos do país. A minha mãe também foi muito activa nessa altura. Quando regressava de uma das zonas em conflito vinha com crianças órfãs e fomos nos apercebendo que a vida é feita de lutas e acima de tudo respeitando os outros, sobretudo os mais velhos.

(OP) - Olhando para as circunstâncias em que os seus pais perderam a vida, não teria ficado um compromisso de família e pessoal que ditasse a entrada para a vida politica como reposição da imagem dos seus pais? 

(LS) - Há varias interpretações, porque quer o meu pai, ou a minha mãe, tiveram sempre os seus ideais. Quando saem da Rodésia do Sul (actual Zimbabwe) para a Tanzânia, saem já como uma família constituída, com condições mínimas para iniciar uma vida social. O meu pai, além de ser Pastor (da igreja) era também professor. No entanto, a sua partida para a Rodésia era uma forma de assumir o compromisso que tinha com a pátria. A sua ida a Tanzânia foi por via de UDENAMO, tendo chegado àquele país na companhia dos seus parceiros fundaram a Frente de Libertação de Moçambique e ele foi um dos grandes animadores desse todo processo. No entanto, o meu engajamento na vida política é obviamente, acima de tudo, um compromisso que tenho. De ter aprendido servir e amar o próximo e, naturalmente, e há sempre a costela do papá ou da mamã, o que é muito normal na política.

(OP) - Lembra-se de algum desabafo ou descontentamento do seu pai que tenha partilhado consigo ou com a família? 

(LS) - Quando estávamos na Tanzânia éramos muito pequenos, mas em algum momento percebíamos esta ou aquela movimentação. E fomos percebendo mais quando estávamos em Cairo (Egipto), quando contavam cenários, e tudo isto esta documentado no documento que meu pai elaborou onde conta a situação triste que se vivia no seio da “Frente”. Ai está exposto todo o seu sentimento sobre o que se passava no movimento.

(OP) - O que se pode sublinhar do documento? 

(LS) - Quando verificamos o que se vive actualmente, principalmente a crise e a situação política-militar do país, sobre a orientação do desenvolvimento, se o país devia ter seguido uma orientação socialista ou capitalista, hoje notamos que os problemas ainda persistem. Os problemas focalizados naquele documento. A questão de regionalização de Moçambique e a definição de orientação do desenvolvimento do país. Quando falamos do conflito, embora latente, em relação ao Sul, Centro e Norte do país, nesse documento está bem detalhado. A questão, de facto, reside nas lideranças, nas elites. Como se pode acomodar as elites de todas as regiões do país. O segundo aspecto está relacionado com a orientação económica do país.

Do PCN ao MDM

(OP) - Em 1992 com a assinatura do Acordo Geral de Paz criam-se condições para o multipartidarismo, Lutero Simango mais tarde cria o Partido de Convenção Nacional. O que ambicionava com a criação desse partido? 

(LS) - O mentor da formação foi de um grupo de indivíduos motivados pelo Vasco Campira Mamboia, na altura estávamos todos convencidos de que ia se iniciar um processo de uma democracia multipartidária, que era preciso ter uma voz no processo e fazer reviver o sonho dos muitos moçambicanos que sempre acreditaram num país democrático e multipartidário foi nessa perspetiva.

(OP) - E quando se cria MDM a oito anos reviu-se nos seus ideais e como estavam alinhados com o seu partido? 

(LS) - Quando o MDM foi criado sentimos que era ai onde tínhamos a maior força politica e todos podíamos no engajar numa forma construtiva de dar a nossa contribuição. Nos países africanos em particular, Moçambique para poder dinamizar uma mudança só é possível através de um trabalho politico. Foi por isso que todos nos embargamos nesse grande projecto que é o MDM, que consegui não so agregar os moçambicanos mas sim convergir numa única plataforma. Ler+

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